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Dívida. Otimismo em Portugal contrasta com precaução nos mercados

Brendan McDermid/Reuters

Portugal pagou mais para emitir dívida a nove anos esta quarta-feira e não colocou o montante máximo previsto. O primeiro-ministro destaca as taxas em mínimos desde a entrada no euro. Nos mercados, a leitura é diferente

Portugal pagou mais para se financiar a nove anos esta quarta-feira. Enquanto o primeiro-ministro, António Costa, destaca as taxas de juro em mínimos da era do euro, nos mercados o tom é de cautela perante o clima de incerteza. Os juros da dívida soberana portuguesa a 10 anos situam-se esta quarta-feira na casa dos 4%.

Nos últimos meses, os juros subiram devido à incerteza política na Europa, à perspetiva de subida da inflação nos Estados Unidos e à redução do nível de compras por parte do Banco Central Europeu.

Portugal colocou 1.112 milhões de euros esta quarta-feira em dois leilões de Obrigações do Tesouro (OT) a 3 e 9 anos. A taxa média no prazo mais longo subiu de 3,027% para 3,95% e no prazo mais curto fixou-se em 1,216%.

A procura foi superior na colocação no prazo mais curto, atingindo as 2,71 vezes face à oferta, enquanto que na emissão a 9 anos o rácio fixou-se em 1,79 vezes, comparando com 1,72 vezes no leilão anterior.

No Parlamento, António Costa afirmou que “desde 1993, os momentos em que tivemos taxas de juro inferiores às atuais foram absolutamente episódicos”. “Temos boas razões para estar atentos mas confiantes na capacidade do país gerir e solver a sua dívida”, disse, citado pela Reuters.

Nos mercados, o tom é de cautela em relação à evolução e perspetivas para a dívida soberana portuguesa.

“Continuamos cautelosos em relação às Obrigações do Tesouro portuguesas no médio prazo a não ser que haja boas notícias no setor bancário português e/ou que o BCE aumente inesperadamente o montante de compras de dívida portuguesa que desceram de novo em fevereiro”, diz David Schnautz, estratega de taxas de juro do Commerzbank.

A subida dos juros não tem sido apenas um fenómeno português. “Tem havido comportamentos variados, onde se nota alguma coerência é na diferença das taxas de juro dos principais países da Europa face à Alemanha”, afirma Filipe Silva, diretor de gestão de ativos do Banco Carregosa. “Aí houve um movimento, generalizado, desde o início do ano: o spread alargou muito e, embora em março já tenha estreitado um pouco, ainda se mantém mais elevado que em Janeiro”, diz e recorda que “desde o início do ano, o spread da França face à Alemanha foi dos 48 aos 76, estando hoje nos 65 pontos base”.

No caso de Espanha, em dezembro estava nos 114 pontos base face à Alemanha, subiu aos 148 e desceu agora para os 142 pontos base, refere o mesmo analista.

“Este movimento foi generalizado o que significa que em caso de stresse, todos os investidores querem é ter dívida alemã”, sublinha.

Analistas esperam que Portugal volte ao mercado para se financiar através da emissão de OT no dia 22 de março, praticamente um mês antes de ser conhecida a avaliação da DBRS sobre o rating da República. A agência canadiana é a única das quatro consideradas pelo BCE a atribuir uma classificação de investimento de qualidade a Portugal.

Pelo meio, os analistas querem saber mais sobre a mega recapitalização da estatal Caixa Geral de Depósitos. “Com o fim do prazo para toda a recapitalização da CGD a chegar no final do mês, pode vir a pesar nas obrigações soberanas portuguesas”, avisa Schnautz.

BCE e eleições

Para Portugal, como para os restantes países da zona euro, os próximos meses apresentam desafios. “O principal acontecimento que vai influenciar o comportamento da dívida é a decisão do BCE sobre taxas de juro. Nos EUA, o ciclo de subida de taxas já teve início. Na Europa, apesar de o comportamento do mercado indicar que vai acontecer o mesmo, ainda não há uma decisão”, diz Filipe Silva. E não dúvida que esse fator vai condicionar o mercado em 2017. “E começa já com o que possa ser dito no final da reunião do BCE de amanhã”, avisa.

Dados divulgados na semana passada mostram que a inflação na zona euro subiu para 2% em fevereiro, a meta do BCE.
Nos mercados, espera-se que o BCE não dê sinais de querer alterar a sua política de estímulos na reunião da próxima quinta-feira.

Mas têm surgido vozes a pedir que o BCE ajuste as suas perspetivas futuras perante a subida da inflação e crescimento económico.

Para Andrew Bosomworth, responsável de gestão de portefólio da PIMCO na Alemanha, “há um caso forte para o BCE continuar com o seu programa de compra de ativos, para alterar a sua perspetiva para o futuro e para começar a normalizar as taxas”. “Estas mudanças vão tender para restringir as condições financeiras, estes riscos são superados elos riscos de estabilidade financeira da região”, diz numa análise. E frisa que o risco de condições financeiras mais restritivas é parcialmente compensado por um dólar mais forte, spreads de crédito mais estreitos e subida dos preços do imobiliário”.

No caso da Reserva Federal, a probabilidade de anunciar uma subida da taxa de juro nos EUA em 25 pontos base no dia 15 de março subiu de 24% para 76%, segundo o Commmerzbank.
Além da política monetária, a Europa tem pela frente eleições em vários países europeus, com os receios da chegada ao poder de partidos mais radicais a contribuir para o aumento da perceção do risco por parte dos investidores.