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Região Centro tem mais €10 milhões para dar vida ao interior

TURISMO NAS ALDEIAS. Incentivar o empreendedorismo e combater a desertificação nas zonas rurais é o objetivo dos novos incentivos de valorização turística

Foram aprovados cinco programas PROVERE até 2018, integrando Aldeias Históricas ou Aldeias do Xisto, que funcionam como complemento a programas apoiados pelo Orçamento do Estado, como o Valorizar

Chegou a hora de puxar pelo interior do país, e estão a multiplicar-se os apoios nos chamados territórios de baixa densidade. Foram recentemente aprovados pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) cinco programas PROVERE (Programas de Valorização Económica de Recursos Endógenos), envolvendo uma dotação global de €10 milhões até 2018, para projetos associados às redes de Aldeias Históricas, Aldeias do Xisto, Estâncias Termais, Áreas Classificadas (como a rede Natura) ou 'Beira Baixa - Terras de Excelência'.

A tónica destes novos programas, financiados pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) é privilegiar “a componente económica, para fixar as pessoas e atrair jovens ao território, dando maior viabilidade a negócios com inovação mas sempre 'agarrados' a recursos endógenos”, adianta Ana Abrunhosa, presidente da CCDRC.

MUSEU AO VIVO. O património religioso é um trunfo na aldeia de Álvaro, que já pertenceu à Ordem de Malta. Apesar de ser uma 'aldeia branca', faz parte da rede Aldeias do Xisto

MUSEU AO VIVO. O património religioso é um trunfo na aldeia de Álvaro, que já pertenceu à Ordem de Malta. Apesar de ser uma 'aldeia branca', faz parte da rede Aldeias do Xisto

Como explica Ana Abrunhosa, os novos programas PROVERE nada têm a ver com os apoios de €10 milhões para valorização turística do interior no âmbito do programa Valorizar, aprovados no final de 2016, resultando estes últimos “de dinheiro do Orçamento do Estado e da iniciativa da Secretaria de Estado do Turismo”. Ao todo, o programa Valorizar disponibiliza apoios de €20 milhões, incluindo ainda turismo acessível e projetos de 'wi fi' gratuito nos centros históricos.

Ao contrário, os programas PROVERE referem-se a fundos comunitários, e à programação financeira feita pela região centro para o grande bolo de verbas do Portugal 2020. O facto dos programas do Governo e da CCDR Centro replicarem a meta de valorização turística do interior significa, segundo Ana Abrunhosa, “que cumprimos os mesmos objetivos” - e também consagra a possibilidade de haver candidaturas a ambos os programas como forma de complementar os apoios para projetos no interior.

“Estas estratégias, do Governo e da CCDR, nunca devem ser fechadas, mas sim complementares , uma vez que as prioridades estabelecidas para estes programas de valorização turística do interior são comuns. Espero que grande parte dos projetos de âmbito nacional venham para a zona centro e que alguns sejam também inseridos nos programas PROVERE”, sustenta a presidente da CCDRC.

MUSEU AO VIVO. O património religioso é um trunfo na aldeia de Álvaro, que já pertenceu à Ordem de Malta. Apesar de ser uma 'aldeia branca', faz parte da rede Aldeias do Xisto

MUSEU AO VIVO. O património religioso é um trunfo na aldeia de Álvaro, que já pertenceu à Ordem de Malta. Apesar de ser uma 'aldeia branca', faz parte da rede Aldeias do Xisto

Projetos associados às Aldeias do Xisto, às Aldeias Históricas ou às termas vão contar nos próximos anos com várias fontes de apoios, nacionais ou comunitários. A presidente da CCDRC lembra que os programas PROVERE não são novidade, mas foram reformulados na região centro à luz das novas regras do Portugal 2020. No âmbito do programa operacional do centro, as Aldeias Históricas passam a ter apoios de €2,5 milhões até 2018, e as Aldeias do Xisto o mesmo montante. As áreas classificadas contam com €2,3 milhões, o programa da Beira Baixa €800 mil e as estâncias termais €1,9 milhões.

Apoios adicionais de €84 milhões para empreendedores

“A região centro concentra 40% das termas do país, é um recurso único que merece ser valorizado”, faz notar Ana Abrunhosa, sustentando que o trabalho aqui deve começar a envolver as universidades. “Toda a gente fala dos benefícios das águas termais, mas não se tem trabalhado este sector na perspetiva da demonstração científica das propriedades das águas, e é esse tipo de conhecimento que é preciso adicionar aos produtos que existem”.

Na região centro, os apoios do PROVERE serão também complementados com outros incentivos associados a avisos dedicados a empresas para projetos inseridos na mesma estratégia de valorização turística. “Estamos a pensar qual será a dotação ideal para os avisos às empresas, mas deverá rondar €10 milhões”, avança a presidente da CCDRC.

Além destes, também haverá apoios adicionais de €84 milhões dirigidos a “pequenos investimentos no território, de micro-empreendedorismo na área de serviços, artesanato ou comércio, incentivando a contratação de pessoas”, refere Ana Abrunhosa.

PRAIAS FLUVIAIS. Funcionam como atrativo adicional a quem visita as Aldeias do Xisto. Na foto, as Fragas de São Simão, em Figueiró dos Vinhos

PRAIAS FLUVIAIS. Funcionam como atrativo adicional a quem visita as Aldeias do Xisto. Na foto, as Fragas de São Simão, em Figueiró dos Vinhos

“Numa primeira fase, a preocupação dos fundos comunitários, como o QREN ou o QCA III, foi o investimento material e físico na reconstrução das aldeias. No Portugal 2020 o objetivo já é dar vida às estruturas que foram construídas, como rotas pedestres ou praias fluviais, para garantir a sustentabilidade dos investimentos que foram feitos”, frisa a responsável da CCDRC. “A componente turística destes programas agora é muito grande, nomeadamente no trabalho em rede para um calendário de animação concertado e a comunicação profissional destes territórios já entrando no mundo da digitalização”.

Um “trabalho de formiga”

A novidade nos novos programas PROVERE está sobretudo no “trabalho de formiga”, como descreve Ana Abrunhosa, que passam a envolver ao nível da valorização turística e divulgação das aldeias escondidas no interior.

“O que vamos fazer de diferente relativamente ao anterior quadro comunitário é passar a ter uma equipa de gestão dedicada a estes programas que anda pelo território. São os atores que vão fazer a cola, o trabalho de rede que é necessário nestas zonas de baixa densidade, para conseguirmos ter um turismo especial, que é único em cada território, valorizando os seus recursos e dando sustentabilidade a quem lá vive”, enfatiza a responsável da CCDRC. “Hoje o turista não vai a um local só para dormir, quer conhecer a cultura e procura experiências locais”.

LENDAS E MARIALVICES. No castelo de Marialva, em Mêda, nasceu a história da dama dos pés de cabra e várias outras associadas ao Marquês de Marialva

LENDAS E MARIALVICES. No castelo de Marialva, em Mêda, nasceu a história da dama dos pés de cabra e várias outras associadas ao Marquês de Marialva

Nesta fase de crescimento turístico que está a chegar a todo o país, Ana Abrunhosa acredita no sucesso dos novos programas PROVERE ao nível da valorização turística do interior e combate à desertificação. “É um processo muito lento, e não vamos conseguir trazer a estes territórios a população que tinham há cem anos”, frisa. “Mas sinto que este é um momento de viragem. Está a haver uma revolução silenciosa nestes territórios, onde começa a haver uma geração nova, qualificada, com ideias e iniciativas totalmente diferentes, um mundo relativamente ao qual ainda há um grande desconhecimento”.

Olhando o futuro, também o papel das entidades públicas deve mudar nesta difícil missão de desenvolver o interior esquecido, reconhece a presidente da CCDR Centro.“Enquanto que num primeiro momento éramos nós a apresentar o caminho, hoje o nosso papel já deve ser mais o de entender a criatividade que existe no território. Está mesmo a começar uma pequena revolução no interior”.