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Lagarde dá recado a Trump: “Estamos todos no mesmo barco”

Christine Lagarde lidera o FMI

PAUL J. RICHARDS/Getty

Atuações unilaterais, rompendo com a cooperação internacional, ameaçam a “primavera” da economia global, avisou esta quarta-feira em Bruxelas a diretora-geral do FMI

Jorge Nascimento Rodrigues

“No nosso mundo hiperconetado, as políticas nacionais tendem a ter impactos além-fronteiras. Estamos todos sentados no mesmo barco, em sentido figurado. É, por isso, que precisamos de uma abordagem que encoraje os países a apoiar uma forte cooperação internacional”, referiu esta quarta-feira Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Bruxelas.

O pior que pode acontecer a uma economia mundial que vive atualmente uma “primavera” é os responsáveis políticos mundiais “autoinfligirem-se ferimentos”, disse Lagarde numa conferência no Bruegel, um think tank europeu criado em Bruxelas em 2005 e presidido por Jean-Claude Trichet, ex-presidente do Banco Central Europeu.

Num recado direto à Administração Trump e à vaga de populismos na União Europeia, a francesa recordou que “durante 70 anos, o mundo respondeu aos desafios através de um sistema de regras, princípios partilhados e instituições”, referindo que a própria razão de ser do organismo que dirige “é fomentar tal cooperação”.

“Vivemos um momento em que a economia mundial necessita de uma combinação entre políticas domésticas sólidas e um compromisso firme para a cooperação internacional”, afirmou (sublinhados de Lagarde). "Fomentar um crescimento mais resiliente exige mais cooperação internacional - não menos", o que implica, sublinhou, "evitar quer medidas protecionistas quer políticas distorcidas que originem vantagem competitiva".

Primavera económica mundial

A diretora-geral do FMI deu a boa nova de que a economia mundial está a viver “uma primavera”, em que as economias emergentes e em desenvolvimento vão continuar a contribuir “com mais de ¾ do crescimento global em 2017”. Não antecipou se o FMI vai rever em alta as previsões de crescimento da economia mundial quando este divulgar na próxima semana o mais aguardado capítulo do World Economic Outlook, em antecipação à assembleia-geral da primavera do Fundo e do Banco Mundial em Washington entre 21 e 23 de abril.

Na última atualização de projeções em janeiro, o FMI apontava para taxas de crescimento de 3,4% em 2017 e uma aceleração nos quatro anos seguintes (3,6% em 2018 a 3,8% em 2021). Uma clara aceleração em relação à estimativa de crescimento mundial de 3,1% para 2016. O motor continuarão a ser as economias emergentes e em desenvolvimento com taxas de crescimento que chegarão aos 5% em 2020, segundo as projeções de janeiro.

A diretora-geral do Fundo alertou para riscos mais imediatos, como a incerteza política, destacando a Europa, o protecionismo ameaçando o comércio global, condições financeiras globais mais apertadas que poderão desencadear saídas disruptivas de capitais das economias emergentes e em desenvolvimento, e o unilateralismo prejudicando a cooperação internacional.

Como tendências negativas de fundo, Lagarde sublinhou a continuação do abrandamento do crescimento da produtividade, o envelhecimento da população em muitas economias, e o aumento da desigualdade fruto dos efeitos colaterais negativos da globalização e da revolução tecnológica.

Aviso sobre a dívida pública

No caso das economias com maior gradu de envelhecimento populacional, a diretora-geral do FMI alertou que as políticas atuais não podem prejudicar as gerações futuras, condenadas a “pagar as ações imprudentes da geração atual. E isso inclui um ambiente danificado, infraestruturas delapidadas e dívida pública elevada”.

A dívida pública mereceu-lhe uma referência mais alongada. “Hoje, a média da dívida pública nas economias desenvolvidas regista um máximo do pós-guerra – 108% do PIB. Por isso, precisamos de enquadramentos fortes de política orçamental e maiores esforços para fazer baixar a dívida pública para um nível seguro, especialmente nas sociedades que estão a envelhecer”.