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Parar seis meses, definir 40 anos

‘Rafa’, Mário e Adriana concordam que as pausas “no que a sociedade considera normal” ajudaram a definir os seus percursos

José caria

Pausas para viajar, conhecer universidades ou empresas fazem parte do percurso formativo de futuros trabalhadores

Rute Barbedo

Mário não desvia os olhos do telefone. Anda de um lado para o outro, entre as alas da incubadora onde pôs a crescer a sua terceira startup, a Climber, e tem os ponteiros contados para a entrevista. “40 minutos, uma hora”, limita. Assim que lhe pedimos para recuar aos tempos de estudante, relata episódios à velocidade da luz.

É uma das duas características em comum com as colegas com quem se senta à mesa de reuniões. A outra é não terem um percurso linear, já que antes de saberem o lugar profissional onde iriam passar o resto das vidas, decidiram dar aulas de salsa em Teerão, ensinar inglês no Vietname ou ser um apoio informal ao ensino no Quénia. Mário Mouraz (28 anos), Adriana Correia (23) e Rafaela Leal (20) são três das cerca de 1500 pessoas que passaram pela Associação Gap Year Portugal, que apoia e promove os chamados períodos sabáticos nos momentos que antecedem decisões importantes como o ingresso no mundo do trabalho ou a escolha de um curso superior. E parar para pensar, aqui, não significa perder o movimento; é antes “uma pausa naquilo que a sociedade considera normal”, define o fundador da Climber.

Até sair da academia, Mário não tinha grandes dúvidas. Formou-se em Gestão, pós-graduou-se em Hotelaria e fez meio MBA no Peru. Seguiu-se um emprego no hotel Four Seasons (da cadeia Ritz), em Lisboa, pelo que, do alto dos seus 23 anos, o currículo já brilhava. “Mas sentia que o meu trabalho não era valorizado”, explica. A inquietação conduziu-o a Londres, de novo ao mundo dos hotéis de luxo, “até que apareceu a oportunidade de trabalhar para uma startup” ligada à área do turismo, na qual Mário ficou como responsável por mercados como o Reino Unido e Espanha. Mais uma volta: a empresa foi comprada por um gigante e Londres era, afinal, muito cinzenta.

Foi então que conheceu a AIESEC, uma das maiores organizações estudantis do mundo, e foi parar ao Irão através de um estágio numa organização não-governamental (ONG). “Paris ou Toronto, naquela altura, já não seriam desafiantes”, afirma. Às claras, deu aulas de Criatividade e Inovação; às escuras, encontrou-se com feministas, ensinou iranianos a dançar salsa, bebeu o álcool proibido e apaixonou-se. “Foram seis meses em que dormia quatro horas por dia”, conta o empreendedor.

Mas as viagens ainda não tinham acabado ali. O passaporte havia de ser carimbado pelas autoridades do Burkina Faso, país onde viveu sem cama e sem frigorífico, a comer “todos os dias a mesma coisa”. A próxima cena é Mário Mouraz a criar uma empresa em Lisboa. “Chamava-se Travel with Mario e eram guias digitais de viagens. Só que entretanto já vou na terceira startup”, acelera o gestor (a Climber, uma solução tecnológica de gestão de preços em hotelaria, prepara-se para uma ronda de capital com o objetivo de alcançar €600 mil).

A pergunta é: onde se tocam as noites curtas de Teerão e o espírito empreendedor deste licenciado em Gestão? Tudo, dirá a Associação Gap Year Portugal. “[Este tipo de viagens] é uma forma de perceber o que queremos fazer na vida, de procurar a nossa paixão”, resume Gonçalo Azevedo Silva, de 23 anos, presidente da organização, que interrompeu a licenciatura em Economia para poder combater aquilo que o perturba: “Que um miúdo com 21 anos — ou 23, como eu — escolha a carreira profissional que vai seguir até aos 70 anos. As pessoas não têm de seguir todas o mesmo caminho. Passamos a vida a ouvir coisas como ‘estuda para um dia seres alguém’ sem estarmos preocupados em sermos alguém todos os dias.”
Procuram-se pessoas 
com experiências

O mesmo grau de confiança sai da boca de Adriana Correia, quando conta que, depois de um périplo de seis meses pelo sudeste asiático, voltou para Portugal com a noção de que o mais permanente da vida é a impermanência dos dias. Tradutora independente e membro do departamento de apoio a todos os que querem praticar esta paragem (conhecidos como gappers), afirma: “Se tiver de ir na próxima semana dar aulas de inglês para o Vietname, vou. Hoje não tenho qualquer problema em despedir-me e mudar.” Após as formações em Ciência Política e Gestão de Recursos Humanos, quando já trabalhava numa consultora, decidiu lançar-se para a Índia com uma lista de países que gostava de visitar e uma noite reservada num alojamento barato de Bombaim. “Com a licenciatura que tirei, as oportunidades são poucas, tirando estágios não remunerados”, concretiza Adriana.
Discutir com a Gap Year como “largar as amarras” deu-lhe “alguma segurança”.

Caso surgisse alguma dúvida, eu sabia que havia uma associação especializada que estava lá para apoiar. Ainda assim, eles propuseram-me um plano, mas não segui nada daquilo. A minha vida sempre foi muito formatada e eu precisava de viver uma experiência minha”, contextualiza. Duas semanas após ter regressado a Portugal, recebeu o contacto de uma multinacional da área de recursos humanos. “Eles procuravam alguém sénior. Eu sabia que não era, mas fui na mesma”, relata Adriana, prosseguindo: “Fiquei. E disseram-me claramente que foi por causa do meu gap year, porque uma viagem deste género provava que eu estava preparada para enfrentar dificuldades.”

Ao contrário de Mário e de Adriana, Rafaela mantém o dedo no gatilho da pausa. “Tenho 20 anos e sinto que ainda estou no meu caminho.” Um dia meteu na cabeça que queria conhecer a Eslováquia. Desde então, intercala a formação em Relações Internacionais com viagens — na sua grande maioria, inseridas em projetos com organizações não-governamentais e associações de direitos humanos — que têm permitido “abrir os olhos para a realidade”, adquirir competências de comunicação e descobrir vocações.

“Fui para Nairóbi com a missão de fazer jogos, atividades, com mais de 200 miúdos, mas a minha causa acabou por ser fazer com que eles comessem”, conta Rafaela Leal, explicando que a teoria (e os projetos desenhados à distância) nem sempre bate certo com as necessidades do plano real.

Se isto é um ano sabático? Formalmente não, mas a Associação Gap Year também explica que “não existem modelos fechados”, motivo pelo qual a organização está a dar maior atenção à personalização deste tipo de projetos. No caso de Adriana, a estudante enquadra: “Vivo a minha vida com base nas viagens que fiz; foi com elas que fui ganhando maturidade. Passei de uma miúda do 12º ano que queria ser piloto da Força Aérea para alguém que acha que quer seguir fotojornalismo e dar formação em direitos humanos.” Os interesses são muitos, as viagens já ultrapassaram a dezena num ano letivo, mas o plano é consistente: “Quero sustentar-me com as minhas paixões.”