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BCE. Ainda não é o momento de alterar a política expansionista

Draghi reafirmou que os juros continuam em mínimos e assegurou a manutenção das compras de dívida, porque a inflação ainda não convence. Mas disse que a urgência para ir mais além desapareceu

Jorge Nascimento Rodrigues

O Banco Central Europeu (BCE) não alterou esta quinta-feira o quadro da sua política monetária, com os juros mantendo-se em mínimos históricos e não discutiu qualquer descontinuação do programa de compra de ativos.

No entanto, Mario Draghi não deixou de sublinhar, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião do Conselho do BCE que se realizou hoje, que a pressão para mais expansionismo monetário diminuiu.

O comunicado da reunião mantém escrita a flexibilidade do banco central: “taxas de juro diretoras do BCE permanecerão nos níveis atuais ou em níveis inferiores durante um período alargado e muito para além do horizonte das compras líquidas de ativos”. O Conselho não discutiu a reformulação da frase e nomeadamente a eliminação da menção a um corte futuro, em caso de necessidade. Mas Draghi não deixou de sublinhar que “a probabilidade de se materializar uma descida [dos juros] caiu”.

A flexibilidade mantem-se, mas o BCE insiste, agora que face ao facto de a “política monetária ter sido bem sucedida”, o “sentido de urgência” que havia quando a deflação ameaçava a zona euro – em 2015 e no início de 2016 - recuou. O que levou o Conselho a fazer uma pequena alteração no discurso, onde os analistas não previam. Draghi chamou a atenção que o BCE removeu na sua declaração a referência “a que se necessário para alcançar os seus objetivos usará todos os instrumentos previstos no seu mandato”.

A reunião não discutiu também o lançamento de uma nova linha de financiamento para os bancos que suceda à atual TLTRO (de empréstimos a 4 anos relacionados com objetivos específicos), cujas submissões de pedidos terminam, agora, em março. “Não houve discussão sobre outro TLTRO”, disse Draghi, mas se a situação o exigir o Conselho regressará ao tema.

A diminuição da pressão prende-se à melhoria do quadro macroeconómico. Os técnicos do BCE reviram em alta as suas previsões para o crescimento do PIB e da inflação na zona euro até 2019. No crescimento, subiram em uma décima as previsões para 2017 e 2018, mas, mesmo assim, haverá um abrandamento: de 1,8% este ano para 1,7% no próximo e 1,6% em 2019. Na inflação, a revisão foi mais acentuada na previsão para 2017, que subiu de 1,3% para 1,7%, com uma descida para 1,6% em 2018 e um regresso a 1,7% em 2019. Mesmo assim, a inflação anual manter-se-á abaixo da meta de 2%.

Processo de reflação ainda não convence

Como se esperava, Draghi repetiu os argumentos para recusar uma mexida na política monetária apesar da inflação na zona euro ter subido 2% em fevereiro. Chamou a atenção que essa subida não é convincente, pois está marcada pela componente dos preços na energia, que é volátil.

O BCE olha, por isso, para a inflação subjacente (excluindo as componentes da energia, alimentação, álcool e tabaco), que continua abaixo de 1%. E frisou que a variável que vai ser seguida com atenção é o crescimento dos salários, que considerou “a variável chave”.

A prudência tem ainda uma outra razão. Apesar das fontes internas macroeconómicas de riscos terem diminuído nos últimos seis meses, os riscos geopolíticos globais aumentaram. Ainda que Draghi aconselhe cautela também na análise desses riscos, pois “ainda não observámos um impacto significativo”. O presidente do BCE considerou, no entanto, que alguns deles tiveram “impacto negativo”, mas ironizou que não os ia enumerar.

Em relação a alguns pontos quentes na próxima reunião de ministros das Finanças e de banqueiros centrais do G20 - que decorrerá dia 17 na Alemanha -, Draghi reafirmou a posição do BCE em prol do comércio livre, contra o protecionismo, e veio em defesa de Angela Merkel e de Wolfgang Schäuble considerando que “não há mérito algum em atacar a Alemanha” em virtude dos excedentes externos. Afirmou, também, que “o euro não é culpado da situação”.

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