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Trump é a favor do “comércio recíproco”, disse o seu secretário do Tesouro

Steven Mnuchin vai dirigir o Tesouro norte-americano

MICHAEL REYNOLDS/EPA

Steven Mnuchin resumiu na palavra chave “reciprocidade” a estratégia norte-americana para o comércio internacional numa “conversa” em direto com Christine Lagarde este sábado à margem da assembleia do FMI em Washington

Jorge Nascimento Rodrigues

“No comércio internacional, somos a favor de acordos comerciais baseados na na reciprocidade”, resumiu Steven Mnuchin, o secretário do Tesouro da Administração Trump este sábado numa “conversa” em direto com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional. Um diálogo que ocorreu à margem da assembleia desta organização que termina amanhã em Washington.

“Se os nossos mercados estão abertos, os dos nossos parceiros também terão de estar”, sublinhou Mnuchin. Lagarde sintetizou a posição na expressão idiomática inglesa ‘tit for tat’, ou seja, uma coisa por outra, na interpretação benigna, aplicável, neste caso, ao sentido da reciprocidade em comércio internacional aludida pelo norte-americano. Na interpretação mais cru, ‘tit for tat’ significa dente por dente, olho por olho.

O diálogo entre Lagarde e Mnuchin realizou-se já ao final da tarde em Washington (noite em Portugal) e foi marcado por um tom cordial, longe da chamada de atenção para os riscos e ameaças apontados nos principais documentos do FMI divulgados para esta assembleia.

A 'limpeza' do termo protecionismo

O secretário do Tesouro sublinhou que o “comércio [internacional] é bom, se devidamente balanceado”. Lagarde não confrontou Mnuchin diretamente com o assunto do protecionismo. Aliás, o termo desapareceu da linguagem dos comunicados internacionais e não surgiu nesta 'conversa'. Já havia acontecido o mesmo na reunião do G20 realizada na Alemanha em março passado.

Aliás, o comunicado saído da reunião deste sábado do Comité Monetário e Financeiro Internacional abandonou a posição clara tomada em outubro do ano passado na assembleia do FMI que advogava a “resistência a todas as formas de protecionismo”. O vazio é substituído, agora, por uma recomendação para evitar “políticas viradas para dentro”.

A mudança de Administração norte-americana obrigou o G20 e o Comité dos ministros das Finanças e banqueiros mundiais a um novo exercício de compromisso: “O que tentamos fazer neste tipo de reunião [do Comité] é um equilíbrio positivo e construtivo. E o uso da palavra protecionismo é muito ambíguo”, referiu o mexicano Augustin Carstens, presidente do Comité, na conferência de imprensa que encerrou aquela reunião.

Recorde-se que, no dia anterior, o governador do Banco da China, Zhou Xiaochuan, apelou publicamente a uma “resistência conjunta ao protecionismo” e a uma aceleração “da liberalização do comércio mundial”, no âmbito da reunião dos ministros das Finanças e banqueiros centrais do G20 realizada também à margem da assembleia do FMI.

A “conversa” em direto de Lagarde com Mnuchin era um dos eventos mais aguardados deste sábado. “Um momento raro”, disse a anfitriã do diálogo, com a sala absolutamente cheia.

O secretário do Tesouro sublinhou que “os Estados Unidos estão bem posicionados para o crescimento” e que o objetivo da Administração Trump é saltar de um crescimento anual de 1,8% para 3% ou mais. Gracejou que o FMI é demasiado conservador quando projeta apenas 2,3% e 2,5% para este ano e o próximo, nas previsões, agora, publicadas no World Economic Outlook. Não foi claro quando inquirido por Lagarde especificamente sobre as ameaças à economia dos Estados Unidos. “Algum tipo de evento pode ser uma ameaça”, e não disse mais.

Plano de mexida nos impostos é anunciado para a semana

Mnuchin adiantou a Lagarde que dois dos ingredientes para o salto no crescimento são a reforma do sistema tributário – tanto para as empresas como para os contribuintes individuais – e aliviar o peso de uma regulação excessiva. Garantiu que a reforma tributária deverá “meter mais dinheiro no bolso da classe média” e que se “foi demasiado longe na regulação depois da crise financeira”.

O plano para a reforma fiscal deverá ser apresentado por Trump na próxima quarta-feira, soube-se publicamente por um tweet do presidente. O secretário do Tesouro gracejou, de novo, quando exemplificou que a simplificação que quer fazer nos impostos é reduzir as regras do IRS a um cartão postal, o que gerou em Lagarde alguma admiração, ao que Mnuchin corrigiu dizendo “bom, talvez, um grande cartão postal”.

Na passada sexta-feira, Trump deslocou-se da Casa Branca para o Departamento do Tesouro, que fica próximo, para assinar decretos presidenciais relativos ao plano nos impostos e à revisão da regulação. Sobre a mexida nos impostos, Mnuchin admitiu que possa gerar “alguns problemas orçamentais no curto prazo”, ou seja, deu a entender que poderá não ser neutral em termos orçamentais.