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Douro indignado com mais área de vinha

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Lavoura e comércio insurgem-se contra a decisão do Governo de aumentar a mancha de plantação. São só 150 hectares, mas é um sinal “de desprezo e desrespeito” pela região

Os agentes vitivinícolas do Douro estão revoltados com o Ministério da Agricultura. Lavoura e comércio insurgem-se contra a decisão de aumentar em 150 hectares a mancha plantada e já escreveram a reivindicar a revogação da portaria que choca com as recomendações do Conselho Interprofissional (CI) e pressiona os produtores de uma região com um excesso de 40 milhões de litros por colheita.

A Secretaria de Estado da Agricultura e Alimentação (SEAA) explica ao Expresso que a medida destina-se a compensar parcialmente os 1500 hectares de vinha que, segundo os dados da IVV – Instituto da Vinha e do Vinho "se terão perdido nos três últimos anos".

Esta redução de 500 hectares por ano e "a elevada apetência da região pelo investimento na vitivinicultura que em 2016, com a a apresentação de candidaturas para 212 hectares, levou o Governo a autorizar a plantação de uma área equivalente a 10% da área perdida", explica o gabinete do secretário de Estado Luís Vieira, por sinal natural de Valpaços.

Desprezo pela região

Mas, alegam as organizações da região, os dados do IVV estão errados, bastando para isso consultar o cadastro do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP). A área plantada no Douro cresceu nos últimos anos 1469 hectares, sendo 270 afetos à denominação de origem (DOP) e indicação geográfica protegida (IGP). Ou seja, os dois organismos da mesma tutela não comunicam.

E há ainda direitos de replantação concedidos a produtores de fora da região que não foram exercidos (870 ha) e fatores como a renovação da vinha que só quem segue a região como o IVDP incorpora. O documento do IVDP que sustenta a posição da CI refere quem nos últimos seis anos, a área afeta à produção de vinhos protegidos (DOP e IGP) aumentou 3,1%.

A Associação de Empresas do Vinho do Porto (AEVP) classifica a ampliação da mancha "inaceitável, sem qualquer fundamento e gravosa para a lavoura duriense". E repudia a medida da SEAA por "basear-se em dados falsos e ignorar o excesso de produção", traduzindo um "desrespeito pela posição fundamentada da CI e desprezo pelo papel do IVDP" a quem deveria caber a gestão do potencial vinícola. "É preciso sair de Lisboa e ver o país real", diz António Saraiva, presidente da AEVP.

E 150 hectares numa mancha de 43 mil (250 mil pipas) é um valor tão relevante assim? "Não é dispicienda, mas não terá grande impacto", reconhece António Lencastre, presidente da Federação Renovação Douro (ex-Casa do Douro) que representa os 23 mil produtores recenseados na região.

Mas, "é uma questão de princípio. O que mais indigna é o desprezo pela posição da CI, sem se conhecer o critério e base técnica que fundamenta a medida. O que se segue a estes 150 hectares e quando termina o ciclo de expansão?", interroga António Lencastre, para quem é inverosímil que numa região e que, por causa do benefício, cada hectares é valorizado em 2000 euros, os proprietários tenham destruído vinhas avaliadas em 3 milhões de euros. O essencial "não é a área plantada mas sim "a relação entre a produção e venda", defende o viticultor.

Engrossar o excedente

António Saraiva reconhece que o reforço da mancha é irrelevante, mas o que está causa "é o sinal errado que é dado", sem atender aos interesses da região e desrespeitando as organizações representativas". Em vez de "valorizar os produtores, a política pública tende a engrossar o excedente para vinho de mesa, com preços muito baixos, determinados por grandes produtores como Espanha". O caráter de monocultura e viticultura de montanha torna o valor fiduciário mais elevado e a região muito sensível a alteração de área plantada. O argumento da apetência do investimento "é falaciosa". É a notoriedade e prestigio que levam a uma procura intensa, mas o ponto "é que a região produz muito mais do que vende", acentua a AEVP.

A Comissão Europeia recomenda o crescimento anual de 1% da área plantada (até 2030), cabendo a cada país gerir as novas autorizações. Em 2017, são mais 1932 hectares, cabendo 800 ao Alentejo. A Madeira e o Douro sugeriam um aumento simbólico. Mas, no caso do Douro o ministério não acolheu a recomendação. Os agentes da região sugerem que os 150 hectares sejam distribuídos pelas 10 outras regiões que querem crescer na área de vinha.

A SEAA refere que as autorizações estão dependentes dos resultados do concurso E reage às críticas com diplomacia. "Num mercado aberto e competitivo existem sempre tensões entre os diferentes atores, entendendo o Governo as críticas nesse contexto".

O IVDP descartou comentar a polémica, remetendo para a posição da tutela.