Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Portugal, no reino do otimismo

INE A economia está a acelerar devido a uma recuperação do investimento e a um crescimento mais intenso do consumo privado

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

A economia portuguesa cresceu no quarto trimestre de 2016 ao ritmo mais alto desde o segundo trimestre de 2010, o desemprego está em mínimos desde março de 2009 e a confiança dos consumidores está no valor mais alto dos últimos 17 anos

“O elevado nível de confiança dos consumidores reflete provavelmente a contínua recuperação económica, com a subida do PIB, a queda do desemprego e a recuperação do rendimento das famílias.” A frase é de Jack Allen, economista da Capital Economics, uma consultora sedeada em Londres. E espelha o estado de espírito que se vive na economia portuguesa, apesar da incerteza que tem dominado a agenda internacional desde a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos.

Olhemos para os dados. O crescimento do PIB no quarto trimestre foi o mais elevado desde o segundo trimestre de 2010, o desemprego está no valor mais baixo desde março de 2009 e a confiança dos consumidores está em máximos de quase 17 anos, desde março de 2000.

No quarto trimestre de 2016 o Produto Interno Bruto (PIB) luso cresceu 2% em termos homólogos, segundo os números divulgados esta quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Um valor superior aos 1,9% divulgados na estimativa rápida de meados de fevereiro. É certo que o crescimento no cômputo do ano de 2016 se manteve inalterado, nos 1,4%, ficando 0,2 pontos percentuais abaixo do registado em 2015. Contudo, olhando apenas para o quarto trimestre, este foi o crescimento mais elevado desde o segundo trimestre de 2010, um ano antes do resgate internacional, quando o PIB cresceu 2,5%.

Porque é que a economia está a acelerar? Segundo o INE, devido a uma recuperação do investimento e a um crescimento mais intenso do consumo privado.

Depois de três trimestres consecutivos de contração em termos homólogos, o investimento aumentou 2,6% nos últimos três meses de 2016. Segundo o INE, a construção foi a componente que mais contribuiu para a recuperação do investimento, destacando-se também o contributo positivo do investimento em equipamento de transporte.

Quanto ao consumo, disparou 3,1% no quarto trimestre em termos homólogos, o que compara com um crescimento de 1,9% nos três meses anteriores. Aqui, o INE centra atenções no crescimento mais intenso, de 12,5%, das despesas de consumo final das famílias em bens duradouros, “com destaque para a aquisição de automóveis”.

Em sentido contrário, o contributo da procura externa líquida foi negativo (menos 0,6 pontos percentuais), como resultado de um crescimento das importações mais intenso do que das exportações (7,3% contra 6,4%).

Desemprego em mínimos de 2009

A aceleração do crescimento económico foi acompanhada pela queda do desemprego. O INE confirmou esta quarta-feira que a taxa de desemprego em Portugal, ajustada de sazonalidade, ficou nos 10,2% em dezembro, o valor mais baixo desde março de 2009, quando se situava nos 10%.

O INE avançou ainda com a estimativa provisória do desemprego em janeiro deste ano, apontando para uma taxa inalterada face a dezembro, nos 10,2%. Este valor é 1,9 pontos percentuais mais baixo do registado um ano antes, em janeiro de 2016 (12,1%).

Marcos Borga

Também em janeiro, a taxa de desemprego dos jovens (15 aos 24 anos) desceu meio ponto percentual, para os 25,7%, em relação a dezembro. A quebra homóloga foi de 4,2 pontos percentuais, traduzindo uma descida acentuada do desemprego nesta faixa etária. Mesmo assim, um em cada quatro jovens em Portugal que procura ativamente emprego, não o consegue encontrar.

Já a taxa de desemprego dos adultos (25 aos 74 anos) aumentou de 8,9% em dezembro para 9% em janeiro, segundo a estimativa provisória do INE. Mas, face a janeiro de 2016, verificou-se uma descida de 1,7 pontos percentuais.

É neste quadro que o indicador de confiança dos consumidores atingiu em fevereiro o valor mais elevado desde março de 2000, ou seja, em quase 17 anos. A confiança dos consumidores está a subir de forma contínua desde setembro de 2016, revelou o INE esta semana. “A subida consistente do índice de confiança dos consumidores é encorajadora”, diz Jack Allen.

Uma melhoria que resultou do contributo positivo de todas as componentes do indicador: perspetivas relativas à evolução da situação financeira do agregado familiar; da situação económica do país e da poupança; e, mais expressivamente, das expectativas relativas à evolução do desemprego.

"Os consumidores também podem ter sido encorajados pelas últimas notícias sobre as finanças públicas, que mostram uma melhoria contínua", aponta Jack Allen. "O défice em 2016 será o mais baixo da história da nossa democracia e não será superior a 2,1%", já afirmou o ministro das Finanças, Mário Centeno.

O indicador de clima económico, que mede a confiança dos empresários também aumentou nos últimos dois meses, depois de ter descido em novembro e dezembro. Para esta evolução contribuiu um reforço da confiança na construção e obras públicas e no comércio e serviços.

Eleições na Europa são risco para 2017

A confiança está em alta, apesar da incerteza e das interrogações que pairam sobre a economia europeia e internacional. Jack Allen considera que esta aparente imunidade em Portugal não é uma surpresa, já que “a incerteza política em França e Itália ainda não produziu grande impacto na confiança nesses países”.

Contudo, deixa um alerta: “Se as eleições este ano acabarem por ser disruptivas [França, Holanda, Alemanha], então as implicações económicas e financeiras podem ser enormes”. Portugal dificilmente sairia ileso de um tsunami político na Europa.

  • O PIB português aumentou 1,4% em volume em 2016. No quarto trimeste a economia teve um crescimento homólogo de 2%, uma revisão em alta de 0,1 pontos percentuais face à Estimativa Rápida, anunciou o INE

  • Confiança dos consumidores em máximos de 17 anos

    A confiança dos consumidores voltou a subir em fevereiro e atingiu o máximo desde 2000. Apesar de poder ser positivo para o crescimento económico, economistas mostram-se cautelosos e alertam para eventual subida do recurso ao crédito