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Os 4 perigos que ameaçam o mundo

A diretora do FMI, Christine Lagarde

FRANCOIS LENOIR/RETUERS

FMI destaca quatro riscos: ajustamento ‘disruptivo’ na China, desigualdade, baixa 
da produtividade e unilateralismo

Há um otimismo moderado no ar. Um clima positivo envolveu a assembleia semestral do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial esta semana em Washington, apesar do disparo recente das tensões geopolíticas e até de algum alarmismo em torno da iminência de novas guerras regionais. Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, fala de uma “primavera” na economia mundial, e o seu conselheiro económico, Maurice Obstfeld, diz que “as notícias para a economia mundial são boas”.

Contudo, apesar do tom dos dois franceses, as projeções até 2022 são modestas para o crescimento mundial e para o comércio internacional, e a dinâmica económica fica longe dos oito anos anteriores ao colapso financeiro de 2008 (ver artigo na outra página). O FMI não tapa o sol com a peneira e alerta que há “impedimentos estruturais” que alimentam estas projeções fracas e que até podem matar a tal primavera económica. As quatro palavras chave para os riscos potenciais de médio prazo são: China, desigualdade, produtividade e unilateralismo.

A China deixou de crescer a dois dígitos em 2010 e as projeções do World Economic Outlook (WEO) divulgadas esta semana apontam para um ritmo anual inferior a 6% a partir de 2020. Pequim procura realizar uma transição ‘suave’ de modelo de crescimento económico, com o objetivo de atingir uma sociedade de consumo de massas. O FMI reviu em alta o crescimento para 2017 e 2018, mas o ‘motor’ nas grandes economias emergentes passou para a Índia. O problema estrutural que ameaça esta transição chinesa vem do facto de a economia depender “perigosamente de uma expansão rápida do crédito”, intermediado por um sistema financeiro “cada vez mais complexo e opaco”, alerta o “Global Financial Stability Report”, outro dos relatórios divulgado esta semana. O risco é “um ajustamento disruptivo no médio prazo”, avisa aquele relatório.

Lagarde quer 
“crescimento inclusivo”

A desigualdade no aproveitamento dos benefícios da globalização e da revolução tecnológica desde a década de 1980 entrou na agenda do FMI, e não só por causa das investigações do economista francês Thomas Piketty. Um estudo do FMI, divulgado por Vítor Gaspar na conferência de imprensa do “Fiscal Monitor”, revela que, numa amostra de 19 economias desenvolvidas, emergentes e em desenvolvimento, apenas três registaram uma diminuição da desigualdade entre 1985 e 2015 — o Brasil, a França e a Coreia do Sul. Em todas as outras, houve um aumento, com a China a sobressair como líder do agravamento da desigualdade, seguida da Rússia e da Índia. Japão e EUA destacam-se nos desenvolvidos. Por isso, Lagarde refere que a nova palavra de ordem do FMI é “crescimento inclusivo”.

O desafio da produtividade

A desaceleração da produtividade é a terceira preocupação do FMI, apesar da revolução digital. O ritmo de crescimento abrandou desde 2000 nas economias desenvolvidas até entrar no vermelho após a grande recessão de 2009. Desde 2010 voltou a crescer, mas está longe do ritmo dos anos 90. Nas economias emergentes tem estado a desacelerar desde pouco antes do colapso financeiro de 2008. As razões de fundo são o envelhecimento da população em muitas partes do mundo, o abrandamento do crescimento do comércio internacional desde 2012 e o fraco investimento privado desde o colapso financeiro de 2008. Um estudo do Fundo sublinha inclusive que os efeitos negativos da grande recessão na produtividade são “persistentes” e não transitórios.

Finalmente, verifica-se a emergência de uma orientação geopolítica para o unilateralismo, sobretudo em algumas grandes economias desenvolvidas. O problema com o unilateralismo é que está a deteriorar as bases em que a ordem económica mundial tem funcionado, colocando em risco o próprio papel do FMI. “O sistema de relações económicas internacionais do pós-II Guerra Mundial está sob severa tensão”, sublinhou Obstfeld na apresentação do WEO. O seu foco principal é a Casa Branca, mas o contágio está a dominar a Europa. “As próximas eleições [na Europa] oferecem uma plataforma para que estas tendências de políticas protecionistas entrem na corrente [política] dominante”, lê-se no WEO.