Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Rodrigo Tavares: “Tive a sorte de ter estado rodeado de pessoas exemplares”

joão lima

Aos 38 anos, foi o único português que o Fórum Económico Mundial escolheu este ano como um dos 100 “Jovens Líderes Globais”, personalidades com menos de 40 anos que se destacam na política, negócios, ciência, media, cultura e artes. O seu talento são as relações internacionais

Luísa Meireles

Luísa Meireles

texto

Redatora Principal

A sua nomeação como Young Global Leader foi uma surpresa?
Total, até porque já tenho cabelos brancos. Houve pessoas que me ajudaram nesta jornada, dando-me apoio quando ocupei posições seniores, apesar da idade júnior, e sem esperar agradecimentos.

Como é atribuído o prémio?
Eles nomeiam as pessoas com menos de 40 anos que já se destacaram nas mais diversas áreas e que por isso geram expectativas sobre o que podem atingir nos próximos anos.

E que têm um histórico de realizações extraordinárias... Qual é o seu?
A carreira foi-se gradualmente construindo em torno de três eixos, o sector público, académico e privado. No público, fui o responsável, entre 2011 e 2014, pelos Negócios Estrangeiros do Estado de São Paulo, que está entre as 20 maiores economias do mundo; era governador Geraldo Alckmin. Antes, entre 2008 e 2010, fui relator para África do secretário-geral da ONU Ban Ki-Moon, o mais jovem no cargo. No mundo académico, passei pelas universidades de Harvard, Berkeley, Gotemburgo e fiz o pós-doutoramento na Universidade de Colúmbia. Continuo a fazer trabalho académico diariamente, levanto-me muito cedo, sinto necessidade disso, mas nunca o faria em full time, não tenho essa ambição. Há 15 anos que o faço, e está disseminado em quatro livros e várias publicações. O terceiro eixo é o sector privado, com a criação da empresa Granito & Partners.

E como se reúnem os três?
São mundos com narrativas, códigos e talvez contactos e audiências diferentes, mas sinto-me em casa em cada um deles. São formas diferentes de tentar gerar algum impacto positivo e contribuir e criar valor para os outros.

Quando é que saiu de Portugal?
Sou de Castelo Branco, onde vivi até ir para Lisboa fazer a licenciatura em Relações Internacionais, que acabei por concluir em Estocolmo [1997-2001]. Saí de Portugal aos 21 anos, em 2000.

E como dá o passo para se ser relator para África de Ban Ki-Moon?
A sorte foi estar rodeado de pessoas exemplares, que me deram sempre apoio e confiaram e arriscaram em mim. Disseram-me que, aos 27 anos, fui o mais jovem relator de um secretário-geral. Eu trabalhava então no think tank da ONU, a Universidade das Nações Unidas, e fui chamado pelo meu chefe, que me disse que ia indicar o meu nome para essa tarefa, e eu aceitei. Fui entrevistado várias vezes e assumi as funções durante três anos. No quarto ano decidi sair. Em cada missão, preciso de sentir medo, de ver os obstáculos e sentir que eu e a minha equipa podemos tentar inovar. Incorporo essas missões de forma muito intensa.

Mas viveu em vários sítios...
Sim, na Índia, onde fiz o trabalho de campo para o doutoramento, alguns anos nos EUA, na Bélgica, na Etiópia (como funcionário na Missão Económica da ONU para África) e antes disso na Suécia. Agora vivo no Brasil. Doutorei-me com um estudo comparativo entre a integração regional na Europa e na Ásia do Sul e as consequências desses processos para a resolução de conflitos. Fiz trabalho académico enquanto fazia o doutoramento na Suécia, depois fui para Berkely [Califórnia], onde estudei e dei aulas, e fiz o pós-doc na Universidade de Colúmbia. Quando saí do Governo de São Paulo, fui senior research fellow em Harvard.

Como surgiu o convite para o Governo de São Paulo?
O governador procurava uma pessoa para liderar a criação de uma nova estrutura de Relações Externas no Estado de São Paulo, fui contactado, apresentei uma proposta, fui entrevistado e aceite. Conheci o governador no dia em que tomei posse. Tinha 33 anos.

Foi uma aposta?
Ele não me conhecia, eu era muito jovem para exercer essas funções, era estrangeiro... Na altura, era o único estrangeiro a assumir uma função pública no Governo do Estado e eventualmente na Administração Pública brasileira.

Não lhe trouxe problemas?
Não. Há um sentimento de hospitalidade em relação aos portugueses. E estes nem juridicamente falando são considerados estrangeiros, segundo a Constituição do Brasil, o que me permitiu assumir essas funções.

É depois disso que se lança no privado?
Foi enquanto estava na Universidade de Harvard que surgiu a hipótese de fazer uma mudança de carreira e entrar no privado. Criámos a Granito & Partners, uma consultora financeira internacional, que trabalha com corporações, detentores e gestores de ativos para gerar valor financeiro, económico e social e ambiental.

O que é a economia do impacto?
É um modelo em que todas as prestações geram não só valor financeiro mas também social e ambiental. Por exemplo, se um fundo de investimento quer investir em ativos financeiros que não gerem dano no meio ambiente ou na sociedade, a Granito estrutura matematicamente essas metodologias, gerando retornos iguais ou superiores. O maior projeto de energia solar na América Latina é da Granito. É possível fazer transações financeiras com propósito e valores.

O que faz um homem de Relações Internacionais numa empresa de transações financeiras?
A única coisa comum a esses três eixos é o facto de eu tentar sempre gerar algum impacto positivo. Preciso de sentir que o meu trabalho ou o da minha equipa não é autocentrado.

Acha que há uma nova geração de líderes em Portugal?
Sim, gente com menos de 45-50 anos, mais prática, tecnológica e globalizada, menos hierarquicamente conservadora e que começa agora a irrigar gradualmente a Administração Pública em Portugal, no sector privado e académico. Os portugueses são muito globalizados, temos muitos emigrantes, viajamos com frequência, mas somos tímidos na procura de cargos com maior dimensão internacional. Temos exemplos de sucesso, como é o caso recente de António Guterres, mas não é estrutural no país. Enquanto não tivermos uma cultura de projeção individual, de meritocracia, Portugal não produzirá lideranças globais, com exceção de alguns líderes.

Encara regressar a Portugal?
A minha relação com Portugal sempre foi oscilante, mas hoje é simples. É uma condição que me rodeia, não preciso de fazer grandes elaborações, apesar de ter vivido em muitos países e sentir-me em casa em muitos deles. Eventualmente, posso voltar a viver em Portugal, onde gostaria de continuar a contribuir, seja qual for a dimensão, mas isso é um instinto próprio meu

Como se sente como Jovem Líder Global ao lado de Matteo Renzi, Mark Zuckenberg, David Cameron ou Emmanuel Macron?
Alguns já conheço, aos outros será um prazer conhecer.

Vai continuar essa vida tripla?
Dupla agora, no privado com a Granito & Partners e a fazer trabalho académico.

E com esperança de haver um projeto português?
Adoraria, através do sector privado, académico ou público.