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Operadores turísticos britânicos avisam que “as dores do Brexit vão começar agora”

LIONEL BONAVENTURE / AFP / Getty Images

Ingleses são o principal mercado turístico de Portugal e no ano passado cresceram 10% em dormidas. Mas a ABTA, associação britânica de agências de viagens, deixa o alerta acerca das “incertezas” da saída do Reino Unido da UE e dos seu impacto junto dos ingleses que viajam

Portugal e Espanha vivem momentos de "euforia" com o crescimento dos turistas ingleses, "mas as principais dores do Brexit ainda estão por vir, e os impactos vão agora começar", avisou Noel Josephides, presidente da ABTA, a associação britânica das agências de viagens, num encontro em Lisboa promovido pela sua congénere portuguesa, a APAVT - Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo.

"Neste momento tudo corre bem e vive-se uma euforia generalizada", salientou o presidente da ABTA, lembrando que além de Portugal e Espanha os ingleses também evidenciaram em 2016 aumentos turisticos em países como a Croácia, que no ano passado registou 3,3 milhões de chegadas quando em 2015 tinha tido 2,6 milhões.

Num mercado que representa "50 milhões de pessoas, dos quais 24 a 26 milhões fazem viagens transatlânticas", o presidente da ABTA garante haver agora "um número surpreendente de ingleses que não tem dinheiro para poder pagar viagens, e há cada vez mais pessoas a viajar dentro do Reino Unido, o que a nós também nos preocupa".

O líder das agências de viagens britânicas frisa que "as principais dores do Brexit ainda estão por vir" e chama a atenção para o período de ajustamento de toda legislação que o Reino Unido terá de enfrentar para efetivar a sua saída da União Europeia.

"Niguém sabe o que esse periodo será, e toda esta incerteza irá também ter impactos", avisa. Para já, constata que começa a haver no Reino Unido sinais dos tempos difíceis que estão por vir: "a libra esterlina caíu 20% desde o referendo, a inflação está a subir, a comida nos supermercados está a ficar muito cara, e não se prevê que os salários possam aumentar para fazer face a isto".

O Algarve "vai concorrer com a Ásia ou as Caraíbas, e não daqui a muito tempo"

Estas incertezas, segundo a ABTA, atingem em cheio a indústria de viagens. "Vamos precisar de vistos. E como vamos empregar pessoas? Quais as taxas que nos serão aplicadas? O que acontecerá à libra? Interrogo-me se as pessoas que negociaram o Brexit têm noção disto", enfatiza Noel Josephides.

A par do Brexit, outra preocupação das agências de viagens britânicas está na desconsolidação do sector, tendo em conta o peso assumido pelos operadores turísticos 'online' e companhias 'low cost' face à tradicional operação de viagens. A indústria de viagens está a mudar, e de forma muito rápida, avisou.

"Os ingleses viajam hoje para Nova Iorque ao mesmo preço que vão para Alicante", enfatizou Noel Josephides, garantindo que "num futuro próximo o Algarve vai concorrer com a Ásia ou as Caraíbas, e não será daqui a muito tempo".

"A Turquia vai voltar e o Egito também"

A destinos como Portugal e Espanha, o presidente da ABTA deixa o alerta no sentido de não darem de barato "que os seus hotéis irão ficar sempre cheios de ingleses".

Outra preocupação, segundo o responsável das agências de viagens britânicas, deverá incidir no facto que "a Turquia vai voltar, e o Egito também, porque os preços nesses destinos estão muito baratos".

Noel Josephides lembra que "os ingleses gostam de sol e praia, vão para o Algarve e a Madeira há décadas, também pela associação ao vinho", mas questiona: "quantos em Inglaterra já ouviram falar no Alentejo? E estamos com grandes números em viagens para a Toscânia". E recomendou a Portugal que "se o país quer crescer mais junto do mercado inglês, deve promover outras regiões como o centro ou o Alentejo".'

Ana Mendes Godinho, secretária de Estado do Turismo, que esteve presente no encontro com a associação britânica de viagens promovido pela APAVT, lembrou ter adiantado recentemente à ABTA a estratégia para o turismo nos próximos dez anos que tem como foco "diversificar os territórios e mostrar um Portugal diferente do que os ingleses conhecem".

Frisando que em 2016 os turistas ingleses em Portugal cresceram 10% em dormidas e 20% em receitas geradas, Ana mendes Godinho afirmou-se empenhada em trabalhar com os operadores ingleses "para garantir que este mercado continuará a crescer para Portugal".

Em 2017 a associação britânica de agências de viagens escolheu os Açores para realizar o seu congresso anual. A próxima convenção da ABTA, onde estão previstas 600 pessoas, vai decorrer de 9 a 11 de novembro em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel.