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Ibersol. Como duplicar de valor em 12 meses

A dupla Alberto Teixeira (à esquerda) e Pinto de Sousa tornaram a Ibersol um gigante da restauração ibérica

Rui Duarte Silva

Com menos de 10% do capital disperso, o gigante da restauração ibérica tem vários fundos europeus como acionistas. A redução do IVA impulsiona os ganhos.

No início de abril de 2016, o valor em bolsa da Ibersol, o líder ibérico de restauração em número de unidades (715), não ultrapassava os 180 milhões de euros. Um ano depois, a capitalização da empresa, entretanto promovida ao índice principal da bolsa apesar da reduzida liquidez, supera os 360 milhões.

Boas notícias para Alberto Teixeira e António Pinto de Sousa, a dupla de gestores da escola Sonae que duplicaram de fortuna por controlarem o conglomerado com 55%. Mas, há mais beneficiários que partilham os 180 milhões de ganhos: as gestoras de espanholas Bestinver (13%) e Magallanes (2%), o Banco Central da Noruega (4%), BPI (2%) e Fidelity (2%).

Já este ano, uma outra gestora de ativos espanhola (Azvalor) anunciou uma posição superior a 2%, secando ainda mais a liquidez de uma cotada que não abdica do lote de 10% de ações próprias. Na sessão de quarta-feira, transacionaram-se 2131 ações, bem melhor do que na véspera (757).

Em 2017, a Ibersol valoriza 20% e atingiu um máximo de 15,15 euros. Esta quinta feira, está em queda (1,13%), negociando 14,93 euros.

Um milhão de euros por dia

A Ibersol explora em Portugal, Espanha e Angola cadeias como a Pizza Hut, Burger King ou Kentucky Fried Chicken (KFC). Após a aquisição (finalizada em outubro) da espanhola Eat Out ganhou dimensão, alterou o perfil e tornou-se um gigante do negócio da restauração. A sua faturação diária supera o milhão de euros, o resultado de exploração anual é de 50 milhões, conta com 22 cadeias de restauração e paga salários a uma comunidade de 8500 funcionários.

A bênção da redução do IVA

Porque despertaram os investidores para uma empresa discreta que, segundo os analistas, peca mesmo pela opacidade e falta de informação?

Em 2016, a Ibersol acumulou uma série de boas notícias. Primeiro, o ambiente geral. O consumo privado no mercado ibérico subiu, fazendo prosperar o negócio da restauração rápida. Um recente research da Caixa BI assinala que a compressão de custos durante a fase recessiva "tornou a empresa mais eficiente e potenciou a rentabilidade operacional".

Mas, em março, a Ibersol foi compensada pela perda de negócio nas áreas de serviço das autoestradas (ex-Scut) que passaram a ser portajadas e recebeu com juros o que pagara por três contratos que foram rescindidos. Tudo somado, foram mais de 3 milhões de receita não corrente.

A melhor das notícias veio do governo socialista, com a redução do IVA na restauração a partir de julho. Aqui é um efeito permanente que engorda a margem em 4 milhões por semestre. Ou seja, os lucros de 2016 (as estimativas apontam para 20 milhões) incorporam essa inesperada benesse fiscal e os tais ganhos extraordinários.

O anúncio, já em 2017, que a empresa regressaria ao PSI-20 foi outro argumento a favor da notoriedade do título.

Mas, de todos os fatores, o mais determinante terá sido a aquisição da espanhola Eat Out, dona de 11 marcas, entre as quais figuram a Pans & Company (lidera o mercado ibérico de sandes, com 190 restaurantes), Ribs (churrasco americano), FresCo (buffets) e Santamaria (tabernas espanholas).

A dupla Alberto Teixeira/Pinto de Sousa pagou 105 milhões (incluindo a dívida) por uma empresa que coloca a Ibersol entre os operadores, como a McDonald's ou Telepizza, que mais faturam no espaço ibérico. Com a nova dimensão, a Ibersol ganha uma nova escala que lhe permite pressionar os fornecedores e melhorar as margens

O risco das concessões da Eat Out

O perfil empresarial da Ibersol e da Eat Out são diferentes. Mais da metade da receita do grupo de Barcelona está nas áreas de restauração concessionadas em seis aeroportos e estações da rede de Alta Velocidade, através de um modelo multimarca. Mas, este exposição comporta riscos. Por exemplo, a concessão do aeroporto catalão El Prat (40 milhões de passageiros) está este mês a concurso. É provável que a Eat Out reduza a área de restauração concessionada, reduzindo as vendas. A Ibersol já lidava com segmento travel, mas com uma exposição pouco relevante.

A Eat Out centrou a sua expansão no franchising, negligenciando as unidades próprias (116 em 325). Já a Ibersol prefere investir na exploração direta dos restaurantes (só 17 em 390 são franquiados).

As carreiras dos dois grupos de restauração já se tinham cruzado quando a Ibersol se tornou o representante para o mercado português da Pans & Company, a marca mais emblemática da Eat Out.

Angola perde relevância

A Ibersol admite testar no mercado português as principais redes da Eat Out, sem abdicar do programas de expansão dos dois conglomerados. Atarefada com fecho das contas de 2016, a administração evita dar pormenores do novo ciclo empresarial. Explica a subida da cotação "com a expectativa de melhores resultados" face ao desempenho de 2016.

Emanuel Figueiredo, gestor da londrina LBV reconhece que a Ibersol está ainda a desconto face às congéneres do sector, mas a reduzida dispersão afasta os investidores. É "sempre difícil", por causa da liquidez, tomar uma posição.

A aquisição da Eat Out reforçou a vocação ibérica da Ibersol, tornando residual o peso do negócio em Angola (10% na versão anterior, com 10 restaurantes). Os analistas que seguem a empresa recomendam moderação no plano de expansão em Angola, apesar das margens serem bem mais favoráveis do que na Península Ibérica.

O problema é que o grupo financia os fornecimentos para Angola através da casa-mãe, defendendo-se da desvalorização da moeda angolana aplicando a liquidez acumulada em obrigações do Estado indexadas ao dólar. São mais de 10 milhões de dólares que a Ibersol tem imobilizados nestas aplicações.