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Têxtil e calçado. As indústrias sexy de Portugal que estão a pôr o país na moda

Pedro Santos Gerreiro, diretor do Expresso, e Carlos Álvares, presidente do Banco Popular em Portugal, na arranque da conferência Próximo Nível

Tiago Miranda

Depois de atravessarem verdadeiros dias de tempestade, a indústria têxtil e do calçado parecem ter chegado em Portugal a bom porto. Na conferência “Próximo Nível”, organizada pelo Expresso em parceria com o Banco Popular, discutiram-se as ideias que podem ajudar a consolidar os dois setores – e os erros que podem deitar as ambições “made in Portugal” por terra

O momento é favorável para o têxtil e o calçado português: fala-se de uma indústria de calçado que se quer posicionar como a “mais sexy da Europa”, de uma indústria têxtil que está perto de um máximo histórico de exportações, de criadores novos que chegam às passerelles com garra e talento. Os elogios tiveram o seu lugar no primeiro dos sete debates do “Próximo Nível”, que se realizarão ao longo do ano, organizados pelo Expresso em parceria com o Banco Popular. Mas foram acompanhados de um alerta claro: é preciso que a indústria não volte a cair nos erros do passado.

A conversa, em ambiente intimista, aconteceu na manhã desta segunda-feira na sede do Banco Popular e juntou quatro representantes do setor têxtil e do calçado, dos mais experientes aos que se esforçam por desbravar caminho e estabelecer uma marca própria. Exemplo disso são Ana Paula Rafael, CEO da empresa familiar Dielmar – a empresa de Alcains, Castelo Branco, que começou como uma pequena alfaiataria e é hoje uma marca de vestuário masculino presente em 25 países – e Patrick de Pádua, estilista de 29 anos que se tem distinguido em Portugal e lá fora, mas que continua a sentir dificuldades em impor o seu nome como uma marca.

“Os portugueses não compram marcas de design, é muito raro investirem em designs nacionais, sobretudo dos novos criadores”, alerta o estilista, relatando a própria experiência de não conseguir investimentos e do “pouco diálogo” entre os jovens criadores e as empresas de vestuário. Neste momento, o ponto principal de venda das criações do estilista, que começou por exibir o seu trabalho nos desfiles do Sangue Novo, na ModaLisboa, e foi escolhido para transitar para a plataforma LAB e exibir sazonalmente coleções no evento de moda, é o Colombo.

Mas se o jovem se queixa da falta de apoios e aposta nos novos talentos, do lado da indústria assegura-se que esse talento é desejado – e que faz falta apostar no design e na diferenciação dos produtos. “Na conceção técnica acho que Portugal tem competências extraordinárias, mas depois há a conceção de pensar o produto, o conceito da marca. Aqui faltam-nos muitas competências em Portugal”, explica João Maia, diretor-geral da APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos). “O design é claramente a área mais prioritária de todas. Isto é crítico para nós”.

A receita ideal: sofrimento, aposta, risco

Para a CEO da Dielmar, que foi aliás uma força motriz na transformação da pequena alfaiataria numa marca com cerca de 400 trabalhadores, é esse talento e essas ideias que importa acrescentar ao setor: “A inovação é fundamental, pensar todos os dias num produto novo é fundamental”. Para isso, é preciso antecipar o que acontece lá fora, o que o cliente quer e onde se pode acrescentar valor: “Tem uma dose de sofrimento grande, uma dose de aposta, também algum risco. O tiro ao alvo é muito difícil, e os caminhos do erro são milhões”. Num mercado que define como “volátil”, Ana Paula Rafael reforça: “Temos de pensar que somos muito bons, mas que todos os dias há alguém que está a fazer melhor do que nós”.

E é sobre essa necessidade de fazer dos produtos portugueses, que acreditam ter excelente qualidade mas pouca “capacidade de se vender”, um verdadeiro destaque a nível europeu, que os empresários e representantes do setor se mostram em sintonia: “Temos de fazer uma estratégia muito séria, muito cirúrgica, sobre o ‘made in Portugal’”, destaca Ana Paula Rafael.

Paulo Melo, presidente da Associação de Têxtil e Vestuário de Portugal, lembra que também há coisas boas na representação das marcas portuguesas lá fora: “Temos coisas positivas. Nunca vi um ministro italiano, um francês, a visitar uma feira”. Mas não chega: o caminho a percorrer é longo até Portugal se tornar uma marca de referência e passa por fazer com que os clientes estrangeiros se orgulhem de exibir na etiqueta das roupas o “Made in Portugal”.

“A marca Portugal mudou nos últimos anos”, assegura João Maia, que já compara o prestígio do produto português ao do italiano – afinal, ambos são europeus, sinónimo de produtos mais caros e com mais qualidade. “Mas cada um tem de fazer o seu trabalho” no que toca a estabelecer uma imagem para Portugal – e isso é trabalho para vários setores, do têxtil ao turismo. “Por exemplo, juntar turismo de sol a empresas inovadoras é uma mensagem incompatível – mas juntar turismo de golfe a empresas inovadoras já não”.

  • “Têxtil e calçado: redescobrir o mercado”

    Em cada um dos sete debates do “Próximo Nível”, projeto conjunto do Expresso e do Banco Popular, a Católica Lisbon School of Business & Economics fará uma análise dos principais desafios e oportunidades de cada setor. Pedimos a Pedro Celeste, professor da formação avançada para executivos da Católica, a sua opinião sobre o têxtil e calçado - passado, presente e futuro