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Mexia, porque é que a EDP paga menos 35% na OPA? “Cada um faz a sua matemática”

António Mexia, presidente da EDP

António Pedro Ferreira

A OPA que a EDP lançou sobre a sua empresa de energias limpas, a EDP Renováveis, avalia-a muito abaixo dos valores implícitos em anteriores negócios com a China Three Gorges. Porquê? António Mexia evita a pergunta

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Há nove anos em bolsa, a EDP Renováveis ficará para a história do mercado de capitais português como um dos mais fabulosos capítulos escritos sobre a relação entre empresas cotadas e investidores: quem aderiu à oferta pública de venda de junho de 2008 nunca recuperou os oito euros por ação então fixados para abrir a terceiros o capital do braço de energias limpas da EDP. E hoje, com uma oferta de 6,8 euros em cima da mesa, a esperança de recuperar o capital investido é, ainda mais, uma miragem.

Mas esta história, que conhece agora uma nova página, com a possibilidade de a EDP recuperar os 22,5% da Renováveis que foram dispersos em bolsa e retirar a empresa do mercado, tem contornos que geram interrogações. A oferta pública de aquisição (OPA) lançada na segunda-feira à noite oferece aos acionistas uma contrapartida que avalia a EDP Renováveis em menos 35% do que a avaliação feita no final de fevereiro pela China Three Gorges na compra de uma carteira de ativos da mesma EDP Renováveis. Porquê a discrepância?

Vamos recuar um mês. A 27 de fevereiro a EDP reporta ao mercado a venda de 49% de uma carteira de ativos eólicos em Portugal, equivalente a 422 megawatts (MW) de capacidade instalada. O preço pago pela China Three Gorges (CTG) é de 242 milhões de euros. Considerando igualmente a dívida associada a esses parques eólicos, o montante pago pela CTG permite avaliar a totalidade daqueles ativos em 707 milhões de euros, ou seja, 1,7 milhões de euros por cada MW.

E agora a OPA à EDP Renováveis. A EDP oferece 6,8 euros por cada ação da empresa na qual já controla 77,5%. Isso implica que a EDP poderá ter de desembolsar cerca de 1,3 mil milhões de euros caso todos os acionistas minoritários aceitem vender. Mas implica igualmente avaliar a totalidade do negócio da EDP Renováveis em 5,93 mil milhões de euros, a que acresce uma dívida líquida de 2,75 mil milhões de euros, deixando o valor total da companhia, incluindo dívida, nos 8,68 mil milhões de euros.
Ora, hoje a EDP Renováveis tem 10400 MW de capacidade instalada pelo mundo fora, mas 2.521 MW são interesses minoritários (cujos lucros já são entregues a terceiros).

Descontando essas posições minoritárias (que geram para a EDP a receita por inteiro, mas apenas uma parte do lucro), o valor em que a EDP acaba de avaliar a Renováveis traduz-se numa média de 1,1 milhões de euros por cada MW. Menos 35% do que a avaliação implícita no último negócio que a EDP fez com a CTG envolvendo a venda de uma participação nos ativos da EDP Renováveis.

Mexia: “Cada um faz a sua matemática”

A disparidade das avaliações foi questionada esta terça-feira por uma das analistas que assistiam à apresentação feita por António Mexia sobre a venda da espanhola Naturgas e a OPA lançada à EDP Renováveis. “Cada um faz a sua matemática”, respondeu, lacónico, o presidente executivo da EDP, referindo apenas não poder alongar-se em comentários enquanto a OPA não for efetivamente registada.

Transpondo a situação para fora do mercado de capitais, é como se o dono de uma série de apartamentos de um edifício num mês vendesse um apartamento a um investidor por um valor equivalente a 2000 euros por metro quadrado e no mês seguinte oferecesse, para ficar com outras casas do mesmo prédio, não mais que 1300 euros por metro quadrado.

Questionada pelo Expresso sobre esta disparidade entre as avaliações feitas à EDP Renováveis, a EDP respondeu que não fará qualquer comentário.

De resto, a contrapartida oferecida na OPA cumpre os preceitos legais. O valor proposto reflete um prémio de 10,5% sobre a cotação média das ações da EDP Renováveis nos últimos seis meses e também está 9,7% acima do preço dos títulos na sessão de bolsa anterior (sexta-feira os papéis da EDP Renováveis valiam 6,2 euros).

A EDP Renováveis, presidida por João Manso Neto, poderá sair de bolsa ainda este ano

A EDP Renováveis, presidida por João Manso Neto, poderá sair de bolsa ainda este ano

José Carlos Carvalho

O presidente da ATM - Associação de Investidores e Analistas Técnicos, Octávio Viana, comentou ao “Dinheiro Vivo” que o valor oferecido pela EDP é “manifestamente baixo”. “Quando se coloca uma empresa em bolsa esta devia gerar valor para o acionista, ou seja, o preço devia ser acima do valor da oferta pública de venda, o que não acontece”, lamentou o mesmo responsável.

Na prática, nada obriga uma empresa a oferecer numa OPA um valor acima do praticado quando da dispersão em bolsa. Nos nove anos que a EDP Renováveis leva no mercado haverá também quem tenha adquirido ações muito abaixo dos 6,8 euros agora em cima da mesa, podendo, com esta OPA, conseguir mais valias. Mas para todos os investidores que entraram em 2008 a 8 euros por ação e mantiveram as suas posições a perspetiva hoje é a de perder dinheiro.

Numa nota divulgada esta terça-feira, o banco de investimento Haitong considera pouco provável que a EDP venha a subir a contrapartida. Nem a empresa liderada por António Mexia parece ter qualquer interesse nisso. Esta manhã, na conferência com analistas, o presidente executivo da companhia afirmou que a OPA “é uma proposta atrativa tanto para os acionistas da EDP como para os da EDP Renováveis”.

Na perspetiva de António Mexia, a venda da Naturgas, em Espanha, e a recompra de até 22,5% da EDP Renováveis (que também tem a sua sede em Espanha) permitirão simplificar a estrutura do grupo e a história que a EDP tem para contar no mercado financeiro.

Negócio paga negócio

A venda da Naturgas por 2,6 mil milhões de euros é um dos maiores negócios de sempre da EDP, que aí conseguiu avaliar aquela companhia espanhola num múltiplo de 15 vezes o seu EBITDA (resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações), 50% acima dos valores a que têm sido vendidos outros ativos regulados de gás natural.

O encaixe da Naturgas permitirá à EDP pagar a OPA sobre a Renováveis e, além disso, baixar o seu endividamento. A dívida tem sido um dos garrotes ao crescimento dos lucros do grupo, que chegaram a ser de 1125 milhões de euros em 2011, baixando nos anos seguintes e fechando 2016 nos 961 milhões. Além da dívida, também os custos de algumas medidas aplicadas nos últimos anos às empresas de energia em Portugal e Espanha vêm impedindo a gestão da EDP de ir mais longe na geração de lucros no grupo.

Uma das mensagens deixadas por António Mexia aos analistas é a de que “a combinação das duas transações preserva o perfil de baixo risco da EDP”. Em bolsa, esta terça-feira, o mercado respondeu positivamente, com as ações da EDP a subir 4,3% e os títulos da EDP Renováveis a disparar 10%, fechando a sessão em 6,89 euros por ação.

As próximas sessões de bolsa ajudarão a perceber que perspetiva têm os investidores sobre o futuro da EDP e da EDP Renováveis. Sobre a OPA, António Mexia afirmou esperar tê-la concluída no início do terceiro trimestre. Mas isso estará dependente da tramitação das formalidades de registo da operação na CMVM.

Artigo publicado no Expresso Diário de 29/03/2017