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As 4 ameaças à estabilidade financeira mundial, segundo o FMI

Yuri Gripas / Reuters

Riscos de vaga de desregulação nos Estados Unidos e contágio, crise no sector financeiro da China, bolha de exuberância bolsista e turbulência na banca da zona euro. São os avisos do Global Financial Stability Report do FMI divulgado esta quarta-feira

Jorge Nascimento Rodrigues

A estabilidade financeira continuou a melhorar desde a análise realizada em outubro do ano passado, conclui o Global Financial Stability Report (GFSR) do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado esta quarta-feira em Washington. Este relatório, tal como o World Economic Outlook e o Fiscal Monitor, é publicado duas vezes por ano para as reuniões da primavera e do outono do FMI. A reunião de primavera está a decorrer em Washington até ao fim de semana.

O quadro macroeconómico global é o principal responsável pelo otimismo dos técnicos do Fundo sobre a estabilidade financeira global. A economia mundial vive uma “primavera” como tem referido Christine Lagarde, a diretora-geral da organização.

A 'primavera' tem contagiado o mundo financeiro. As bolsas mundiais continuam no verde pelo segundo ano consecutivo, depois da quebra de 2015. A valorização das bolsas nos mercados emergentes é de dois dígitos desde início de 2017 e os índices em Wall Street registaram novos máximos históricos no primeiro trimestre. Os índices de volatilidade desceram em Nova Iorque e na zona euro em relação aos picos de 2016. O crescimento anual do comércio internacional vai acelerar até 2022 para um ritmo próximo de 4%.

Os riscos que podem estragar o otimismo

Mas este otimismo tem pés para andar? A interrogação é do próprio GFSR. Tudo depende de quatro riscos maiores para a estabilidade financeira mundial não se materializarem. Dois deles têm como epicentro os Estados Unidos e os outros dois apontam para a China, a maior economia do mundo, segundo os critérios do FMI, e a zona euro.

De Washington vem o mais importante dos quatro riscos. A Administração Trump pode conseguir fazer passar no Congresso uma reversão excessiva da regulação financeira que procurou responder às causas que levaram ao colapso financeiro de 2008. O potencial para uma ampla reversão da regulação financeira na maior potência financeira do mundo pode colocar em causa os passos dados para maior resiliência do sistema financeiro mundial. Além do mais, essa ampla desregulação, decidida unilateralmente em Washington, pode gerar um efeito em cadeia no mundo. “A desregulação num dado país pode levar a uma desregulação em outros neste sistema financeiro internacional altamente interconectado”, avisa o FMI.

Um efeito da desregulação pode ser o disparo do apetite pelo risco. As expetativas criadas pela Administração Trump em relação a essa desregulação, ao pacote de corte nos impostos e aos gastos em infraestruturas já provocaram em antecipação um ‘aquecimento’ de Wall Street. O alerta é dado pela subida para máximos de cinco anos do rácio entre a valorização bolsista das cotadas e os seus resultados ajustados pelo ciclo, conhecido tecnicamente pelo acrónimo em inglês CAPE, criado pelo Nobel Robert Shiller. Esse múltiplo subiu de 25,92 para 29,19 em doze meses. Está ainda muito longe dos máximos históricos registados em dezembro de 1999 (no pico da bolha das dot-com), mas aproxima-se dos níveis verificados em julho de 1929, antes do colapso financeiro de final desse ano. Se a concretização das promessas estiver de acordo com o esperado, a exuberância bolsista pode disparar. Mas se for “menos benigna do que o esperado”, a volatilidade pode regressar em força. Em suma, a instabilidade financeira pode ser gerada pelas duas vias.

Os perigos que vêm da China e da zona euro

O terceiro risco vem da China. O modelo de crescimento chinês depende “perigosamente” de uma expansão rápida do crédito, intermediado por um sistema financeiro "cada vez mais complexo e opaco", avisa o GFSR. "A persistente má alocação de recursos levanta a possibilidade de um ajustamento disruptivo na China no médio prazo", lê-se, ainda, no documento.

Os indicadores são, de facto, alarmantes. Os ativos dos bancos representam mais do triplo do PIB chinês, muito mais em termos relativos do que os 250% na Alemanha e os 200% no Japão, outras grandes economias. Se os bancos chineses forem obrigados a realizar provisões para garantirem um rácio Tier 1 abaixo de 10%, a fatia do sector bancário que ficaria em apuros é de 45%. Este nível é inferior ao que sucederia na Índia (77% ficariam em risco), na África do Sul (74%) ou na Rússia (49%), para citar parceiros dos BRIC, mas, em virtude do peso mundial da China, o impacto seria sistémico globalmente.

Finalmente, a zona euro traz para o risco de instabilidade financeira, o problema da situação da banca na zona euro. O relatório do FMI sublinha que “a retoma cíclica será insuficiente para restaurar a rentabilidade de bancos persistentemente fracos”. Os “desafios estruturais” são vários: crédito malparado em várias economias do euro; falta de eficiência operacional em virtude de sobredimensionamento; e desadaptação dos modelos de negócio do sistema financeiro a um quadro de crescimento anual medíocre, de taxas de juro baixas do Banco Central Europeu durante muito tempo, de aumento da longevidade das populações e de estagnação de produtividade. Essa mistura “mudou fundamentalmente a natureza da intermediação financeira”, conclui o GFSR. Portugal e Itália estão em destaque nas preocupações do FMI (ver artigo). O FMI anunciou que vai proceder a uma avaliação do sector financeiro europeu ainda este ano.

  • FMI diz que banca portuguesa e italiana são o elo mais fraco da zona euro

    Crédito malparado, dimensão excessiva, exposição à dívida pública e necessidade de alterar os modelos de negócio são os problemas apontados por relatório do FMI divulgado esta quarta-feira. Malparado em Portugal está acima de 12%. Alerta acontece um dia depois de o fundo ter revisto em alta o crescimento da economia portuguesa