Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

China torna-se o primeiro mercado de exportação da Unicer

Rui Lopes Ferreira, presidente-executivo da Unicer

Rui Duarte Silva

O milagre chinês e o bom desempenho do mercado doméstico suavizam os efeitos da desgraça angolana. Angola tornou-se um mercado residual

Após o pesadelo angolano, a Unicer vive sob o efeito do milagre chinês. A China tornou-se, em 2016, o primeiro mercado de exportação, destronando Angola e superando mercados como França, Suíça ou Reino Unido.

Em dois anos, o mercado angolano tornou-se residual, passando de 120 milhões de euros para apenas cinco milhões. Já as exportações para a Ásia triplicaram de valor em 2016, um contributo decisivo para manter a receita do grupo cervejeiro nos 450 milhões de euros (-1% face ao exercício anterior). Os lucros estiveram em alta.

Esta terça-feira, dia 21, marca o início de um período festivo na Unicer. Poderia ser para celebrar o sucesso na China ou o crescimento dos lucros, mas o pretexto tem uma carga mais sentimental e simbólica: os 90 anos da Super Bock, o principal símbolo do líder português de bebidas. A marca contará com uma edição especial de aniversário e um open weekend (dias 3, 4 e 5 de março) na Casa da Cerveja, na sede da empresa em Leça do Balio (Matosinhos).

Milagre chinês

À Super Bock, já lá vamos. Primeiro, o negócio de 2016. A redução de 1% na receita esconde duas realidades. No mercado doméstico, o negócio cresceu 6%, beneficiando de um verão longo e soalheiro e da dinâmica turística que impulsiona o consumo no segmento mais rentável –– o canal da hotelaria, restauração e cafés.

Na frente externa, a receita caiu 23%, castigada pela sova que o mercado angolano levou. Expurgando o efeito Angola, as exportações cresceram 6% e prosperaram em todas as geografias, incluindo África – a Unicer lida com mais de 50 mercados.

No continente americano, a Unicer está em modo de contenção (desativou a parceria no Brasil para a produção local de Super Bock), em Moçambique repensa o projeto fabril face ao ambiente no país e o mercado europeu está estabilizado, com crescimento tímido. Sobra a Ásia, com a China a registar um “crescimento explosivo, tornando-se em poucos anos um destino muito relevante”, regista o presidente-executivo Rui Lopes Ferreira.

A ofensiva na China começou em 2009, focada na comercialização em hotéis e restaurantes de Whenzou, a capital de uma província com 54 milhões de habitantes. Depois, a Unicer alargou a operação a outras zonas, como Xangai e Pequim.

Resolvido o ajustamento, lucros disparam

E a rentabilidade? O desempenho operacional (86 milhões de euros) esteve em alta ligeira (3%). Já a evolução do lucro final foi mais empolgante: 38 milhões de euros, face aos 26 milhões de 2015. Mas, aqui há uma subtileza fundamental. Os custos (perto de oito milhões de euros) do doloroso processo de ajustamento concluído em março de 2016, foram imputados na totalidade ao exercício de 2015. Sem o efeito das provisões, o crescimento nos lucros foi de 8%.

"Todas as categorias de produtos, incluindo as águas lisas, são rentáveis", refere Rui Lopes Ferreira. A cerveja pesa 60% do volume e 72% da faturação da Unicer, que opera ainda nas sidras, refrigerantes, sumos e águas com gás.

Neste novo ciclo, balizado pela eficiência fabril, ganhos de produtividade e rentabilidade operacional, a Unicer quer permanecer fiel a um guião que prescreve "crescimento internacional com procura incessante de oportunidades, reforço das categorias que lidera e gestão e retenção de talentos".

Em Moçambique, evoluiu em 2016 para uma operação direta com 40 assalariados que assegura toda a cadeia de valor, mas a instalação de uma base fabril orçada em 100 milhões de euros está, para já, comprometida.

A Unicer lidera o mercado cervejeiro português, com uma quota em valor de 49,5% (dados Nielsen) – a Super Bock contribui com 45,2%.

É Bock? É Super Bock!

No ano em que Lindbergh fazia a primeira travessia aérea sem escalas do Atlântico (1927), na sala de ensaios da Companhia União Fabril Portuense das Fábricas de Cerveja (CUFP) um mestre alemão encetava uma viagem rumo a uma nova cerveja. Na altura, a cerveja tipo Bock ganhava adeptos na Europa. O caderno de encargos da CUFP falava de uma nova Pilsner, de fermentação prolongada, mais densa e encorpada do que as existentes no mercado. Quando um administrador é convidado a testar a nova fórmula, em fase de acertos finais, não conteve o entusiasmo: "É melhor do que uma Bock, é uma Super Bock!", batizando, involuntariamente, a nova marca que permaneceria incipiente e elitista, ofuscada pela Cristal, durante quatro décadas.

Só na viragem da década de 1970, a marca se torna popular e na estrela da companhia. "Super Bock, a cerveja que supera a sua exigência", tornou-se o seu primeiro slogan. Os anúncios seguintes enfatizavam o valor do produto. "Custa mais, mas sabe melhor" ou "Para quem o custo não conta", ficaram como exemplos.

A estreia na televisão acontece no fim dos anos 70, apresentando a Super Bock como a Cerveja Sabor. Dessa época ficou a assinatura atual – Sabor Autêntico.

Em 1927, a produção ficou-se pelo milhão de litros. Em 2016, a produção foi de 309 milhões de litros, distribuídos por mil milhões de garrafas que, alinhadas, cobrem 100 vezes a distância Porto-Lisboa. O recorde de produção está nos 328 milhões de litros (2007).

Hoje, a marca-simbolo da Unicer movimenta-se numa virtuosa torre de Babel de rótulos, taxas e designações, falando 12 línguas e distribuída em 50 países – a exportação vale um quarto da produção.

Além da edição especial sinalizando os principais marcos históricos e de um selo comemorativo aplicado em todas as embalagens, o 90.º aniversário da Super Bock será celebrado com uma ampla ofensiva promocional em todas as plataformas de comunicação.