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Calçado. Sector prepara-se para combate inédito "em nome da democracia"

Rui Duarte Silva

Pela primeira vez em 42 anos de vida, a APICCAPS - Associação dos Industriais do Sector, tem dois candidatos à presidência. Luís Onofre vai a votos, com uma lista que tinha sido apresentada como "de consenso", contra Sérgio Cunha, apostado em garantir à fileira "direito à escolha, em nome da democracia"

Luís Onofre ou Sérgio Cunha? É esta a escolha que os industriais do calçado vão ter de fazer a 21 de abril, nas eleições para os órgãos sociais da associação sectorial APICCAPS. É uma disputa inédita em 42 anos de existência da estrutura associativa que representa um sector habituado a falar a uma só voz e que só ficou oficializada na tarde desta sexta-feira, com a apresentação da lista B, no último dia do prazo oficial para a entrega de candidaturas.

É um cenário inesperado depois de um currículo imaculado de candidatos únicos numa associação liderada, nos últimos 18 anos, por Fortunato Frederico, do grupo Kyaia. Na verdade, depois do carismático empresário de Guimarães anunciar, em entrevista ao Expresso, a 11 de fevereiro, a intenção de dar lugar aos novos, tudo indicava que a tradição continuaria a ser seguida. E Luís Onofre foi indigitado pela direção da APICCAPS para formar uma lista A, de consenso, o que parecia colocá-lo, automaticamente, na liderança da "indústria mais sexy da Europa", como o Expresso também noiticiou a 18 de março.

Sérgio Cunha lidera a lista B

Sérgio Cunha lidera a lista B

D.R.

Luís Onofre lidera a lista A

Luís Onofre lidera a lista A

Frederico Martins

Parecia, mas não tinha de ser necessariamente assim. Foi isso que alguns empresários do sector quiseram mostrar. "Termos um presidente ainda antes do prazo de apresentação de candidaturas terminar pode parecer quase uma coisa de terceiro mundo", comenta Sérgio Cunha, do grupo familiar Pedreira, decidido a disputar a presidência "com o amigo" Luís Onofre, de 45 anos, para garantir à fileira o direito à escolha, "em nome da democracia".

Também em nome da democracia, decidiu demitir-se da presidência da mesa da Assembleia Geral da APICCAPS depois de ver noticiada a chegada de Onofre à presidência da associação antes do órgão que dirigia dar início ao processo eleitorial, com a convocatória oficial do sufrágio. E, ao mesmo tempo, deixou cair por terra a hipótese de se manter naquele cargo através da lista A, que tem na vice-presdiência, Joaquim Moreira, da Felmini, com sede em Felgueiras.

À frente de um dos maiores grupos portugueses de calçado, com vendas na ordem dos 50 milhões de euros, Sérgio Cunha, de 59 anos, apresenta, também, a lista B como "uma aposta na renovação, honrando o legado de Fortunato Frederico", decidido a "afirmar a indústria" sem deixar de lado "conceitos fundamentais" ligados às relações comerciais externas, aos novos canais de venda, ao valor acrescentado da marca e da indústria 4.0 ou à globalização. Com 300 trabalhadores distribuídos por cinco empresas, o candidato à presidência da APICCAPS elege, também como bandeira, a aproximação ao consumidor final.

"Produzimos melhor do que ninguém, mas temos ainda muito trabalho para fazer na parte comercial e de marketing, para chegarmos até ao consumidor final, na rua", diz o empresário, decidido a não ficar à sombra do estatuto exemplar conquistado por este sector que exporta quase dois mil milhões de euros por ano e acaba de bater sete recordes consecutivos nas vendas na frente externa. Os empresários que formam a sua lista representam 20% das exportações do sector, 3.300 trabalhadores e uma produção anual de 15,5 milhões de pares de sapatos, sublinha.

Domínio de Felgueiras

Entre Sérgio Cunha e Luís Onofre, que apresenta uma estratégia mais voltada para o rejuvenescimento da fileira, assumindo como prioridade a atração de uma nova geração de talentos, há apostas idênticas em formar listas com empresários de diferentes idades, sem esquecer os representantes das novas gerações e a diversidade geográfica dos corpos sociais, de forma a cobrir os concelhos onde a indústria do calçado é mais forte.

A estratégia geográfica pode, aliás, ajudar a explicar em parte esta disputa, uma vez que Luís Onofre, conhecido pelos saltos vertiginosos dos seus sapatos, vem de Oliveira de Azeméis, o que significa que se for eleito todos os concelhos com peso na produção de calçado passam a ter um presidente na história da APICCAPS. Já Sérgio Cunha, representa Felgueiras, concelho que responde sozinho por mais de metade das exportações do sector, e escolheu como seu vice-presidente Vasco Sampaio, do grupo Sozé, do mesmo município. Para a presidência da mesa da Assembleia Geral propõe o designer Miguel Vieira, de S. João da Madeira.

Dia 21, os industriais do calçado decidem quem será o seu presidente e, de acordo com alguns empresários do sector, com o seu voto estarão, também, a tentar definir "se a indústria é verdadeiramente o principal ativo da APICCAPS e quem comanda a estrutura técnica" de uma associação a que as duas listas não poupam os elogios ao trabalho feito nos últimos anos para valorizar e impor a fileira como uma referência industrial em Portugal e no mundo.