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MSF Engenharia com salários em atraso entre três e sete meses

A MSF Engenharia sofreu no Qatar um revés comprometedor

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Em 2017, a construtora pagou meio mês de salário. Quem regressou do Qatar não recebe há sete meses.

A MSF Engenharia é a mais recente vítima do vendaval destruidor que a indústria da construção enfrenta. Este ano, a comunidade laboral recebeu meio mês de salário e os atrasos dependem dos mercados. Variam entre três e os sete meses e alguns dos trabalhadores já optaram por rescindir com justa causa para acederem ao subsídio de desemprego.

No caso da MSF, o desaire no Qatar é um fator adicional. A administração recorreu na semana passada ao mecanismo PER (Processo Especial de Revitalização), convencida e que os credores estarão do seu lado na luta pela viabilização.

BCP e Novo Banco apoiam a viabilização

BCP e Novo Banco são os principais credores e estão em sintonia com a gestão, presidida por Carlos Pompeu Fortunato, na procura de uma solução que evite o colapso de um grupo histórico da engenharia portuguesa, com um currículo de prestígio, uma imagem de solidez e que não enveredou por aventuras quando o mercado fervilhava.

As famílias fundadoras (Moniz da Maia, Serra e Fortunato) estiveram na fundação do BCP (10%), Plêiade, com José Roquette (30%), do banco BIG (5%) e na privatização do Banco Totta através da Valores Ibéricos (15,2%).

A construtora registou um recorde de faturação de 510 milhões de euros (2011) que se reduziu para 120 milhões em 2015 (80% no exterior). Ainda assim, está entre as 10 maiores do sector, operando em 10 países – os mercados mais recentes, com obras rodoviárias, são o sultanato de Omã, Moldávia e Serra Leoa. Nos últimos exercícios tem registado perdas pesadas: 57 milhões, no biénio 2014/15.

Salários em atraso

"Este ano, o único dinheiro que recebi foi meio salário na semana da Páscoa,depois de muitas mensagens a pedir paciência e a prometer uma solução para breve. Mas, desculpas não pagam as contas", contou esta semana ao Expresso um trabalhador, 59 anos, que optou por rescindir.

No seu caso, encontrava-se na bolsa de disponíveis depois de ter regressado há 10 meses de Cabo Verde. Contava regressar a África para a primeira empreitada na Serra Leoa, uma obra de reabilitação rodoviária de 32 milhões de euros adjudicada em 2016. Mas, tal nunca se verificou.

Situação mais dramática vive quem regressou do Qatar. Um trabalhador contou ao Expresso que não recebe há sete meses. Quando deixou o Qatar, em fevereiro, acumulava seis meses sem receber.

"A realidade é esta: vou a caminho de oito meses sem receber", desabafa ao Expresso. "Quando se pergunta quando tencionam pagar, nunca há uma resposta concreta", acrescenta.

Com o colapso do Qatar, seguiu para a bolsa de disponíveis em Portugal. Em Angola, o atraso é de seis meses. Os salários em atraso, dizem os trabalhadores, afetam "toda a comunidade laboral, em todos os mercados e não apenas quem se encontra à espera de colocação". Mas, segundo fonte sindical, no caso de consórcios ativos como os que vigoram nas duas barragens da Iberdrola, no Alto Tâmega, os pagamentos estão em dia.

Albano Ribeiro, presidente do Sindicato da Construção de Portugal, confirma que o atraso depende dos mercados e que em Portugal está nos três meses. Mas, reserva uma posição para depois de analisar "os documentos e informações que a administração ficou de enviar" na reunião da semana passada.

A MSF conta com mais de 700 assalariados com vínculo. Contactada pelo Expresso, a MSF não se pronunciou sobre o caso dos salários em atraso, nem sobre o andamento das principais frentes de obra.

A construtora explica as dificuldades que atravessa "pela destruição do sector da construção em Portugal" e pelos "enormes sobrecustos que incorreu com os contratos do Qatar".

A dívida financeira ronda os 120 milhões num passivo que supera os 300 milhões de euros. As dívidas a fornecedores superam os 70 milhões.

Pesadelo no Qatar

A MSF fora há dois meses notícia no Expresso Diário por estar em fuga do seu principal mercado - o Qatar, com uma uma carteira de 900 milhões de euros. Duas empreitadas públicas (600 milhões), envolvendo rede viária, infraestruturação de uma zona industrial e edifícios de apoio a uma nova base naval, entraram em derrapagem de prazos e custos.

Na altura, a construtora reconheceu percalços e conflitos com os donos de obra. Mas, desmentia que estivesse de saída. Os consórcios "têm dívida aos bancos locais, como têm créditos sobre os seus clientes", defendia-se a construtora.

Mas, a situação no Qatar tornou-se insustentável. A tensão laboral levou à intervenção policial numa das obras e a construtora deu instruções ao corpo técnico para abandonar o país.

O drama no Qatar é agora apontado pela administração com a causa próxima tornou inevitável um plano de recuperação. A MSF alega que "os grandes atrasos nas obras são reconhecidamente da responsabilidade dos clientes", mas a suas reclamações "não foram ainda atendidas".

A situação no Qatar é apenas a ponta mais critica de um imenso icebergue. Toda a indústria sofre com a redução de obras e o corte de financiamento da banca. Sem liquidez para financiar a atividade, as construtoras entram na espiral viciosa de agonia e descapitalização que, no caso da MSF, a aprovação do PER tentará romper.

A solução PER conta com o beneplácito do Novo Banco e BCP, disponíveis para "dotarem a empresa de meios financeiros" para impulsionar a viabilização. É um sinal de confiança "na capacidade de revitalização da empresa", diz a administração da MSF.

Em 2016, a MSF Engenharia contara com boas notícias do lado das barragens da Iberdrola. O consórcio com a Ferrovial ganhara a construção de duas centrais hidroeléctrica, no Alto Tâmega, na zona de Chaves – 170 milhões de euros no total.

A MSF, aliada à Somague, permanece em litígio com o Estado por causa do resgate da concessão do Túnel do Marão. O consórcio reclama em tribunal uma indemnização de 535 milhões de euros, depois do Tribunal Arbitral ter decido um acerto de contas com base na obra executada e não paga (46 milhões).