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Briga acionista na Amorim Turismo

É de €19 milhões o valor da ação que opõe os três ramos na interpretação do acordo parassocial

O número impressiona: €19.367.439,47 — 19 milhões, 367 mil, 439 euros e 47 cêntimos. É de leitura difícil o valor da ação que está no circuito judicial e que atesta que a briga entre os três ramos Amorim que partilham a Amorim Turismo (AT) segue acalorada.

José Américo Amorim Coelho pretende impedir em tribunal uma eventual recomposição acionista, esgrimindo com o direito de preferência consagrado no acordo parassocial. E como a interpretação do contrato acionista não é consensual, decidiu litigar com o cunhado Jorge Armindo, o tio Joaquim Amorim e os primos André e Carla, seus parceiros na holding turística. O processo judicial envolve ainda a Troylake Investments, o braço do fundo Aquarius que ficou com 75% do negócio hoteleiro (e do casino de Troia) da AT, viabilizando a sociedade sufocada pela dívida bancária. A Troylake terá negociado a entrada no capital da AT, mas a operação estará à espera que a paz acionista regresse.

José Américo e o filho José Miguel detêm 25% da holding, através da Tropicalocean. A sociedade perdera a providência cautelar para impedir a operação, mas em setembro entregou no Tribunal Cível de Lisboa a ação principal, avaliada em 30 mil euros e um cêntimo. Uma das sociedades visadas, num sinal de irritação pela ofensiva litigante, pediu a revisão do valor da ação. E assim se chegou aos €19,3 milhões. Com esta alteração, a tarifa das custas judiciais sofre um agravamento exponencial — sobe, para cada parte, de €612 para mais de €230 mil. O valor fica a doer e serve para testar a convicção de quem acusa de levar o processo até ao fim.

Jorge Armindo, principal acionista (50%) e presidente da AT, descartou comentar o caso, remetendo explicações para a autora da ação, a Tropicalocean. Mas ressalva que “eventuais quezílias entre empresas” em nada afetam a amizade pessoal — José Américo esteve entre os 120 convidados que celebraram recentemente, em Lisboa, o seu 65º aniversário.

A Tropicalocean ignorou os pedidos do Expresso para explicar as motivações e o fundamento da ação que apresentou. A mesma atitude foi adotada pela família de Joaquim Amorim, irmão mais novo de Américo. O seu universo empresarial atravessou há quatro anos uma fase crítica, com as principais sociedades a recorrerem ao mecanismo de proteção de credores, forçando a venda de 25% que detinha na Interfamília II, a holding de topo da família que controla a Corticeira. A sociedade (Ancarin) que participa na AT reduziu a posição para 5%, transferindo para os dois filhos de Joaquim os restantes 20%. É na qualidade de acionistas que André e Carla Amorim aparecem citados na ação da Tropicalocean.

Em 2005, no âmbito da reorganização de negócios do universo Amorim, a AT ficou repartida por quatro ramos da família e a gestão foi entregue a Jorge Armindo. As outras participações são de carácter mais financeiro. A primeira cisão verificou-se com a saída, em 2012, do núcleo de António Amorim, pai do presidente da Corticeira. Na altura, a empresa já acumulava perdas avultadas, que a severa recessão agravaria.

José Américo, que se dedica a negócios pessoais desde que deixou a Corticeira, estaria descontente com o desempenho e manifestou a sua oposição, em 2014, à operação com o fundo Aquarius da Oxi Capital, apresentando uma providência cautelar. Foi o primeiro sinal público da briga privada entre acionistas. O percalço atrasou a operação, mas o assunto morreu. A parceria com o fundo revelou-se vital para a reestruturação financeira e a sobrevivência da holding, carregada com uma dívida de €200 milhões à banca. Como se deduz pela nova ação, José Américo permanece isolado face à coligação de Jorge Armindo e dos herdeiros de Joaquim Amorim. A AT detém 25% da subholding hoteleira Bl &GR, dona dos hotéis de luxo Troia Design Hotel, Lake Resort e Vilalara Thalassa Resort. O negócio com a Aquarius deixou de fora o casino da Figueira da Foz e a posição de 32% na Estoril Sol.