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Projeto da antiga SLN na Expo fica nas mãos do Montepio

Projeto de loteamento do terreno da Turifenus ainda espera aprovação na Câmara Municipal de Lisboa

José Caria

Empresa da Galilei sob administração judicial deve €17 milhões à Caixa Económica

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Era um dos maiores projetos imobiliários da antiga Sociedade Lusa de Negócios (SLN). A construção de um empreendimento de uso misto em Lisboa, junto à zona da Expo-98, prometia um investimento avultado e, perante a elevada procura na área do Parque das Nações, o Montepio avançou com um financiamento de €15 milhões, que o grupo não conseguiu pagar, deixando agora o banco como credor e ator decisivo no desfecho do projeto.

Em outubro de 2009, quando a Caixa Económica Montepio Geral (CEMG) firmou o empréstimo à empresa Partinvest, para o projeto a desenvolver pela subsidiária Turifenus, já o Banco Português de Negócios (BPN) tinha sido nacionalizado, esvaziando a SLN de um dos seus principais ativos. Sem BPN, a SLN transformou-se em Galilei, para tentar sobreviver com outras áreas de negócio, como o imobiliário. Uma das jóias da coroa era um terreno no cruzamento da Avenida de Berlim com a Avenida Infante Dom Henrique, colado à Gare do Oriente, numa das áreas mais valorizadas de Lisboa.

A verdade é que, passada quase uma década, o terreno permaneceu devoluto. Em 2006, o ateliê de arquitetura Risco, coordenado por Manuel Salgado, chegou a desenvolver um plano de pormenor para aquela área, que não foi aprovado. Em 2007, o arquiteto foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa (CML) e desvinculou-se do ateliê. Em 2012, já depois de garantido o financiamento do Montepio, foi aprovado um plano diretor municipal (PDM), que levou a Turifenus a encomendar ao ateliê Risco um projeto de loteamento, concluído em 2015. Tomás Salgado (filho de Manuel Salgado), que dirige o ateliê Risco, disse ao Expresso que para a aprovação na CML falta agora a assinatura de um contrato de urbanização entre o município e os proprietários.

Fonte da administração da Turifenus confirma que o projeto de loteamento ainda carece de aprovação na CML, mas diz acreditar que durante este ano seja aprovado. Só depois será desenvolvido o projeto de arquitetura. “Mas não será naturalmente a Galilei a desenvolvê-lo”, frisa a mesma fonte. O esboço do projeto apresentado na CML previa vários edifícios, entre os quais uma torre de 110 metros (que seria um dos prédios mais altos de Lisboa). A principal componente seriam escritórios, com uma pequena parcela de apartamentos turísticos e ainda comércio nos pisos térreos. Mas o desenho final do projeto depende de quem vier a implementá-lo. Em processo especial de revitalização (PER), a Turifenus, da Galilei Imobiliária, irá deixar ao critério do Montepio o futuro do projeto na zona da Expo.

O administrador judicial da Turifenus, Francisco Areias Duarte, confirmou ao Expresso que “o Montepio há de decidir o que quiser deste PER”, pois tem um crédito garantido no projeto, por via da hipoteca constituída sobre o terreno em Lisboa. Em setembro, o Montepio avançou com uma ação de execução para cobrar €17,3 milhões à Turifenus, por conta do financiamento de €15 milhões, respetivos juros e ainda outros financiamentos de menor valor. O banco espera conseguir recuperar este montante, “pela garantia hipotecária que detém e pelo interesse já manifestado por promotores imobiliários”, diz um porta-voz da CEMG.

Embora a localização do terreno seja privilegiada e valiosa, há alguns fatores de incerteza que podem deixar o projeto pendurado no balanço do Montepio durante algum tempo. Segundo as fontes ouvidas pelo Expresso, nenhum investidor aceitará entrar sem que a CML aprove o loteamento. E mesmo depois disso faltará elaborar e fazer aprovar a arquitetura.

José Almeida Guerra, presidente da empresa Rockbuilding (que reclama ao grupo Galilei €176 mil por serviços de gestão imobiliária que ficaram por pagar), nota que o terreno em causa está por cima de um lençol freático e numa área sujeita a inundações, o que obrigará ao desenvolvimento de um circuito hidráulico juntamente com a construção dos edifícios. O gestor admite que, apesar deste desafio e da burocracia de licenciamento, o Montepio conseguirá recuperar o crédito concedido, dado o valor do metro quadrado edificável naquela área: a €800 por metro quadrado, uma construção de 24 mil metros quadrados valeria €19 milhões.

A título comparativo, no mês passado, o edifício de escritórios Entreposto (que tem 48 mil metros quadrados e fica a 600 metros do terreno da Turifenus) foi vendido por €65,5 milhões, segundo anunciaram as consultoras Cushman & Wakefield e JLL.