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Preço das casas no Montijo já descolou

Lugar de contrastes onde o património choca com a envolvente urbanística, mas há espaço para 
homenagear a “Cidade das Flores” e contemplar a vista do Seixalinho, apesar da falta de atrativos turísticos

Luis Barra

Moradores preferem esperar para ver. Para já só o preço das casas subiu e não é por causa do aeroporto mas porque os portugueses estão a fugir da capital

Alda Martins (texto) e Luís Barra (fotos)

O aeroporto não me diz nada.” É o comentário da dona Judite. Cabeleireira no Montijo, desde sempre, e agora praticamente na reforma, continua interessada nos assuntos da terra mas desiludida com o rumo que esta tomou. “Não acredito que vá melhorar”, diz enquanto folheia o jornal. Fala de uma cidade com um centro desertificado e com um comércio pouco apelativo.

Há muitas lojas encerradas e casas bastante degradadas. Luís Filipe Janeira, da imobiliária Century 21, não tem dúvidas que foram as grandes superfícies comerciais — como o Freeport e o Fórum Montijo — que afetaram o comércio tradicional. “A partir das oito da noite nem um gato se vê na rua”, diz outro morador.

O presidente da câmara do Montijo, Nuno Canta, acredita que a situação vai mudar no centro com a vinda do aeroporto para a base aérea nº 6. “Se a opção é Portela + 1 então queremos que o aeroporto venha para o Montijo e para a região de Setúbal porque tem um impacto significativo na economia local e regional”, diz ao Expresso, lamentado que as câmaras circundantes o deixem sozinho nesta luta, por serem de outra cor política.

Mas os habitantes preferem esperar para ver. “O povo do Montijo já conhece a história do aeroporto há muito tempo. As pessoas estão muito reticentes. Isto já foi a terra do jamais e dos camelos”, refere o responsável da Century 21, numa alusão à declaração do antigo ministro das Obras Públicas Mário Lino, que classificou a margem Sul do Tejo como um “deserto” e disse que o aeroporto, ali, nunca (jamais, com sotaque francês).

Numa década, até 2011, a população do concelho cresceu de 39 mil para 54 mil habitantes, com o impulso dado pela ponte Vasco da Gama, mas quem vive no Montijo há décadas fala de um dormitório e da ausência de vida noturna porque a cidade cresceu para a periferia. Hoje há oito bairros com cerca de 400 fogos cada.

Para Carlos Costa o aeroporto é “uma incógnita”. Há 16 anos quando abriu o café junto ao antigo cais fluvial onde se fazia a travessia Montijo-Lisboa achava que ia ser um sucesso. Mas a deslocação do cais para o Seixalinho levou-lhe boa parte do potencial do negócio e tirou ainda mais pessoas do centro. Agora aparecem algumas “na faixa dos 50 anos. Perguntam o que há para vender e como vai ser com o aeroporto”, diz o comerciante. “Para já está a dar publicidade há zona.”

O café ao pé do antigo cais é ponto de encontro dos habitantes do Montijo para falarem da terra. 
Ainda se encontram locais onde o tempo parou mas o imobiliário tem negócio garantido
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O café ao pé do antigo cais é ponto de encontro dos habitantes do Montijo para falarem da terra. 
Ainda se encontram locais onde o tempo parou mas o imobiliário tem negócio garantido

Luis Barra

O café ao pé do antigo cais é ponto de encontro dos habitantes do Montijo para falarem da terra. 
Ainda se encontram locais onde o tempo parou mas o imobiliário tem negócio garantido
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O café ao pé do antigo cais é ponto de encontro dos habitantes do Montijo para falarem da terra. 
Ainda se encontram locais onde o tempo parou mas o imobiliário tem negócio garantido

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Ainda se encontram locais onde o tempo parou mas o imobiliário tem negócio garantido
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O café ao pé do antigo cais é ponto de encontro dos habitantes do Montijo para falarem da terra. 
Ainda se encontram locais onde o tempo parou mas o imobiliário tem negócio garantido

Luis Barra

Captar turistas será uma das vantagens do aeroporto na margem sul mas Nuno Coimbra, da Predial Coimbra, não vê essa capacidade nas autarquias. “Se 1% dos turistas que chega a Lisboa viesse à margem sul, era muito. O Montijo não oferece nada que os mantenha cá.”

Antónia Caldeira, do hotel Tryp Montijo, garante que “terá sempre que haver um grande investimento”. O hotel, único na cidade, tem 84 quartos com uma ocupação quase sempre superior a 90%. A lógica é a de grupos, sobretudo franceses, chineses e japoneses e o preço por noite custa, em média, menos €10 do que em Lisboa.

A envolvente é que tem pouco para oferecer, além de algumas visitas guiadas, em parceria com as estufas de flores, ou do guia cultural com a indicação dos museus e alguns pontos de interesse desta zona de tradição tauromáquica.

Com o aeroporto, Antónia Caldeira espera que as receitas do Tryp subam porque poderá fazer outro tipo de ofertas individualizadas que compensem, por exemplo, ter serviço de transporte próprio, para Lisboa ou mesmo para o cais do Seixalinho de onde parte o barco — a cerca de 1,5 quilómetros do centro.

Depois da mudança do cais, a zona junto ao rio degradou-se e os espaços comerciais para venda são muitos: “aqui ao lado era o Bingo. Está assim há muito tempo”, comenta Carlos Costa.

O mercado da habitação é o único que já recupera, mas fora do centro. Os preços subiram entre 5% e 10% desde 2014, mas isso pouco ou nada tem a ver com o aeroporto. Para Luís Filipe Janeira, da Century 21, além da recuperação dos anos da crise, Lisboa é a grande variável que está a fazer subir a procura: “Começa a ser complicado ao habitante de Lisboa suportar o custo de habitação na cidade, com a vertente turística que esta tem”. Acrescem os acessos: “O Montijo é uma cidade ligada a todo o lado por autoestrada.”

Mas a oferta de casas novas é reduzida o que também coloca pressão sobre o preço. Ao Expresso, o construtor José Santos, no mercado há 29 anos, esclarece que “não há mais oferta porque a banca não dá financiamento à construção”.Em 2016, a câmara atribuiu 108 licenças de construção, reconstrução ou

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ampliação, mais 43,5% do que no ano anterior. O autarca Nuno Canta diz que o crescimento é mais visível ao nível dos loteamentos que ficaram parados com a crise [cerca de 50%] e cuja construção acelerou muito nos últimos tempos. Mas não teme uma nova ‘explosão’ da construção e a sua “preocupação é o desenvolvimento sustentável” do concelho.

Quem anda a comprar são sobretudo portugueses, mais de 90% a trabalharem em Lisboa, para “anteciparem maiores subidas”, justifica Nuno Campos, da imobiliária Carmo, que fala ainda da procura por parte de franceses. Já Nuno Coimbra chama a atenção para outro fenómeno: quadros ingleses entre os 40 e 50 anos, que trazem a família, e compram casas de valor superior a €200 mil, as que mais vendem.

Para o empresário só pode haver uma explicação: “Estão à espera do aeroporto e veem com facilidade a deslocação daqui para qualquer ponto da Europa. No Montijo têm melhor qualidade de vida e habitação muito superior.”

Carlos Costa acredita que o aeroporto pode trazer “mais gente para trabalhar e a construção de mais hotéis”, abrindo a porta à criação de uma envolvente onde as pessoas possam estar. Se assim não for “o que é que os turistas vêm para aqui fazer, comprar sapatos?”, questiona a dona Judite. “Só se tiverem partido um salto”. “Quando viajo gosto de trazer coisas típicas do sítio e aqui não há nada. Que comércio tradicional temos? Nenhum. Quem vier num voo low cost chega e vai à sua vida”, conclui.