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O Erasmus também se faz nos negócios

Contactos e competências práticas e de gestão foram as mais-valias que o programa europeu para novos empreendedores trouxe na hora de criar a Indie Campers, uma startup de aluguer de autocaravanas criada por um austríaco (que participou no programa) e o português Hugo Oliveira (na foto)

Marcos Borga

Programa Erasmus para Jovens Empreendedores recebeu 500 candidaturas de Portugal desde 2009

Inicialmente entrou no programa com a ideia de criar uma empresa de consultoria online. Stefan Köppl, agora com 29 anos, candidatou-se em 2012 ao EYE — Eramus for Young Entrepreneurs (Erasmus para Jovens Empreendedores) e teve a sua experiência na Linkedcare, uma clínica médica virtual — fundada por um português e um austríaco — onde é possível agendar consultas presenciais ou em vídeo. A experiência em Portugal levá-lo-ia a mudar o plano de negócio, mas, à semelhança da startup de acolhimento, também ele, austríaco, acabaria por juntar-se a um português para criar uma empresa.

Apercebendo-se do potencial turístico de Portugal, aliado “à dificuldade em fazer campismo selvagem e aos preços elevados das autocaravanas”, fundaram a Indie Campers, empresa de aluguer de autocaravanas mais pequenas e a preços mais acessíveis, com Wi-Fi e transporte desde o aeroporto incluído e onde as reservas são realizadas online.

Para lançar a startup — que contou com um investimento inicial de €25 mil, dos quais €20 mil financiados por microcrédito — contaram ainda com orientação do empreendedor que acolheu Stefan na Linkedcare, que os ajudou com o plano de negócio e contactos. “É muito importante o facto de, no EYE, podermos olhar para outros planos de negócio”, explica ao Expresso o jovem austríaco. Stefan acabaria por abandonar a empresa um ano depois, por querer constituir família na Áustria, mas a experiência deixou frutos: criou uma startup de sucesso em Portugal e, de regresso ao seu país, começou a trabalhar numa empresa de capital de risco, que investe em novos negócios e startups.

Agora, a Indie Campers está totalmente em mãos portuguesas e não para de crescer. Em 2016, contava com mais de 25 pessoas, 100 carrinhas e um volume de faturação de €1,5 milhões, mas o objetivo é ultrapassar durante este ano as 100 pessoas e os €6 milhões, contando com uma frota de entre 300 a 500 carrinhas. “Em dezembro abrimos 100 vagas para contratar nas áreas comerciais, de operações, recursos humanos, marketing digital, desenvolvimento web”, diz o cofundador Hugo Oliveira, acrescentando que a empresa vai também começar a alugar carrinhas em França, Itália, Bélgica e Suíça, além de Portugal e Espanha. O objetivo passa ainda por “dar um salto no produto online”, disponibilizando mais sugestões e roteiros.

Lançar negócios

A Indie Campers é apenas uma das empresas criadas no âmbito do EYE, o programa de intercâmbio lançado em 2009 pela Comissão Europeia para ajudar novos empreendedores a montar ou gerir um pequeno negócio na Europa. Até 2015, um terço dos novos empreendedores que participaram no EYE fundaram a própria empresa e mais de metade consideram que a experiência contribuiu positivamente para o seu arranque, segundo dados da Eurochambres, a Associação Europeia de Câmaras de Comércio e Indústria, que inclui a Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa. Desde 2009, o programa já recebeu 500 candidaturas de Portugal (de um total de 15.758), das quais 91 se concretizaram em intercâmbios com novos empreendedores portugueses enviados para outros países e 141 com empreendedores de acolhimento em Portugal.

Ao Expresso, Rafael Rocha, diretor de comunicação da Associação Nacional de Jovens Empresários, um dos pontos de contacto do EYE em Portugal, sublinha que ao longo dos anos “o programa tem vindo a registar um crescente aumento de candidaturas”. Portugal, nos últimos anos, conseguiu “melhorar o ecossistema empreendedor”, diz Tiago Nascimento, gestor de projetos de empreendedorismo na Agência para o Empreendedorismo e Inovação, outro dos pontos de contacto. “Isto, aliado ao potencial de turismo e ao facto de falarmos bem outras línguas, tem contribuído para a imagem do país na Europa.”

Foi esta a primeira razão que trouxe a eslovaca Barbora Zisková a Portugal: o clima e a qualidade de vida. Só depois escolheu a empresa: a oficina de restauro Tardoz, criada por Isabel Colher e ligada à azulejaria portuguesa. Formada em Gestão e Marketing, a jovem de 24 anos gostava de criar uma empresa de sites especializados para diferentes contextos (casamentos, artistas, entre outros), e foi por isso que escolheu a oficina de Isabel para ganhar prática, novas competências e pelo desafio de implementar um plano de marketing numa área que não domina.

Inicialmente, Isabel estranhou o pedido de Barbora. “Na altura fiquei surpreendida: o que podia alguém de marketing fazer na minha oficina? Mas todos os meus amigos me disseram que era exatamente o que precisava.” A rapariga justifica: “O site e o blogue da Tardoz são um pouco antiquados e posso dar o meu contributo.” Isabel ri-se. Já não estranha a diferença. Aliás, esta é a sexta aspirante a empresária que acolhe: já recebeu pessoas da Polónia, Itália, Roménia e Espanha e de áreas tão distintas como joalharia, arquitetura paisagista, design, engenharia química e gestão da agricultura. “Alguns querem simplesmente mudar de área.” No EYE, isso é possível.