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Reunião do BCE. Cinco pontos para acompanhar

Não é esperada nenhuma mexida na política monetária na reunião desta quinta-feira, mas os analistas vão estar atentos à formulação da orientação futura e às respostas de Mario Draghi a partir das 13h30 em conferência de imprensa. Cinco temas a seguir

Jorge Nascimento Rodrigues

O Conselho do Banco Central Europeu (BCE) reúne-se esta quinta-feira em Frankfurt para tomar decisões de política monetária, mas os analistas não esperam que o comunicado oficial do encontro da equipa chefiada por Mario Draghi traga novidades. O comunicado será divulgad antes das 13 horas (hora de Portugal) e a conferência de imprensa decorrerá pelas 13h30 em Frankfurt.

As taxas de juro deverão manter-se inalteradas, com os juros de referência para os empréstimos aos bancos em 0% e a taxa de remuneração dos depósitos destes em terreno negativo, em -0,4%.

Mas, os mercados financeiros vão estar hoje atentos a cinco pontos sobre as discussões e divergências dentro da equipa de Draghi. Certamente que temas geopolíticos poderão arrancar algumas frases do presidente do BCE, como os cinco cenários para o futuro da União Europeia (incluindo a sorte do euro) avançados pela Comissão Europeia, os resultados da cimeira desta semana do novo quarteto formado pela Alemanha, Espanha, França e Itália apontando para uma união “com diferentes velocidades”, os primeiros meses da Administração Trump (e nomeadamente a ameça de uma taxa aduaneira de 20% sobre as importações) e o andamento do Brexit.

  1. Inflação em 2% em fevereiro muda política?

A inflação na zona euro subiu finalmente em fevereiro para 2%, a meta oficial da política monetária. Mas a situação é muito diversa dentro dos 19 membros do euro e as previsões mais recentes da Comissão Europeia para a inflação anual apontam para 1,7% em 2017 e uma descida para 1,4% em 2018. Em janeiro, Portugal registava uma inflação de 1,3%, depois de 0,9% no mês anterior.

Aguarda-se a revisão de previsões realizada pelos economistas do BCE que será divulgada hoje. Nas previsões divulgadas pelo BCE em dezembro do ano passado, a inflação anual deveria atingir 1,3% em 2017 e 1,5% no ano seguinte.

No entanto, apesar deste processo claro de reflação desde junho de 2016, a maioria do Conselho do BCE centra a sua atenção no que é designado por inflação subjacente, ou seja, a variação de preços no consumidor, excluindo componentes voláteis como a energia (cujos preços subiram 9,2% em fevereiro, liderando destacadamente os aumentos), a alimentação, o álcool e o tabaco. Ora, a inflação subjacente tem-se mantido em 0,9% desde dezembro do ano passado. Não descola.

Pelo que não se espera que os 2% de inflação em fevereiro conduzam a uma revisão da política monetária, mesmo que em algumas grandes economias do euro, como a Alemanha (2,2% em fevereiro) ou a Espanha (3%) essa meta esteja inclusive ultrapassada. O Conselho deverá esperar que a inflação subjacente descole.

  1. Mudança na orientação futura

Muitos analistas apontam para a possibilidade de uma aletração numa frase do comunicado sobre a política futra relativa às taxas de juro. A sugestão foi avançada recentemente por Yves Mersch, membro da Comissão Executiva do BCE.

Desde há várias reuniões que o BCE repete que as taxas “poderão permanecer nos níveis atuais [por exemplo, em 0%, o mínimo histórico na taxa de referência] ou mais baixos por um período longo de tempo, muito para além do horizonte das compras líquidas de ativos [o atual quantitative easing]”. Os analistas falam da referência a “[níveis] mais baixos” poder ser suprimida, fechando a porta a descidas num horizonte próximo. O que seria “lido”, imediatamente, como um ponto de viragem na política monetária, com impacto no ‘sentimento’ dos mercados.

Os analistas do Commerzbank numa nota divulgada hoje consideram que o BCE não vai proceder a essa mudança de discurso. Fazê-lo seria autolimitar a sua margem de manobra face aos riscos que continuam no horizonte.

Os analistas acreditam que um debate sobre quando iniciar o processo de subida das taxas de juro poderá ocorrer a partir do verão deste ano, e nomeadamente depois das eleições na Alemanha (a 23 de setembro), eventualmente nas reuniões de outubro e dezembro. Segundo a Bloomberg, uma probabilidade superior a 50% para uma primeira decisão de subida dos juros só se regista para a reunião de 8 de março de 2018.

  1. Previsões económicas do BCE

O BCE vai divulgar as suas previsões para inflação e crescimento na zona euro para 2017 e 2018, atualizando as que divulgou em dezembro do ano passado. A atenção estará centrada em que revisões serão feitas.

As previsões de dezembro apontavam para uma inflação de 1,3% em 2017 e 1,5% em 2018 e uma taxa de crescimento real do PIB de 1,7% este ano e 1,6% no próximo. Ou seja, a reflação prosseguia, mas o crescimento abrandava ligeiramente em 2018.

Os analistas esperam revisões em alta.

  1. Ritmo do QE e sua descontinuação

A reunião do final do ano passado decidiu estender o programa de compra de ativos pelo BCE - vulgo quantitative easing (QE) até final de 2017 e reduzir o volume de compras mensal (em todo o tipo de ativos) a partir de abril para €60 mil milhões. Atualmente está em €80 mil milhões.

Desde outubro do ano passado que o volume de compras de dívida pública (a principal componente do programa de aquisição de ativos) esteve acima de €70 mil milhões até fevereiro último, com exceção de dezembro (onde o volume de compras foi de €55 mil milhões). Em fevereiro desceu para €68 mil milhões.

Para alguns periféricos, a redução do volume de compras mensal de dívida pública é sentida desde dezembro do ano passado. No caso de Portugal, as aquisições caíram de 1021 milhões de euros em outubro passado para 656 milhões em fevereiro.

Com a redução do volume mensal de compras pelo BCE, as aquisições por país deverão reduzir-se, o que terá sempre um impacto negativo sobre o mercado da dívida dos periféricos do euro (com exceção da Grécia que ainda não foi integrada nesse programa).

Apesar da pressão por parte de alguns bancos centrais para uma indicação aos mercados financeiros de que o BCE procederá a uma descontinuação do programa de compras, a maioria do Conselho continua a opor-se a que se transmitam tais sinais. Os analistas só esperam que esse debate seja trazido a público depois do verão e que um processo de descontinuação (que nunca será abrupto, como já referiu Draghi) poderá desenrolar-se em 2018, por um período entre seis a nove meses.

Face a este nove quadro, os membros do euro mais frágeis - não só periféricos, mas também alguns considerados do 'centro', como França e Áustria - enfrentarão, então, as dúvidas dos mercados financeiros sobre a sustentabilidade das suas dívidas. Com o recuo da política monetária expansionista, outras instituições terão de desempenhar uma função de gestão dos choques. Um dos pontos de discussão é a evolução do Mecanismo Europeu de Estabilidade para uma Fundo Monetário Europeu, solução que parece ser do agrado da Alemanha.

  1. Desequilíbrios dentro do Eurosistema

A discussão sobre os desequilíbrios dentro do Eurosistema regressou depois da divulgação do balanço do sistema de pagamentos conhecido pela sigla TARGET2, que é detido e operado pelo Eurosistema. É a principal plataforma europeia para o processamento de pagamentos de grande montante, sendo utilizada tanto por bancos centrais como por bancos comerciais para processar pagamentos em euros em tempo real.

Os dados de final de janeiro revelam que os desequilíbrios se agravaram, com a Alemanha com um saldo positivo em nível recorde, e Itália, Espanha, Portugal e Grécia com saldos negativos, em máximos no caso dos dois grandes periféricos. Nem mesmo durante o período das crises de dívida soberana atingiram tais níveis, quando se registou uma fuga de capitais dos periféricos para a Alemanha, Holanda e Luxemburgo. No caso português, o saldo negativo no sistema estava em janeiro num nível similar ao de novembro, que é o mais elevado da série publicada pelo BCE.

O Bundesbank anunciou hoje que o excedente da Alemanha no sistema do Target 2 subiu 20 mil milhões de euros em fevereiro, estabelecendo um novo recorde. Em 2012, no pico do andamento dos resgates dos periféricos do euro, o excendente alemão subiu para 655,7 mil milhões de euros; em fevereiro de 2017 registava 814 mil milhões.

Alguns economistas consideram estes desequilíbrios como sintoma de que os periféricos (com exceção da Irlanda) não aguentam uma moeda única e que seria preferível redenominarem para moedas nacionais mantendo-se eventualmente no quadro de uma área do euro como moeda comum (em que o BCE emitiria um euro internacional para esses membros com situação dual). Outros sublinham que, agora essa situação é “benigna”, relacionada com o papel de ‘resgate’ que o programa de compras de dívida pública do BCE tem tido junto de Espanha, Irlanda, Itália e Portugal, e mesmo Áustria. É o que se pode ler num artigo de Raphael Auer e Bilyana Bogdanova publicado esta semana pelo Banco de Pagamentos Internacionais (BIS, na sigla em inglês).