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EDP Renováveis: zombie à vista?

Tiago Miranda

Oferta Pública de Aquisição da EDP já levou acionistas a questionar a CMVM, que está a avaliar o projeto

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

A EDP Renováveis, em tempos uma das mais promissoras empresas a abrir os braços ao capitalismo popular, pode bem vir a ser o próximo zombie da Bolsa portuguesa, caso a EDP não consiga convencer 90% dos acionistas minoritários a vender os seus títulos por €6,75. Um cenário que deixaria a EDP Renováveis cotada em Bolsa, com alguns milhares de investidores de mãos atadas, e uma EDP obrigada a assumir os custos do reporte periódico de informação ao mercado para o seu braço de energias limpas.

Octávio Viana, presidente da Associação de Investidores e Analistas Técnicos do Mercado de Capitais, diz que na Oferta Pública de Aquisição (OPA) que a EDP lançou sobre a EDP Renováveis “há um risco muito grande que deixa a descoberto uma grande fragilidade do Código dos Valores Mobiliários (CVM)”. Segundo Octávio Viana, “é muito pouco provável que a EDP venha a atingir 90% dos direitos de voto abrangidos pela oferta”.

Em causa está o regime da aquisição potestativa de ações, que permite à empresa que lance uma OPA comprar as ações que não tenham sido vendidas no período regulamentar da oferta. Esse regime estipula que, se a oferente (neste caso, a EDP) alcançar 90% dos direitos de voto da empresa visada (a EDP Renováveis) e 90% dos direitos de voto abrangidos pela oferta, pode nos três meses seguintes adquirir as restantes ações ao preço pago na OPA.

Hoje, a EDP já detém 77,5% da EDP Renováveis. Para poder avançar com a aquisição potestativa e rapidamente tirar a Renováveis da Bolsa, a EDP precisará de conseguir comprar durante a oferta 90% dos 22,5% que não controla. Ou seja, o grupo liderado por António Mexia terá de alcançar 97,7% do capital da Renováveis. O que implica conseguir convencer a vender os detentores de pelo menos 176,4 milhões de ações da EDP Renováveis.

A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) deverá nos próximos dias emitir uma decisão sobre o projeto do prospeto da oferta. Fonte da instituição disse ao Expresso que, tal como noutras OPA, “a CMVM tem vindo a ser contactada e questionada a propósito da operação anunciada ao mercado, designadamente por acionistas e investidores”.

A partir do momento em que o prospeto seja aprovado, a OPA entra formalmente em marcha. Mas a missão da EDP não se afigura fácil. Esta semana, o Conselho de Administração da Renováveis, numa posição tomada pelos administradores independentes (da qual se afastaram os gestores com ligações à EDP), classificou como “adequada” a oferta de compra. O parecer admitiu, porém, a circunstância de “a contrapartida oferecida pela oferente poder não refletir integralmente o valor potencial da empresa no longo prazo”.

A gestora de fundos norte-americana MFS, que detém 3,1% do capital da EDP Renováveis, publicou a 21 de abril no seu site uma carta enviada à EDP em que nota que o preço oferecido não é justo para os minoritários, ficando abaixo dos €8 por ação que a administração de Mexia pediu em 2008 na dispersão em Bolsa da Renováveis. “Apelamos a que a EDP reveja o preço da oferta, que deve ser materialmente mais elevado”, lê-se na missiva.

A maior parte dos preços-alvo dos analistas que acompanham a EDP Renováveis situa-se também acima do valor agora oferecido pela EDP, que se defende dizendo que o preço está 10% acima da cotação média da EDP Renováveis nos últimos seis meses e que está em linha com outras ofertas para retirar da Bolsa os braços de energias limpas de algumas das maiores companhias de energia da Europa.