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Como Carlos Tavares construiu em quatro meses um gigante automóvel

NEGÓCIO. Carlos Tavares, presidente executivo do Grupo PSA - Peugeot-Citroën, sela a compra da Opel, com um aperto de mão à presidente executiva da General Motors, Mary Barra

FOTO OPEL

Em 2015, a líder da General Motors Mary Barra disse ao Expresso que não aceitava mudanças no seu grupo. Dois anos depois, o gestor português Carlos Tavares só precisou de quatro meses para convencer Barra a vender a Opel

Quatro meses de negociações entre a General Motors (GM) e o Grupo PSA - Peugeot-Citroën bastaram para colocar um ponto final aos 88 anos em que a Opel-Vauxhall pertenceu ao gigante norte-americano GM. Ao contrário do que a presidente-executiva da GM, Mary Barra, tinha referido ao Expresso, em Detroit, em março de 2015 - que a GM não aceitava propostas da Fiat-Chrysler e que manteria a dimensão e a estratégia independente que estava a seguir -, os norte-americanos decidiram alienar a Opel.

O principal protagonista desta negociação é o português Carlos Tavares, presidente executivo da PSA, que agora pode criar o segundo maior grupo da indústria automóvel europeia. Os franceses terão de concretizar a compra da Opel até ao fim de 2017. A PSA não atinge a dimensão do Grupo Volkswagen, mas vai ultrapassar o número de carros produzidos pela Renault, atual número dois do sector na Europa.

Crossland X, primeiro carro construído conjuntamente pela PSA e pela Opel

Crossland X, primeiro carro construído conjuntamente pela PSA e pela Opel

A tempo de ir a Genebra como 2º maior grupo europeu

Este negócio foi apresentado esta segunda-feira de manhã, 6 de março, na sede da PSA em Paris, e contou com a presença da presidente-executiva da GM, Mary Barra, de Carlos Tavares e do presidente-executivo da Opel, Karl-Thomas Neumann. Pergunta-se: há consequências práticas visíveis? Há e são imediatas.

A realidade mostra que, a partir de hoje, a indústria automóvel europeia mudou radicalmente. A prova disso é que amanhã, terça-feira 7 de março, quando as portas do 87º Salão Automóvel de Genebra forem abertas aos jornalistas, o expositor da Opel apresentará um modelo - o SUV Crossland X - que constitui um dos três projetos comuns desenvolvidos entre a PSA e a Opel.
Para Carlos Tavares este não é apenas o resultado de um projeto comum. É, efetivamente, o primeiro veículo que vai utilizar tecnologia partilhada entre os dois grupos, liderando assim a aproximação das plataformas utilizadas pela PSA e pela Opel para fabricarem os seus carros.

Quota de 17% do mercado

Quer em volume de negócio, quer em quotas de mercado, a integração da Opel-Vauxhall no Grupo PSA cria um conglomerado industrial de dimensões muito relevantes. Com o volume de negócios registado em 2016 pela Opel-Vauxhall - de 17,7 mil milhões de euros - a PSA ascende à dimensão de segundo maior fabricante de veículos na Europa, com uma quota de mercado de 17%. No entanto, a Opel-Vauxhall tem um historial de 16 anos consecutivos de perdas, o que torna o desafio de Carlos Tavares mais complexo, atendendo a que o presidente executivo da PSA quer que a Opel se torne rentável até 2020.

O objetivo de Carlos Tavares é ambicioso, mas não condena a estratégia seguida pelo presidente da Opel, Karl-Thomas Neumann, que segundo o responsável da PSA, "vai na direção certa". Aliás, o gestor português congratulou-se com tudo o que tem sido alcançado pelas marcas Opel e Vauxhall e "pelo excecional património da empresa" - que é "o parceiro ideal da PSA". E afirma-se "confiante no significativo processo de aceleração da recuperação da Opel-Vauxhall", com o apoio da PSA, "respeitando os compromissos assumidos pela GM com os funcionários da Opel-Vauxhall".

Erhard Schnell, criador do Opel GT, ícone automóvel dos anos 60

Erhard Schnell, criador do Opel GT, ícone automóvel dos anos 60

Tradição da Opel na inovação

Este negócio permitirá ao Grupo PSA alcançar economias de escala e identificar sinergias nas áreas de compras, produção e Investigação e Desenvolvimento (I&D). E essas sinergias são estimadas em cerca de 1,7 mil milhões de euros por ano até 2026. É precisamente na área de I&D, de engenharia e de design que a unidade da Opel, em Rüsselsheim, faz a diferença no sector automóvel e tem sido um dos fatores que têm acelerado sucessivos avanços da marca alemã em relação à concorrência. Tem tradição na inovação.

Em maio de 2016, o Expresso foi a Rüsselsheim - a propósito dos 50 anos do Opel GT, desenvolvido entre 1965 e 1968 - e comparou o trabalho do seu criador, Erhard Schnell, com o último concept car da Opel inspirado no GT de 68, destinado a ser equipado com as soluções tecnológicas mais vanguardistas (embora, na realidade, o protótipo disponível não tivesse a motorização preconizada e o seu interior ainda estivesse "despido" de tecnologia).

Erhard Schnell recordou na altura como lhe saíram os primeiros traços do GT numa folha de papel. "As linhas foram muito puras, talvez mais puras que o ícone desportivo da GM, que na altura era o Corvette. A minha ideia não era criar um Corvette europeu, mas sim um automóvel desportivo com todas as características que o mercado procuraria, desde o tipo de bancos ao tabliê, sendo fundamental o traço sensual das curvas marcadas na sua silhueta que estilizam uma garrafa clássica de Coca-Cola. E tudo isso surgiu de um traço que saiu bem no papel", recorda o designer.

A versão desconhecida do Elektro GT

É certo que a conceção do GT teve retoques e melhorias por parte da equipa de Erhard Schnell até chegar à versão que foi apresentada no Salão Automóvel de Frankfurt de 1965. "Mas não tivemos muito tempo para ter tudo pronto para o salão", comenta Erhard Schnell. Em 1968 foi lançada a versão de produção. O slogan comercial traduzia a ideia da fluidez de linhas do GT e o seu caracter desportivo: "Only flying is better." O GT marcou o sector automóvel europeu em 1968, na altura em que a minissaia marcava a moda feminina.

Apesar da linha e do design do Opel GT ter resultado diretamente do génio de Erhard Schnell - um carro que se assumiu rapidamente como um dos ícones dos veículos desportivos europeus de baixo custo -, o seu desenvolvimento tecnológico e a sua fiabilidade utilizaram as soluções de motorização afinadas pela Opel e que permitiram que estes carros continuem a ser utilizados nos nossos dias - hoje é um clássico com grande procura no mercado europeu e nos EUA.

Curiosamente, o motor de gasolina de quatro cilindros com 1897 centímetros cúbicos, que debitava 90 cavalos, atingia uma velocidade máxima de 185 km/hora. O que a generalidade dos especialistas do sector automóvel não sabe é que a versão mais rápida do GT foi a elétrica, designada Elektro GT, que utilizava um motor Bosch de 120 cavalos e atingia 214 km/hora, com uma aceleração de 6 segundos para passar dos zero aos 100 km/hora. O Elektro GT está guardado nas instalações reservadas de Rüsselsheim. Ou seja, a área da mobilidade elétrica é uma das unidades com maior tradição na Opel e que ainda hoje continua a ter grande desenvolvimento tecnológico.

Expresso testou novo concept GT

É por isso que em 2016 o GT renasceu como um novo concept destinado a incorporar todas as tecnologias mais avançadas. Não só como um veículo que será uma potencial base para motorizações elétricas ou híbridas, mas também para utilizar os novos painéis digitais de instrumentos onde a informação está distribuída por todas as zonas com maior impacto visual para o condutor, ao contrário dos painéis clássicos, que concentram a informação numa zona precisa (tradicionalmente, à frente do volante). O Expresso foi um dos primeiros jornais a testar este concept em circulação.

Talvez seja por tudo isto que, para a GM, a venda da Opel não significa um corte definitivo, porque salvaguardou a possibilidade de participar no futuro do novo universo industrial PSA-Opel através da detenção de garantias para a compra de ações da PSA. Até lá, a GM e a PSA pretendem colaborar precisamente no desenvolvimento de tecnologias de eletrificação e na manutenção de acordos de fornecimento para alguns modelos da GM, como as marcas Holden e Buick. Por seu turno, a PSA poderá vir a ter acesso, a longo prazo, aos sistemas de células de combustível da parceria GM-Honda.

A compra da Opel pela PSA inclui as operações automóveis da Opel-Vauxhall, as marcas Opel e Vauxhall, seis fábricas de montagem e cinco fábricas de produção de peças, um centro de engenharia, na sede da Opel em Rüsselsheim, e aproximadamente 40 mil colaboradores. A GM manterá para si o centro de engenharia de Turim, na Itália. A Opel-Vauxhall beneficiará sempre das licenças de propriedade intelectual da GM até a adaptação gradual dos seus veículos às plataformas da PSA.