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BCE mantém estratégia: retoma na zona euro está sólida, mas inflação ainda não convence

Mario Draghi, o presidente do banco central, reforçou esta quinta-feira os argumentos para manter uma política expansionista “muito substancial”. Riscos internos à zona euro diminuíram, mas riscos globais aumentaram

Jorge Nascimento Rodrigues

A retoma cíclica na zona euro está cada vez mais sólida e os riscos descendentes diminuíram ainda mais desde a reunião anterior realizada em março, concluiu o conselho do Banco Central Europeu (BCE) na sua reunião desta quinta-feira. Contudo, tais riscos permanecem e estão “predominantemente ligados a fatores globais”, sublinhou Mario Draghi, o presidente do BCE, na conferência de imprensa em Frankfurt que se seguiu à reunião.

A nova formulação dando enfase a uma situação económica mais sólida e a um recuo global dos riscos foi um ponto de compromisso entre “alguns” membros do conselho "mais otimistas" que querem dar sinais mais claros ao mercado e “outros” que acham que não deve haver qualquer alteração na orientação dada pelo BCE.

Apesar da apreciação positiva sobre o panorama do crescimento económico na área da moeda única, os banqueiros centrais do euro continuam a manter prudência e a não mexer na política monetária, que vai continuar “substancialmente acomodatícia”, ou seja, na linguagem do BCE, claramente expansionista, com as taxas de juro em mínimos históricos e as compras de ativos, sobretudo de dívida pública dos membros do euro, até final do ano.

A prudência deriva, primeiro, do facto da trajetória da inflação, apesar de ascendente e próxima da meta de 2%, continuar a não dar confiança suficiente à equipa de Draghi de que convergirá duravelmente para aquela meta. Os fatores voláteis continuam a dominar a evolução da inflação global, enquanto a inflação subjacente (descontando os segmentos voláteis) continua baixa. O Eurostat divulgará na sexta-feira a previsão da inflação em abril na zona euro que deverá ficar acima de 1,5% registado em março, reaproximando-se de 2% verificado em fevereiro. Nos riscos domésticos, a situação do sector bancário da zona euro, e do peso do crédito malparado, foi referida por Draghi.

Em segundo lugar, a prudência prende-se com o fato de que, apesar dos riscos domésticos à zona euro terem diminuído, os riscos ligados aos fatores globais aumentaram. Por “fatores globais”, Draghi referia-se aos de ordem geopolítica, como a crise da Península coreana, ou com impacto global como serão as políticas efetivas da Administração Trump (sobre as quais o presidente do BCE diz continuar a não estar esclarecido), ou o efeito do Brexit, cuja “incerteza atual já está a produzir consequências económicas”, ou ainda “surpresas negativas possíveis nos mercados emergentes” (o que se passou na China no ano passado foi recordado pelo italiano)..

"A incerteza política por todo o lado" é outra componente desses riscos, ainda que o italiano se tenha recusado a fazer apreciações sobre a política na Europa, nomeadamente sobre as eleições presidenciais francesas. "Não decidimos a política monetária com base em prováveis resultados de eleições. Não reagimos à incerteza política em si mesma. Internalizamos os efeitos que possa ter no panorama de médio prazo", sublinhou.

O presidente do BCE afirmou que o processo de sequenciação da descontinuação da política monetária atual não foi discutido ainda, pois “não há necessidade para tal”, colocando um ponto final sobre as especulações sobre o tema.

  • A respeito da política da Administração norte-americana, o presidente do BCE disse esta quinta-feira que continua a achar prematuro reagir ou tomar decisões em relação a “políticas futuras” de Trump. Mas acha que o risco de protecionismo recuou na reunião do FMI da semana passada