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Afinal, Alqueva valeu a pena

Desde o fecho das comportas da barragem de Alqueva, em 2002, o projeto de regadio alcança já mais de 120 mil hectares. Além da albufeira principal, o empreendimento é composto por um sistema de pequenas barragens, que comunicam entre si através de canais adutores, o que permite transportar água entre as várias localizações consoante as necessidades, quer para rega quer para abastecimento das populações

A água de Alqueva mudou a paisagem, a forma de trabalhar a terra e a prática de gestão. O Alentejo nunca esteve tão internacional

Vítor Andrade

Vítor Andrade

(texto)

Jornalista

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

(infografia)

Infográfico

A terra é exatamente a mesma, mas, 15 anos depois da construção de Alqueva, a planície está irreconhecível. Se um alentejano tivesse emigrado por volta do ano 2000 e só agora tivesse regressado, provavelmente não iria acreditar na paisagem à sua volta.

Onde dantes pontuavam os cereais de sequeiro, alguma agricultura de subsistência e muita terra semiabandonada, hoje domina o olival (mais de 35 mil hectares), a vinha, o milho, os frutos secos, as hortícolas, as leguminosas e até a papoila medicinal. Onde outrora se produzia quase só com recurso à água da chuva, agora regam-se plantações em 69 mil hectares, num total de mais de 110 mil hectares com água de Alqueva já disponível para novas produções. E o regadio não vai ficar por aqui, pois está prevista a sua extensão até aos 170 mil hectares.

“Houve claramente uma mudança de paradigma na agricultura alentejana — e a vários níveis: mais tecnologia; maior profissionalização; diversificação de produtos; interação com o sector da indústria agroalimentar; produção para os mercados externos e, não menos importante, uma modificação radical na paisagem, com impacto direto no turismo, por um lado, mas sobretudo na agricultura.” É desta forma que Rui Fragoso, professor e investigador na Universidade de Évora, descreve a ‘revolução’ induzida pelo projeto de regadio de Alqueva.

Nota, porém, que há uma espécie de fio de prumo que atravessa todas aquelas componentes da nova agricultura do Baixo Alentejo: o preço da água. O custo que os agricultores passaram a ter de incorporar nos produtos que vendem e que os obriga a fazer uma utilização mais eficiente daquele recurso.

“Com Alqueva nasceu claramente uma nova forma de encarar a gestão do negócio agrícola, nesta zona do país. Embora a custo, em muitos casos, mudaram-se radicalmente os hábitos das populações afetadas pela transformação que veio com a água, desinquietaram-se muitos dos espíritos mais acomodados à velha cultura de sequeiro, mas, no final, o balanço é claramente positivo”, resume ainda investigador, que desde 1996 acompanha o projeto de regadio de Alqueva.

Reconhece, no entanto, que há “pequenas franjas” que ainda contestam o projeto, ao fim deste tempo todo, sobretudo por questões ambientais.

Miguel Potes, investigador no Instituto de Ciências da Terra (também na Universidade de Évora), estuda há cerca de uma década o impacto ambiental do Grande Lago de Alqueva sobretudo ao nível das cianobactérias. Nome complicado para definir uma coisa tão simples como isto: uma espécie de algas, que na prática são bactérias que obtêm energia por fotossíntese.

Formam-se em algumas áreas da albufeira e, depois de uma análise mais detalhada feita no verão de 2014, concluiu-se que, “ao contrário do que seria de esperar, o Grande Lago está a absorver CO2 mais ou menos na mesma proporção que o registado no montado de sobro, nas zonas envolventes”.

O investigador, que agora tenciona proceder a uma análise desse efeito ao longo de 12 meses consecutivos, explica ainda que “sobre o ‘mito’ das neblinas, o que há a dizer é que o Grande Lago provoca mais ou menos os mesmos dias de nevoeiro — que se verificavam antes de Alqueva — mas com a particularidade de durarem mais algumas horas que o que era habitual”.

Refere ainda que as temperaturas só sofrem pequenas variações junto às margens do Grande Lago e que a mais de um quilómetro de distância “já não se nota nenhuma influência”.

Turismo ‘dispara’ em Monsaraz

Impacto a sério foi sentido no sector do turismo, em especial no território de Reguengos de Monsaraz, na margem norte da albufeira. Se, antes da barragem, a lendária aldeia no topo do monte (Monsaraz) tinha entre 30 mil a 40 mil visitantes por ano, agora triplicou, com os dados de 2016 a ultrapassarem a fasquia dos 100 mil.

“Como é óbvio, estamos orgulhosos destes resultados”, nota José Calixto, presidente da Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz. Explica que na última década surgiram algumas dezenas de pequenas unidades de turismo rural — sempre associadas ao Grande Lago de Alqueva — e que, com a abertura recente de uma unidade hoteleira de cinco estrelas em São Lourenço do Barrocal, a oferta deu um “salto qualitativo considerável”. De tal forma, que esta unidade projetada pelo arquiteto Souto de Moura, foi já distinguida internacionalmente pela conceituada revista britânica “Monocle”.

O conjunto dos investimentos turísticos realizados neste concelho originaram já perto de 250 postos de trabalho diretos, garante José Calixto. E, provavelmente, outros tantos de forma indireta, alavancados pelas empresas que gravitam em torno desta nova área de atividade para um concelho que dantes era tipicamente rural.

Apesar do fracassado megaprojeto do empresário José Roquete, naquele concelho, na Herdade do Roncão d’El Rei (São Marcos do Campo) — que previa a construção de sete hotéis, quatro campos de golfe, aldeamentos turísticos, duas marinas, um centro equestre e um campo de férias e a criação de mais de 2100 empregos —, o autarca de Reguengos continua confiante no potencial que ainda há por explorar. “O problema é que estamos a esbarrar constantemente em burocracias, sobretudo de ordem ambiental de ordenamento do território. Os processos não andam, as decisões tardam e as intenções de investimento, por vezes, acabam por esmorecer.”

Tanto o autarca de Reguengos como José Pedro Salema, presidente da EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva), notam que, ao contrário do que muito se veiculou, em tempos, na opinião pública, não há nenhum campo de golfe a ser regado com água de Alqueva.

“Até poderia haver — porque a componente turística faz parte deste empreendimento de fins múltiplos desde o início —, nomeadamente os que estavam previstos para o projeto de Roncão d’El Rei, mas como parou, não há, de facto, campos de golfe a consumir água da barragem”, remata o gestor.

A reboque da atividade agrícola crescente, são já vários os concelhos da região em cujas áreas industriais começam a escassear os lotes disponíveis. Tudo porque, segundo aquele responsável, há cada vez mais empresas fornecedoras de meios de produção (e também na área da agroindústria) que se estão a “instalar em força” no perímetro do regadio.

Artigo publicado na edição do Expresso de 22/04/2017