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Herdeiro da Samsung no banco dos réus por corrupção

Lee Jae-yong, 49 anos, herdeiro do império Samsung, foi acusado pela Procuradoria-Geral da Coreia do Sul de corrupção, desvio de fundos e ocultação de ativos no exterior

Chung Sung-Jun/GETTY

A Coreia do Sul vive um megaescândalo que envolve um dos homens mais poderosos e a cúpula política deste país asiático

João Ramos

João Ramos

Jornalista

Em Portugal há o caso Espírito Santo/Marquês, no Brasil estalou o escândalo Odebrecht/Lava-Jato, e na Coreia do Sul rebentou o caso Samsung. Os três países vivem os maiores escândalos da história, que, salvaguardando as devidas proporções, têm um ingrediente comum: as ligações perigosas entre a cúpula económica e o poder político.

Lee Jae-yong, 49 anos, herdeiro do império Samsung, foi acusado pela Procuradoria-Geral da Coreia do Sul de corrupção, desvio de fundos e ocultação de ativos no exterior. Delitos que levaram à destituição pelo Parlamento da Presidente sul-coreana Park Geun-hye, por alegadamente ter favorecido o líder do conglomerado, que terá ordenado a transferência de €35 milhões para fundações controladas pela empresária Choi Soon-sil, amiga e confidente da ex-Presidente.

Em troca, o Governo coreano terá dado luz verde, em 2015, à fusão de duas das participadas da Samsung, de forma a que Lee Jae-yong, também conhecido pelo diminutivo Jae-Y, ficasse à frente do conglomerado. O pai, Lee Kun-hee, o carismático líder desde 1987, sofreu um ataque cardíaco em 2014 e está internado num hospital, em coma, mas continua a ser formalmente o presidente do grupo.

A investigação a este alegado suborno à ex-Presidente envolveu mais quatro altos executivos da Samsung e corre em paralelo com o processo judicial em curso contra Choi Soon-sil, que foi acusada formalmente de fraude, extorsão e abuso de poder. A ex-chefe de Estado sul-coreana aguarda um parecer do Tribunal Constitucional, que em meados deste mês de março decidirá se a sua deposição é válida.

Impasse na liderança

Com o líder em funções na prisão e o líder oficial incapacitado, a gestão de topo do conglomerado não está habilitada a tomar decisões estratégicas. Mesmo assim, a poderosa divisão de eletrónica da Samsung, a joia da coroa que detém o negócio dos telemóveis, instaurou um novo código de conduta para aumentar o controlo e a transparência das doações.

Este caso de corrupção que envolve Jae-Y é mais uma mancha no prestígio da marca sul-coreana, cujo brilho tinha ficado ofuscado no final de 2016 com o escândalo das baterias do telemóvel Galaxy Note 7, que se incendiavam e que obrigaram a realizar uma gigantesca recolha a nível mundial. A rival Apple aproveitou para colocar o seu iPhone na liderança do mercado dos smartphones, mas sofreu fortes ataque das marcas chinesas Huawei e Xiaomi.

Ainda antes destes contratempos, a liderança interina de Jae-Y apresentou números dececionantes em 2014 e 2015, bem longe do desempenho habitual do seu progenitor. Em 2016, apesar dos escândalos, o lucro da Samsung aumentou 50%, em parte graças ao dólar forte e a ter um próspero negócio de componentes (memórias, processadores e ecrãs), que são vendidos a outros fabricantes de smartphones e tablets.

Apesar de a Samsung ter a liderança tecnológica e gozar de boa saúde financeira, Shaun Cochran, diretor de pesquisa de um banco de investimento, referiu ao jornal francês “Les Échos” que o grupo sul-coreano está perante um dilema estratégico: “Concentrar-se nas atividades de produção mais rentáveis, onde domina, ou encaminhar-se para o horizonte mais vasto do mundo ligado à internet, onde o software dominará o hardware.”

Provavelmente, o grupo vai sentir a falta da liderança de Lee Kun-hee, que transformou um chaebol (tipo de conglomerado empresarial sul-coreano) que em 1987 tinha um volume de negócios de €1,1 mil milhões num império que em 2014 faturou €288 mil milhões.