Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

PIB português com maior revisão da zona euro

Christine Lagarde, diretora do FMI, tem 
avisado várias vezes 
para o crescimento medíocre na zona euro. Portugal é das economias mais lentas

Mike Theiler/Reuters

FMI aumentou em 60,5% a previsão para Portugal, o maior salto do euro. Mas crescimento na cional será dos mais lentos, apenas acima da Itália e Áustria

Depois de três anos de programa da troika, onde a regra eram revisões em baixa de crescimento e más notícias na frente orçamental, os portugueses já quase nem sabem o que é otimismo. Mas é isso que tem acontecido nos últimos tempos. No espaço de pouco tempo, várias foram as instituições que reviram favoravelmente os números para Portugal este ano. Ou seja, previsões de crescimento mais elevado e défice mais baixo. Esta semana, foi a vez do Fundo Monetário Internacional (FMI), que, no World Economic Outlook (WEO) de primavera, voltou a rever em alta a projeção de crescimento do PIB português. No outono do ano passado previa 1,1%. Em fevereiro, quando a missão pós-programa esteve em Portugal, subiu para 1,3%. E agora já prevê 1,7%. Trata-se de um salto de 60,5% no espaço de pouco mais de seis meses e que faz de Portugal o país com maior revisão na zona euro. Na União Europeia, apenas o Reino Unido teve uma revisão superior. E, a nível global, a revisão portuguesa foi a nona maior. O PIB nacional fechou 2016 em aceleração e há vários sinais positivos dos primeiros meses deste ano.

O FMI está agora muito próximo dos 1,8% inscritos pelo Governo no Programa de Estabilidade (PE) que entregou na Assembleia da República na semana passada. Está até mesmo muito mais próximo do que possa parecer. O valor do Fundo antes do arredondamento é de 1,741%, o que significa que basta uma centésima a mais de crescimento, qualquer coisa como cerca de €20 milhões mais, para ser arredondado para 1,8%.

Quer isto dizer que só há razões para sorrir? Nem por isso. Primeiro, porque o FMI engordou o crescimento de 2017 e espera um forte abrandamento para 1,5% no próximo ano. É a quarta maior travagem entre os países da União Europeia. Além disso, o próprio crescimento português deste ano não vai além do ritmo da zona euro, que é, por si só, pouco animador face a outras economias, nomeadamente a norte-americana. Depois, em segundo lugar, porque reviu em baixa os crescimentos para os anos seguintes face ao que esperava em outubro do ano passado, o que faz com que, mesmo com estas correções, o PIB de 2021 esteja apenas a cerca de €2000 milhões de distância do previsto no outono passado. O que faz com que o PIB português seja o terceiro mais lento até 2022, batendo somente a Itália e a Áustria, com um crescimento médio anual de 1,2%. Este cenário é distinto do do Governo, que no PE conta com uma aceleração da economia durante os próximos anos. E espera também uma redução do défice orçamental — para excedentes a partir de 2020 —, ao contrário do FMI, que aponta para um agravamento das contas públicas.

EUA ganham terreno

Portugal é lento numa Europa onde o ritmo de crescimento do PIB também não é assim tão animador. Apesar do otimismo moderado que o FMI procura transmitir este ano no WEO, o horizonte para os países da moeda única é francamente ‘medíocre’, para usar uma palavra que a diretora-geral do Fundo, a francesa Christine Lagarde, costuma proferir. O crescimento médio anual entre 2014, quando se iniciou a retoma, e 2022 não descola de 1,6%, o que contrasta com os 2,2% conseguidos entre 2000 e 2007, antes do colapso financeiro global. Os riscos de instabilidade financeira permanecem, com destaque para os problemas com o crédito malparado e o sobredimensionamento da banca sobretudo nos periféricos. A banca portuguesa regista o problema mais grave de dimensão excessiva e está em terceiro lugar no peso do malparado, depois da Grécia e Irlanda, refere o FMI no “Global Financial Stability Report” também divulgado em Washington esta semana, onde decorrem as reuniões de primavera do Fundo e do Banco Mundial.

A Europa não só foi castigada com uma recessão séria em 2009 como teve uma recaída em 2012 e 2013, na sequência da crise da dívida e da guinada para a política de austeridade em 2010. Continua a faltar à zona euro uma economia que seja um verdadeiro motor. A Alemanha, a maior economia do clube do euro, vai ser uma das mais lentas nos próximos anos e recusa-se a abandonar a estratégia de acumular excedentes externos excessivos. Desde 2011 que mantém superávites acima da linha vermelha de 6% do PIB traçada pelas regras europeias. Nas projeções do FMI, esta situação de violação das regras vai manter-se, pelo menos, até 2022. A Reuters revelou, esta semana, que o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble e a sua colega social-democrata da Economia vão argumentar, face à pressão dos EUA e do próprio FMI, que a ‘culpa’ é da política expansionista do Banco Central Europeu.

Uma parcela importante do otimismo das projeções da equipa de Lagarde vem dos Estados Unidos. O fosso entre a dinâmica europeia e o crescimento nos EUA vai acentuar-se no curto prazo. A zona euro mantém-se a crescer 1,7% este ano e desacelera no próximo, enquanto nos EUA a trajetória é inversa, com o crescimento a subir para 2,5% em 2018, o mais elevado nas sete maiores economias desenvolvidas. Os EUA regressam, assim, ao papel de ‘motor’ do mundo desenvolvido até 2019. Poderá reforçá-lo se a política expansionista prometida por Donald Trump se concretizar a partir do próximo ano orçamental. Os técnicos do Fundo simularam dois cenários para os efeitos da política orçamental de Trump e o impacto interno varia entre um e meio ponto percentual e, a nível global, entre duas décimas e um impacto negativo.

Claro que todos estes cenários do FMI para a economia global podem ser facilmente perturbados por eventos externos, como eleições ou tensões geopolíticas. E há, a nível estrutural, limitações importantes.

Artigo publicado na edição do Expresso de 22/04/2017