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Martifer soma sete anos de prejuízos

Empresa dos irmãos Martins entrou em falência técnica pela primeira vez desde que é cotada em Bolsa

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Carlos e Jorge Martins levaram a Martifer para a Bolsa em 2007. Desde então desvalorizou-se 97%

Carlos e Jorge Martins levaram a Martifer para a Bolsa em 2007. Desde então desvalorizou-se 97%

PAULO ALEXANDRINO

Há já vários anos que a Martifer apresenta os seus relatórios e contas com mensagens otimistas sobre o futuro que se avizinha. “To stay ahead”, em 2011, “A clear path”, em 2013, e “More focused everyday”, em 2014, foram apenas alguns dos lemas de uma companhia que se tornou uma referência no fabrico de construções metálicas. Mas a Martifer, que em 2008 chegou a faturar mais de €900 milhões, é hoje uma empresa relegada para a segunda divisão da Bolsa portuguesa, com uma capitalização bolsista de €24 milhões e com sete anos consecutivos de prejuízos. E 2016 levou a Martifer, pela primeira vez, para uma situação patrimonial deficitária, com capitais próprios negativos de €38 milhões.

Como chegou a este ponto a empresa controlada pelos irmãos Carlos e Jorge Martins (42,4%) e pela Mota-Engil (37,5%)? A Martifer fatura hoje menos de um quarto do que chegou a faturar em 2008. A carteira de encomendas na construção metálica no final de 2016 era de €239 milhões, o nível mais baixo desde que o grupo entrou em Bolsa (em 2007). O que falhou?

“No processo de diversificação do grupo foram feitas algumas apostas que não trouxeram o retorno pretendido”, admite o administrador financeiro da Martifer, Pedro Moreira. O gestor salienta também a “deterioração do contexto externo, nomeadamente no mercado de construção nacional e internacional”, bem como os efeitos do resgate financeiro de 2011, da crise da zona euro e da queda do preço do petróleo, com impacto na economia dos mercados emergentes.

Ao longo da última década, os irmãos Martins tentaram diversificar a operação da companhia. Quiseram levar as construções metálicas às mais diversas geografias do planeta. Puseram a Martifer a investir nas energias renováveis. Entretanto, assumiram a construção naval como uma área prioritária de atuação. Os resultados não foram felizes. Contas feitas, nos últimos sete anos, a Martifer acumulou €366 milhões de prejuízos. Desta forma, a empresa, que chegou a ter em 2010 mais de €300 milhões de capitais próprios, fechou 2016 com o seu primeiro ano com valor negativo, ou seja, em falência técnica.

A Martifer argumenta que, no ano passado, os rácios de liquidez do grupo foram reforçados e diz que o rácio de solvabilidade (capital próprio e passivo não corrente a dividir pelo ativo não corrente) “é confortável, com uma estrutura de capitais permanentes sólida, potenciada pelo aumento significativo da maturidade média da dívida financeira”. “Refira-se ainda que os capitais próprios nas contas individuais mantêm-se positivos e acima dos 50% do valor do capital social do grupo”, frisa Pedro Moreira.

Em 2016, a empresa gerou um EBITDA (resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) de €4,4 milhões, que nem sequer chegou para cobrir o custo da dívida (€4,5 milhões). No passado, os encargos financeiros da Martifer já foram bem mais elevados, quer porque as taxas de juro eram maiores, quer porque a companhia estava mais endividada. A administração dos irmãos Martins tem-se esforçado por aliviar o balanço do grupo. Do pico de €609 milhões de dívida líquida de 2008, a empresa conseguiu chegar ao final de 2016 com uma dívida de €236 milhões. Ainda assim, em 2016, a dívida líquida da Martifer era 54 vezes o EBITDA (em 2012 chegou a um rácio de 96 vezes).

Segundo fontes ouvidas pelo Expresso, a empresa espera em 2017 voltar a dar lucro, bem como reduzir a dívida líquida para um patamar inferior aos €200 milhões, inclusivamente abaixo do nível de endividamento que se registava antes da entrada em Bolsa.

Hoje, e após imparidades de largos milhões (de que a Martifer Solar é apenas um exemplo), a administração está convicta de que a Martifer já limpou o que havia a limpar e tem agora a casa arrumada. “Mantemos expectativas de recuperação da atividade operacional recorrente, que nos permitem projetar com moderado otimismo o ano em curso”, diz Pedro Moreira. A Mota-Engil, segundo maior acionista, não quis fazer comentários sobre a situação da Martifer.

E fora da Martifer?

Os irmãos Martins têm agora margem mínima para voltar a errar na estratégia. Até porque não foi só na Martifer que o passado lhes trouxe dissabores. Só na Estia SGPS, uma parceria para negócios imobiliários entre os irmãos Martins e a família Costa Leite, havia em 2015 prejuízos acumulados de €96 milhões. Aquela holding, que está fora do perímetro da Martifer, apresentava em 2015 capitais negativos de €15 milhões, de acordo com os dados recolhidos pelo Expresso.

Arguido num processo que diz respeito a um negócio imobiliário (envolvendo a empresa Cityprofit, participada da Estia SGPS), Carlos Martins não quer para já comentar a sua atividade empresarial fora da Martifer. Que inclui ainda interesses noutras áreas. Carlos e o seu irmão Jorge mantêm diversas empresas para projetos imobiliários, têm uma participação de 20% na Ceres Agriculture Holdings (depois de esta, ligada a um grupo paquistanês, ter comprado a portuguesa Nutre), fundaram em 2015 uma nova empresa de produtos agrícolas (a Agrikproducts) e voltaram a apostar na área da energia.

Na Martifer, as ações desvalorizaram-se 97% desde a entrada em Bolsa (os títulos foram vendidos a €8, permitindo angariar quase €200 milhões, e hoje negoceiam-se a €0,24). Se em Bolsa a mais conhecida empresa dos irmãos Martins sofreu um processo de destruição de valor, terão os dois empresários agora capacidade para encetar novas aventuras? Ora, a verdade é que nem tudo correu mal. O sector mineiro foi uma aposta certeira.

A holding I’M SGPS detém 40% da Almina, juntamente com a família Costa Leite (41%) e o Montepio (19%). Entre 2012 e 2015, a Almina Holding SGPS acumulou lucros de €106 milhões. Bons resultados para a empresa criada em 2008 para explorar as minas de Aljustrel (até então nas mãos do grupo Lundin). As mesmas minas que em 2009 levaram o ministro da Economia, Manuel Pinho, a demitir-se, por um gesto que fez a um deputado do PCP quando falava sobre o tema.

Artigo publicado na edição do Expresso de 22/04/2017