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Vasconcellos só tem uma moto de água para pagar dívida de 9,7 milhões de euros

Nuno Vasconcellos endividou-se quando vivia à sombra dos dividendos da PT, hoje resta-lhe uma montanha de dívidas

Tiago Miranda

Líder da Ongoing, o grupo que cresceu para ajudar a travar a OPA da PT, está insolvente desde janeiro. Mas em seu nome o BCP encontrou apenas uma moto de água

Uma moto de água foi o único bem que foi encontrado em nome de Nuno Vasconcellos para responder por uma dívida pessoal de €9,7 milhões que o empresário tem no BCP. Já há muito que o presidente do grupo Ongoing, insolvente desde o verão de 2016, não tem bens em seu nome. Vasconcellos vive em São Paulo, onde também tem negócios em dificuldade, e quando vem a Portugal fica em Cascais, em casa da mãe, Isabel Rocha dos Santos, uma das herdeiras da antiga Sociedade Nacional de Sabões.

Outrora poderoso e influente pela sua ligação à Portugal Telecom (PT) e ao ex-presidente do BES, Ricardo Salgado, Nuno Vasconcellos, dono do extinto “Diário Económico”, viu o Tribunal decretar a sua insolvência pessoal a 26 de janeiro deste ano. A PT já não dava dividendos e os negócios acumulavam prejuízos. Há anos que o empresário pouco ou nada teria em seu nome, mas os credores não estavam à espera de encontrar apenas registada uma moto de água. Mas foi isso que encontraram depois de o notificarem na Herdade da Comporta, onde a mãe tem casa, e após várias tentativas falhadas para o fazerem.

Desde que em 2006 se tornou um acionista de referência da PT, financiado pelo BES, Nuno Vasconcellos vivia de forma afortunada e investia aos milhões em negócios que iam desde os media (foi o segundo maior acionista da Impresa e dono do “Diário Económico”) ao imobiliário. Era alimentado pelos generosos dividendos da PT, que desde 2007 a 2014 somaram mais de €450 milhões.

Hoje, Nuno Vasconcellos em Portugal não tem nada a não ser uma montanha de dívidas. A Ongoing Strategy Investments, holding principal do grupo que liderava, tinha uma dívida superior a €1,3 mil milhões quando em outubro de 2016 entrou em liquidação.

Foi-se a PT, ficaram as dívidas

O BCP não foi o único que ficou a saber que nada poderia esperar como credor de Nuno Vasconcellos. Os €9,7 milhões serão um peso no balanço. O Novo Banco, que reclamou o pagamento de uma dívida superior a €12 milhões, também o sabia, já que só encontrou como credor unidades de participação de um fundo (Invesfundo) com valor nulo e ações da Rocksun e do Monte da Várzea. Conta o “Correio da Manhã”, que o Novo Banco esclareceu no pedido de insolvência de Vasconcellos que o empresário reclama desde maio de 2015 não ter condições para pagar a dívida, estando esta em incumprimento há mais de dois anos.

Curiosamente, antes de entrar em insolvência pessoal, Vasconcellos vendeu por cerca de €8 milhões o edifício-sede da Ongoing, na rua Vítor Cordon, em Lisboa. E, segundo já noticiou o Expresso, cerca de €2 milhões terão ido parar às mãos de Vasconcellos e €6 milhões ao Novo Banco. O primeiro empréstimo do BES ao empresário — então aliado de Salgado na luta contra a oferta pública de aquisição (OPA) da Sonae —, foi em 2007 e ascendeu a cerca de €750 mil.

Se a Ongoing se desmoronou em Portugal, o mesmo se pode dizer estar a acontecer no Brasil, onde os negócios (media e o portal IG) também correm mal, com atrasos no pagamento de salários e dívidas. Vasconcellos saiu também esta semana da operadora brasileira Oi, onde ainda estava como administrador não-executivo suplente, apesar de a Ongoing já ter perdido por penhora dos bancos a participação que detinha na Pharol.

Foi uma década depois de a PT e o BES terem transformado a Ongoing numa empresa mediática e Nuno Vasconcellos num gestor com pretensões de ascender a magnata dos media e telecomunicações, que o grupo da família Rocha de Matos entrou em falência. A lista de credores da Ongoing é grande: 62 empresas e pessoas em nome individual. O maior é o Novo Banco, com €493 milhões, mais de 40% da dívida. Outro é o BCP, cuja dívida ascendia a €282 milhões. O Novo Banco e o BCP transformaram parte da dívida da Ongoing em ações da Pharol. No Montepio a dívida é de €15 milhões. Outro dos credores é a editora S.T. & S.F., empresa através da qual o grupo explorava desde 2008 o “Diário Económico”. Está na lista também a editora Babel, há dívidas de largos milhares de euros à Autoridade Tributária, a empresas de informática, escritórios de advogados, consultoras e agências de viagens. Os créditos a trabalhadores do grupo ascendem a €360 mil.