Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Alemanha defende excedente externo contra pressão dos EUA e FMI

Berlim vai fechar 2016 com um excedente externo de 8,5%. A Alemanha viola as próprias regras europeias desde 2011 e deverá continuar a fazê-lo até 2022. A Reuters revela esta quarta-feira a defesa de Wolfgang Schaüble contra a pressão dos EUA e do FMI

Jorge Nascimento Rodrigues

A Reuters divulgou esta quarta-feira que os ministros alemães das Finanças e da Economia prepararam um documento de oito páginas em defesa dos excedentes externos elevados do seu país. O objetivo é defender a estratégia alemã nas reuniões de bastidores em Washington no âmbito da assembleia da primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e na cimeira de ministros das Finanças do G20.

Os alemães pretendem enfrentar a pressão dos Estados Unidos e do próprio Fundo para reduzir o excedente excessivo. O G20 divulgará um comunicado na sexta-feira ao final da tarde (hora de Portugal).

O excedente externo da Alemanha poderá ter fechado no ano passado em 8,5% do PIB, segundo as previsões do FMI, divulgadas esta semana. Christine Lagarde, na semana passada, numa entrevista coletiva a órgãos de comunicação europeus, sublinhou que “poderá talvez ser justificado um excedente de 4%, mas não de 8%”.

O excedente externo alemão está muito acima do limiar dos 3% definido nos critérios do Tesouro norte-americano para “vigiar” os seus parceiros comercias e está em situação de excedente excessivo definido pelas próprias regras europeias. Os regulamentos da União Europeia definem como excessivo um excedente externo superior a 6% do PIB nos últimos três anos. Essa linha vermelha é violada pela Alemanha continuamente desde 2011 e pela Holanda desde 2010. Nas projeções do FMI, essa situação de excedente excessivo manter-se-á até 2022 para a Alemanha, quando o excedente poderá descer para 7,4%.

O problema está no BCE, dizem os alemães

Wolfgang Schäuble – ministro das Finanças, do partido da chanceler Angela Merkel - e Brigitte Zypries – ministra da Economia desde janeiro, do SPD, o parceiro social-democrata da coligação governamental – afirmam na defesa que "a Alemanha não usa instrumentos protecionistas" para obter tais excedentes. E chutam o problema para o Banco Central Europeu (BCE), reclamando que a equipa de Mario Draghi “comece a normalizar a sua política monetária”. O argumento é que a redução da política expansionista pelo BCE terá um efeito de valorização do euro. “Um euro mais forte reduzirá automaticamente os excedentes comerciais”, concluem os alemães.

A diretora-geral do FMI, na entrevista já referida, admitiu que “a Alemanha com o envelhecimento da sua população, deveria ter – e pode legitimamente ter o objetivo – de um certo nível de excedente [externo]”, mas considera o atual excedente excessivo. Para minorar o reparo, Lagarde refere que “a boa noticia é que a Alemanha já começou a investir. Mas é um processo lento e a nossa recomendação é para ainda mais investimentos, por exemplo, em mais banda larga”.

Na semana passada, no relatório semestral do Tesouro norte-americano sobre os parceiros comerciais que integram uma “lista” para monitorização permanente, o caso da Alemanha é sublinhado. Ela regista o excedente externo mais elevado do mundo em termos absolutos (287 mil milhões de dólares no final de 2016, cerca de €270 mil milhões), superior ao da própria China (200 mil milhões de dólares, um pouco mais de €188 mil milhões). O relatório afirma que a taxa de cambio efetiva da Alemanha se depreciou em 10% desde 2009. O excedente comercial nas trocas com os EUA é o terceiro maior, depois da China e do Japão. O Tesouro norte-americano decidiu não rotular de “manipuladora de divisas” nenhuma das seis economias da sua lista de monitorização – Alemanha, China, Coreia do Sul, Japão, Suíça e Taiwan.

O Tesouro norte-americano reconhece, contudo, que a Alemanha não dispõe de política monetária própria, pois integra uma zona de moeda comum (o euro) com um banco central, o BCE. No entanto, o relatório afirma que a Alemanha “como quarta maior economia do mundo com um amplo excedente externo tem a responsabilidade de contribuir para um crescimento mais equilibrado da procura e para fluxos comerciais mais equilibrados”.

  • No relatório que divulgou esta sexta-feira, o Departamento do Tesouro norte-americano não considera a China como tendo incorrido em práticas de manipulação da taxa de câmbio em relação ao dólar. Trump desfez-se da promessa, que fizera durante a campanha eleitoral, de acusar Pequim desse ‘crime’