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Em 41 idas às compras no supermercado, três são grátis

Segundo um estudo encomendado pela Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA), em cada 41 idas aos supermercados, com as campanhas de descontos e promoções da Grande Distribuição, os portugueses conseguem não pagar três

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Em média, os consumidores portugueses usufruíram de uma poupança média de 32% nos produtos que a Distribuição colocou em promoção, em 2016. Estão também mais atentos aos benefícios de saúde dos produtos e procuram cada vez mais alimentos biológicos

No ano passado, nas suas idas às compras, os portugueses conseguiram obter descontos médios de 32% no cabaz de produtos em promoção. Em 2014, esse valor tinha sido de 28%. O que significa, de acordo com um estudo da Deloitte encomendado pela Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA), que em cada 41 idas às compras, três são grátis, considerando os valores poupados com as promoções.

A estratégia de descontos das grandes superfícies, associadas a cartões de fidelização e a parcerias com outras empresas (nomeadamente de combustível) têm mudado a forma como os consumidores tendem a consumir e não admira, por isso, que, em 2015, 41% do total das vendas de produtos de grande consumo em Portugal tenham sido realizadas em promoção (o que denota o aumento de 20 pontos percentuais desde 2010).

A compra inteligente (smart shopping), ou seja, o planeamento, a escolha racional e o esforço por reduzir a compra por impulso, é a uma forma de estar cada vez mais comum dos consumidores portugueses, segundo o estudo “Have you met the new consumer? – Análise às tendências de consumo alimentar”, apresentado esta semana no congresso que marcou os 30 anos da FIPA.

O relatório da Deloitte avança ainda que 75% dos portugueses consultam e comparam promoções antes de entrar num supermercado.

Segundo as previsões da FIPA, a indústria alimentar e das bebidas terá atingido, no final de 2016, um volume de negócios de 15,4 mil milhões de euros e um volume acrescentado bruto (VAB) de perto de 2,9 mil milhões de euros.

A pressão exercida pela Grande Distribuição tem sido criticada publicamente por vários operadores da indústria agroalimentar, dos mais pequenos aos maiores, que se veem obrigados a baixar os preços para continuarem nas prateleiras das cadeias de distribuição. Jorge Henriques, presidente da FIPA, explica ao Expresso que “na relação entre agentes económicos, existe a obrigação da fixação individual de tabelas de preços e condições de venda.

Quando se passa para a venda ao consumidor final, a decisão sobre a fixação do preço na prateleira compete ao retalhista. O que é importante assegurar é que não haja recurso a práticas negociais abusivas, tais como imposições unilaterais, nem situações de venda com prejuízo. Tudo o resto passa pela negociação comercial e cada empresa conhecerá os seus limites”.

Jorge Henriques, presidente da FIPA

Jorge Henriques, presidente da FIPA

Alberto Frias

Jorge Henriques prefere, antes, apontar para a forma como a indústria agroalimentar portuguesa se tem adaptado às novas formas de consumo. “Os consumidores estão, acima de tudo, a mudar. São hoje mais informados, exigentes e atentos durante os atos de compra e de consumo”, reflete o responsável. Por exemplo, estão mais atentos aos benefícios de saúde dos produtos e procuram não só evitar alimentos de menor valor nutricional, como também preferem alimentos biológicos.

Na Europa, o consumo de produtos biológicos cresceu 110% entre 2005 e 2014 e Portugal segue na mesma linha: num inquérito realizado em 2016, 60% dos consumidores afirmaram refletir a sua preocupação com a saúde e bem-estar nas escolhas que fazem (mais 19 pontos percentuais do que em 2012). Além disso, 68% dos inquiridos declararam estar dispostos a pagar mais por produtos que não contêm ingredientes indesejáveis (um crescimento de 26% face ao ano anterior.

Consumidores mais preocupados com saúde querem mais conveniência e flexibilidade

Por outro lado, os portugueses também estão mais preocupados com a sustentabilidade e, por isso, 45% dos consumidores afirmam estar dispostos a pagar mais por produtos e serviços prestados por empresas comprometidas em ter um impacto social e ambiental positivo.

Da mesma forma, procuram maior conveniência e flexibilidade nos produtos que adquirem (assim como no ato de compra). Procuram formatos mais pequenos, ajustados às suas necessidades, flexíveis e transportáveis (como os snacks), e produtos de preparação rápida (como alimentos congelados).

À escala global, estima-se que 58% das encomendas de refeições sejam feitam online através de plataformas específicas. Na Europa, entre 2010 e 2015, o mercado de entrega em casa e takeaway cresceu 2,2% enquanto o consumo da restauração caiu.

Além disso, complementam as compras realizadas em grandes superfícies comprando também em estabelecimentos mais pequenos (como lojas de bairro e supermercados pequenos). Entre 2014 e 2015, enquanto se registou o crescimento de 2% no número de hipers e supers de grande dimensão, os supermercados de pequena dimensão cresceram 5%, enquanto as lojas tradicionais aumentaram 4%.

De certa forma, os consumidores, um pouco por todo o mundo, sobretudo as gerações mais jovens, estão a dar mais importância à experiência de consumo do que propriamente ao bem físico que adquirem.

O novo perfil do consumidor traz grandes desafios à indústria agroalimentar, que tem “procurado entender a evolução, o estilo de vida e as preferências dos consumidores”, diz Jorge Henriques. E as empresas do sector estão a adaptar diferentes estratégias: umas são mais pragmáticas, apostando no acompanhamento dos atributos essenciais exigidos pelo consumidor (sobretudo o preço); outras mais especializadas em nichos de mercado e apostando em produtos com benefícios específicos e cada vez mais segmentados; há também aquelas que apostam na flexibilidade e em formatos práticos e flexíveis; outras que assumem posições ativistas e mostram total transparência nas suas práticas e outras ainda que apostam tudo na sua marca, o principal ativo, e constroem narrativas à sua volta, para surpreender os consumidores e oferecerem-lhe experiências positivas.

“A indústria portuguesa agroalimentar tem vindo a desenvolver uma capacidade exemplar de investigar e inovar”, assume o presidente da FIPA. A indústria alimentar e a das bebidas conta com mais de 11 mil empresas, na sua maioria familiares e de pequena dimensão, dando emprego a mais de 108 mil postos de trabalho diretos. “As exportações cifraram-se em 4,6 mil milhões de euros, um aumento de 3,7% face a 2015. Este sector representou ainda, no mesmo período, 9,2% do total das exportações da indústria transformadora nacional”, avança Jorge Henriques.