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51% dos líderes mundiais querem mais freelancers nas empresas

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Empresas de todo o mundo estão rendidas à Gig Economy, a economia da flexibilidade que procura freelancers para funções altamente qualificadas, temporárias mas bem pagas

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Chama-se Gig Economy e espelha a tendência das empresas em contratarem profissionais altamente qualificados para desempenharem funções estratégicas nas organizações, de forma temporária — de curta ou até mesmo muito curta duração — e bem paga. É a nova moda de um mercado laboral a braços com os desafios da digitalização, da inovação, da rapidez de resposta, e com necessidade de estar sempre um passo à frente das exigências dos clientes e da concorrência. Um estudo recente da consultora Deloitte — Global Human Capital Trends —, realizado a nível mundial, revela que em 2016, 51% dos executivos mundiais planeavam aumentar o recurso a este tipo de profissionais no prazo de três a cinco anos. A tendência é global, mas é entre os norte-americanos que o modelo tem ganho mais adeptos. Até 2020, cerca de 40% dos profissionais norte-americanos deverão trabalhar como freelancers. Portugal segue a tendência inversa.

Nos últimos cinco anos, entre 2011 e 2016, o número de trabalhadores por conta própria (os designados independentes) sofreu um decréscimo de 203 mil profissionais fixando-se, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) nos 789 mil, em finais do ano passado.

O conceito de economia aberta de talento não é novo, mas tem ganho relevância nas empresas nos últimos anos. Os profissionais liberais são os que melhor se adaptam a um modelo laboral sem vínculos formais, e onde a qualidade do trabalho, o cumprimento de prazos e a aposta constante na aquisição de novas competências são as principais ferramentas para se manter permanentemente no ativo e na mira das empresas. Ser gig é hoje fazer um trabalho especializado e bem pago, por um período de tempo que pode ir de semanas a meses, mas que é sempre temporário.

Um novo ecossistema 
laboral a nível global

Quase todos os sectores de atividade — desde as tecnologias, à consultoria ou saúde — podem beneficiar com esta tendência laboral que favorece também profissionais que não estejam disponíveis, por exemplo, para mudar de cidade ou país para integrar uma empresa e que podem desenvolver funções remotamente, ou outros, que por questões de conciliação familiar possam preferir trabalhar a partir de casa ou a tempo parcial. É que a Gig Economy não pressupõe apenas a integração de um número crescente de profissionais freelancers, fisicamente nas organizações. Trata-se de gerir todo um novo ecossistema laboral que combina freelancers, profissionais em part-time ou teletrabalho, tecnologia e talentos colocados na empresa. E é aqui que surgem as dificuldades.

Para Carlos Sezões, partner da empresa de executive search (recrutamento de quadros de topo) Stanton Chase, “este processo de adaptação à Gig Economy é inevitável e será inevitável em todo o mundo, incluindo em Portugal. Até pela mudança das necessidades das empresas, das novas gerações de profissionais que estão a entrar no mercado de trabalho e da velocidade a que o próprio mercado hoje funciona”. Porém, o especialista reconhece que o processo de adaptação não vem sem impacto para empresas e profissionais.

As primeiras terão um grande desafio pela frente. “Os gestores de talento terão de estar preparados para não terem um vínculo presencial com parte do seu capital humano. Isto pode trazer múltiplos problemas a nível interno e é necessário garantir que a empresa continua a trabalhar bem como organização e a ser capaz de conectar o seu talento em torno de um objetivo comum, esteja esse talento onde estiver e seja qual for a natureza do seu vínculo à empresa”, refere Carlos Sezões.

Para os profissionais, torna-se mais fundamental ainda o peso da qualificação e da atualização constante de competências para ser competitivo numa economia gig e garantir a empregabilidade. “Cada vez mais as profissões, no conceito em que as conhecemos, entrarão em decadência e darão lugar a funções e profissionais qualificados para as exercer”, explica garantindo que isto exige dos profissionais, hoje e no futuro, “um novo mindset (formatação) profissional”. Será, adianta o especialista, “fundamental uma grande flexibilidade, muita capacidade de adaptação, autodisciplina na gestão do tempo e uma orientação clara para o desenvolvimento constante de competências transversais”. E explica que “estamos a falar de funções que serão maioritariamente desenvolvidas à distância, com objetivos muito específicos e por períodos de tempo pré-definidos, onde os profissionais serão avaliados não por horários ou procedimentos, mas pela qualidade do seu trabalho”. Um contexto que não deixa antever um futuro otimista para os profissionais indiferenciados, segundo Carlos Sezões. “Os profissionais competitivos nesta Gig Economy são forçosamente profissionais cada vez mais qualificados”, reforça.

Mas por que razão Portugal e os portugueses, reconhecidos como pioneiros, não estão a adotar esta tendência? Falta de qualificação não é, garante Carlos Sezões, enfatizando que uma boa fatia dos temporários e freelancers portugueses possui qualificações superiores. Para o sócio da Stanton Chase é antes uma questão cultural: “O chamado interim management (recrutamento de profissionais qualificados para funções temporárias de gestão), tão habitual no norte e centro da Europa, em Portugal nunca foi muito aceite nem utilizado.” Para o gestor, com a mudança de estilo de vida dos profissionais nacionais, a sua experiência internacional e o contacto com outros modelos de gestão, “existirão a breve prazo mais quadros de topo a querer exercer estas missões de curta duração e mais empresas a abraçar este modelo laboral”.