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Fundo otimista com crescimento mundial. Mas Trump pode deitar tudo a perder

Maurice Obstfeld, economista chefe do FMI

MOLLY RILEY / AFP / Getty Images

O crescimento da economia mundial vai acelerar este ano e no próximo para 3,5% e 3,6% respetivamente, segundo as previsões do World Economic Outlook divulgado esta terça-feira. A maior incerteza é qual vai ser efetivamente a política dos EUA

Jorge Nascimento Rodrigues

O crescimento económico mundial vai acelerar em 2017 e 2018, prosseguindo o bom clima desde o verão do ano passado, segundo a previsão, claramente otimista, do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgada esta terça-feira.

A “economia global parece estar a ganhar força”, diz o World Economic Outlook (WEO), o mais importante relatório de análise e previsões do FMI publicado no âmbito da reunião da primavera da instituição que se realiza esta semana em Washington. A taxa de crescimento do PIB mundial vai acelerar continuamente de 3,1% em 2016, para 3,5% este ano e 3,6% no próximo ano.

A puxar pela economia mundial nestes dois anos estão os EUA, a França e o conjunto das economias emergentes e em desenvolvimento, com destaque para a Índia e a reversão da recessão de 2016 na Rússia e no Brasil.

EUA em alta, zona euro igual

A revisão em alta mais importante em relação ao anterior WEO de outubro do ano passado registou-se precisamente para a projeção de crescimento em 2018 dos EUA. Foi corrigida em mais quatro décimas – 2,5% em vez de 2,1%, o crescimento mais elevado, no próximo ano, entre as sete maiores economias desenvolvidas do mundo.

Em claro contraste, o comportamento da zona euro não é famoso. O PIB mantém o mesmo ritmo este ano e desacelera em 2018. Nas grandes economias do euro, apenas a França regista uma aceleração do crescimento nos dois anos. Alemanha e Espanha desaceleram e a Itália permanece o carro-vassoura da zona euro, com uma desaceleração para 0,8% em 2017 e 2018.

O desempenho é misto no caso do Japão e do Reino Unido; o crescimento ganha gás este ano, mas reduz-se no ano seguinte. O Japão torna-se inclusive a economia mais débil no mundo desenvolvido em 2018, com uma projeção de crescimento de 0,6%, abaixo do próprio crescimento de Itália, e com um risco de recessão de 40% nos próximos 12 meses. No caso do Reino Unido, o processo do Brexit deverá custar em 2018 uma desaceleração de meio ponto percentual no crescimento.

Trump é a grande incógnita

Mas o otimismo atual do FMI pode esbarrar com um conjunto de incertezas que enchem a lista de riscos para este ano e o próximo. “A economia mundial pode estar a ganhar força, mas não há certeza que já estamos completamente recuperados”, afirma Maurice Obstfeld, o conselheiro económico do FMI, na apresentação do documento. Aliás, não é, por acaso, que o título deste WEO é interrogativo: “Ganhando força?”.

Na linha da frente das incertezas está o facto do “sistema de relações económicas internacionais do pós-2ª Guerra Mundial estar sob severa tensão” e não se saber o que se segue, sublinha Obstfeld.

O WEO aponta para três riscos mais importantes no curto prazo: a opção pelo protecionismo, podendo levar a um processo global de guerra comercial e, no mínimo, de muitas disputas na Organização Mundial do Comércio; a reversão da legislação de regulação do sistema financeiro nos EUA que poderá estimular o risco excessivo nos investidores; e uma subida mais acelerada das taxas de juro por parte da Reserva Federal norte-americana.

Estes três riscos, a concretizarem-se, têm o epicentro em Washington, mas a sua repercussão negativa será global.