Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Energia do mar em Portugal atrai investimento superior a 250 milhões de euros

WINDFLOAT. Projeto liderado pela EDP explora torre eólica flutuante

MARC PREEL / AFP / GETTY IMAGES

Governo quer fomentar uma indústria para explorar o potencial energético renovável no oceano. O elevado custo das tecnologias existentes é o principal obstáculo

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

A exploração de energias renováveis no mar ao largo da costa portuguesa deverá atrair até 2022 um investimento superior a 250 milhões de euros, que precisará ainda de financiamento público, mas poderá, em contrapartida, criar mais de 800 postos de trabalho.

As projeções constam do relatório “Energia no mar”, elaborado no final do ano passado por um grupo de trabalho com três dezenas de especialistas e presidido pela ministra do Mar, Ana Paula Vitorino. E muitos dos cenários que o referido relatório aponta serão esta terça-feira o prato forte da conferência “Energias renováveis oceânicas”, na Gare Marítima de Alcântara, em Lisboa.

A conferência juntará representantes de diversas empresas que ao longo dos próximos anos poderão criar em Portugal um “cluster” para a exploração de energias renováveis oceânicas, como as eólicas offshore e a energia das ondas, entre outras.

Empresas como a ASM Energia (do grupo A. Silva Matos), a Corpower, a Vestas Offshore Wind, a EDP e os Estaleiros Navais de Peniche podem, a prazo, retirar dividendos da aposta de Portugal nas renováveis marinhas, alargando os horizontes face à já consolidada aposta nas fontes renováveis em terra firme, cujo potencial é bem mais limitado. Mas o que está em causa?

Segundo o relatório “Energia no mar”, o grupo de trabalho liderado por Ana Paula Vitorino calculou em 254 milhões de euros o investimento que Portugal deverá atrair entre 2015 e 2022, indo a maior fatia para a expansão do projeto Windfloat (liderado por EDP e Repsol), que explorará eólicas “offshore” ao largo de Viana do Castelo. A expansão do Windfloat deverá absorver 105 milhões de euros.

Dos 254 milhões a investir no país uma parcela de 30 milhões é estimada como custo do cabo elétrico submarino para ligar a Viana do Castelo a produção energética no mar (um investimento que deverá ser financiado com fundos comunitários e do Estado português, sem onerar as tarifas dos consumidores de eletricidade). A empresa Corpower deverá no mesmo período aplicar em Portugal 22 milhões de euros num parque de energia das ondas.

ANA PAULA VITORINO Ministra do Mar liderou o grupo de trabalho que estudou o potencial da energia do mar

ANA PAULA VITORINO Ministra do Mar liderou o grupo de trabalho que estudou o potencial da energia do mar

TIAGO MIRANDA

As estimativas de investimento registam não só as previsões das empresas promotoras dos projetos mas também as contas da experiência recente em diversos projetos-piloto que decorreram em águas portuguesas. Entre 2000 e 2014 o país acolheu investimentos acumulados de 147 milhões de euros em vários projetos de investigação e desenvolvimento na área das energias oceânicas e em projetos concretos como o Pelamis, a central de energia das ondas do Pico, a AWS, o Waveroller e o Windfloat. Daquele montante 17 milhões de euros foram financiamento público nacional.

A ministra Ana Paula Vitorino diz estar “bastante otimista” quanto à exequibilidade da aposta nas energias oceânicas. É que, apesar dos desafios que estas fontes colocam do ponto de vista técnico e económico, há um compromisso internacional relativamente à descarbonização. “Para cumprirmos as metas temos mesmo de avançar para este tipo de programas”, sublinhou a ministra do Mar em declarações ao Expresso.

Como pagar?

A verdade é que no dia de hoje ainda são caras as tecnologias para explorar o potencial energético do vento no mar ou das ondas. O relatório do grupo de trabalho coordenado por Ana Paula Vitorino cita contas da EDP que mostram que a energia das ondas tinha em 2015 um custo nivelado de produção de 270 a 430 euros por megawatt hora (MWh). Ora, atualmente a eletricidade é transacionada no mercado ibérico a menos de 50 euros por MWh.

A eólica offshore, por seu turno, apresenta um custo nivelado de produção (ou seja, quanto custa produzir a partir dessa fonte tendo em conta o investimento necessário e uma expectativa de retorno do investidor de 8% a 10% ao ano) de 130 a 170 euros por MWh, ou seja, cerca do triplo do atual preço de mercado da eletricidade. Já a eólica convencional, em terra, tem um custo nivelado de produção entre 50 e 70 euros por MWh, estando hoje no limiar da competitividade, sem subsídios, com as fontes tradicionais (termoelétricas a carvão e gás natural, hídricas, entre outras).

Na indústria espera-se que o equipamento para explorar a energia das ondas e a eólica offshore venham nos próximos anos a tornar-se mais baratos, repetindo a trajetória que teve a indústria fotovoltaica: entre 2008 e 2015 o custo dos painéis solares caiu 80%, fruto, principalmente, dos ganhos de escala e da evolução tecnológica.

Segundo Ana Paula Vitorino, o Governo português tem recebido “várias manifestações de interesse de grupos internacionais” para investir nas energias oceânicas em Portugal. Para que isso se concretize, o país precisará de efetivar as áreas dedicadas a este tipo de projetos (energia das ondas ao largo de Peniche, eólicas “offshore” ao largo de Viana do Castelo).

PELAMIS. Em 2007 e 2008 o projeto de energia das ondas custou 15 milhões de euros

PELAMIS. Em 2007 e 2008 o projeto de energia das ondas custou 15 milhões de euros

d.r.