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Fed continua a esperar para ver o que Trump vai fazer

“A economia norte-americana está a ir bem”, disse Janet Yellen, a presidente da Reserva Federal, na conferência de imprensa desta quarta-feira a seguir ao anúncio da subida das taxas de juro pelo banco central. Continua a haver “uma enorme incerteza” sobre as mudanças que a nova Administração irá apresentar

Jorge Nascimento Rodrigues

“A mensagem simples é que a economia está a ir bem”, disse Janet Yellen, a presidente da Reserva Federal (Fed), o banco central norte-americano. Foi um dos pontos politicamente fortes na conferência de imprensa em Washington que se seguiu ao anúncio da subida das taxas de juro em ¼ de ponto percentual para um intervalo entre 0,75% e 1%.

Depois da comunicação da subida dos juros e do otimismo económico manifestado pela presidente do banco central até final da conferência de imprensa, os mercados financeiros reagiram com um aumento de 72 pontos base no índice Dow Jones 30 em Wall Street, o dólar desvalorizou-se 0,6% face ao euro, e as yields dos títulos do Tesouro norte-americano no mercado secundário caíram 8 pontos base para 2,5%, uma quebra de mais de 4% em relação ao fecho do dia anterior. Os mercados financeiros na Europa já estavam fechados.

Apesar do otimismo, as projeções médias para o crescimento económico em 2017 e 2018 não vão além de 2,1% e o ritmo deverá abrandar no ano seguinte para 1,9%. No longo prazo, a projeção média aponta para 1,8%, com o cenário optimista a apontar para 2,4% e o cenário pessimista a prever 1,5%. Um crescimento anual muitíssimo distante do número de 4% lançado na campanha eleitoral por Donald Trump.

Yellen confirmou que as projeções hoje apresentadas praticamente não diferem das divulgadas em dezembro, antes da tomada de posse de Trump como presidente. Houve, apenas, uma revisão em alta de uma décima para o crescimento em 2018, que passou de 2% (na projeção divulgada em dezembro do ano passado) para 2,1%, o mesmo ritmo previsto para 2017.

A Fed ainda não incorporou qualquer alteração da política económica realizada pela nova Administração. Por uma razão simples -- ainda não se sabe concretamente qual é. "Há uma enorme incerteza sobre as características e a dimensão de mudanças potenciais de política", sublinhou a presidente do banco central.

Pelo que a atitude da Fed é a de esperar para ver, apesar de Yellen já ter reunido "algumas vezes" com o novo secretário do Tesouro e de ter tido "um muito breve encontro" com o presidente.

No fundo, a atitude é similar ao que se passará nos meios económicos, segundo a perceção de Yellen. "Há uma mudança óbvia e notável no sentimento, mas ainda não vi evidência sólida de nenhuma alteração em decisões de gastos baseadas em expetativas sobre o futuro", disse. Tem observado uma mentalidade mais otimista, mas "a maioria está no esperar para ver".

Nem toda a gente está a sentir os benefícios

Questionada sobre a sua mensagem para o consumidor, para o cidadão da rua, a presidente do mais importante banco central do mundo, sublinhou que a economia está em trajetória de crescimento - estimativa de 1,9% em 2016 pelo Bureau of Economic Analysis e de aceleração para mais de 2% em termos anuais no primeiro trimestre de 2017, segundo os analistas. O desemprego caiu para 4,7% e a inflação homóloga subiu para 2,7% no final de fevereiro.

As novas projeções dos membros da Fed, divulgadas esta quarta-feira, apontam para um crescimento de 2,1% em 2017 e 2018, seguido de um abrandamento para 1,9% em 2019. O desemprego deverá permanecer num ‘planalto’ de apenas 4,5% da população ativa até 2019, o que é, por muitos, considerado pleno emprego.

Mas há um senão que politicamente tem sido explorado. “Contudo, nem toda a gente está a sentir os benefícios”, disse Yellen, sobretudo nas pessoas com menos competências e em alguns sectores da economia.

Se houver um sobreaquecimento, Fed poderá deixar de ser gradualista

Apesar do facto de a economia norte-americana estar a prosseguir na tendência de retoma, a Fed não encontra, ainda, sinais de sobreaquecimento. Mantém, por isso, a perspetiva de uma subida gradual das taxas de juro, apontando para um total de três decisões este ano e outras três no próximo ano.

O limite superior da taxa de referência deverá chegar a 1,4% no final deste ano, 2,1% no final do próximo e, finalmente, 3% em 2019, regressando ao nível em que estava em final de janeiro de 2008.

No que se refere a 2017, é uma progressão muito maior do que as probabilidades indicadas pelo mercado de futuros das taxas de juro, que apontam para uma subida para o intervalo 1% a 1,25% eventualmente na reunião de 26 de julho (probabilidade de 47,4%) e não apostam numa subida para o intervalo 1,25% a 1,5% na última reunião do ano (probabilidade de 34,3%). As probabilidades de uma segunda subida este ano deslizaram da reunião de junho (mais de 50% antes da reunião da Fed) para a de julho.

Mas se se verificar uma ultrapassagem persistente da meta de inflação (de 2%), a Fed tomará medidas. Por alguma razão a palavra “apenas” na expressão habitual “subida apenas gradual” das taxas de juro foi removida do texto oficial, como notou um dos jornalistas. Yellen desvalorizou, respondeu que “não é uma mudança significativa”. Mas o aviso ficou feito – um sobreaquecimento inflacionista implicará uma subida menos gradualista do custo do dinheiro, mesmo que esse custo, em termos reais, esteja muito baixo e continue a estar.

Apesar de a presidente do banco central ter dito nesta conferência de imprensa que a Fed não deixaria de saudar mais crescimento se houver, a postura fundamental da política monetária continua a ser contra o sobreaquecimento económico prosseguindo a monitorização da "meta simétrica da inflação" (uma expressão reintroduzida na comunicação oficial), como sublinhou o analista Marc Chandler, da Brown Brothers Harriman em Wall Street.

A presidente da Fed não deixou de sublinhar que, mesmo em 2019, com os juros do banco central em 3%, esse nível em termos reais – descontada a inflação que deverá flutuar em torno da meta dos 2% - é, apenas, de 1%. Yellen adiantou mesmo que muitos economistas consideram que a taxa de juros “neutral” no médio prazo deverá estar perto de 0% em termos reais.