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Gaia vai criar uma cidade do vinho

As empresas Sogrape e a Symington estão entre os maiores proprietários de imóveis no casco velho de Vila Nova de Gaia

Rui Duarte Silva

Antigos armazéns vão dar lugar a um parque temático sobre a cultura vinícola

Gaia vai ter um parque temático para os apreciadores do vinho. Um projeto que começa agora a delinear-se e que reúne dois grandes produtores vinícolas e também proprietários de imóveis na margem sul da foz do Douro — a Sogrape e Symington.

Serão seis hectares, o equivalente a seis campos de futebol, situados na zona alta da cidade, com uma vista aberta para o centro histórico do Porto, área classificada pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade. E bem junto às afamadas caves do vinho do Porto, que já são mais de uma dezena.

“Gaia recebe mais de um milhão de turistas nas suas caves do vinho do Porto de um total de oito milhões que visita o Porto. É um potencial que não está a ser aproveitado e que se quer agora rentabilizar”, afirma João Magalhães, diretor geral da Predibisa, consultora imobiliária que está a assessorar as duas empresas na gestão do seu edificado.

Um edificado constituído por muitos armazéns devolutos ou que estão a ser usados para a armazenagem dos vinhos. “Os grandes proprietários do casco velho de Gaia, onde se incluem a Sogrape e a Symington, têm de arranjar forma de rentabilizar os seus ativos e também o fluxo turístico que continua a chegar ao Porto. Sendo a Região Demarcada do Douro a mais antiga do mundo e existindo aqui em Gaia uma grande concentração de caves do vinho do Porto, porque não criar também aqui uma cidade do vinho, à semelhança do que já existe em locais como Bordéus, em França, ou Mendoza, na Argentina?”, reforça o responsável da Predibisa.

O objetivo será apostar numa espécie de parque temático orientado para o vinho que acolha no seu perímetro “pequenos hotéis vínicos e hostels que reforcem a oferta hoteleira na zona, dois ou três bons restaurantes, área expositiva para feiras ligadas à temática da produção vinícola, núcleos museológicos bem documentados que contem a história da produção na região, entre outros equipamentos”, refere o responsável da Predibisa, que está a trabalhar em parceria com uma empresa especializada em turismo, oriunda da Nova Zelândia (consagrada por produzir alguns dos melhores vinhos do mundo).

O projeto do parque temático ainda está a ser definido mas, segundo João Magalhães, o investimento passará não só pelos dois proprietários “mas também por investidores interessados em apostar neste conceito”.

“O turismo do Norte não é o do golfe. É o turismo cultural e do vinho. Com este projeto pode-se duplicar o número de turistas que vem à cidade”, realçou ainda o responsável.

Uma parceria de peso

Conhecida pelas suas caves do vinho do Porto (cerca de 15), Vila Nova de Gaia é o território por excelência dos grandes produtores, que aqui possuem um vasto edificado administrativo e logístico.

Aqui se cruzam a The Fladgate Partnership (que em 2010 inaugurou um dos hotéis mais premiados da hotelaria portuguesa, o cinco estrelas The Yeatman), a Symington e a Sogrape, estas últimas unidas agora nesta parceria.

Empresa familiar centenária, presente no Douro desde 1882, a Symington exporta o seu vinho para 80 países do mundo e entre as suas referências contam-se marcas como a Graham’s e a Cockburn’s.

Foi precisamente através da Cockburn’s, adquirida há seis anos pela família Symington, que esta reforçou não só o stock de vinho mas também o seu património imobiliário, uma vez que a Cockburn’s possuía vários imóveis, em Gaia.

No Douro, a família Symington, com ascendência escocesa, inglesa e portuguesa, possui duas adegas — uma na Quinta do Sol, perto da Régua, e outra na Quinta do Bonfim, perto do Pinhão. É aqui que a empresa vai buscar as uvas de que precisa para a produção do seu vinho do Porto, a cerca de 1200 lavradores espalhados por todo o vale do Douro.

A Sogrape, empresa fundada em 1942 por Fernando van Zeller Guedes, é proprietária das marcas Sandeman, Ferreira e Offley. Com nove quintas nas principais regiões vitícolas portuguesas, além das que a empresa detém na província de Mendoza, na Argentina, e dez centros de vinificação em Portugal, a empresa exporta para mais de 120 países (sendo o Mateus Rosé o seu vinho mais internacional).

A Sogrape tem vindo a consolidar a sua expansão além-fronteiras com a aquisição de várias empresas, entre as quais a Finca Flichman, em Mendoza, na Argentina, e a Framingham Wine Company, na Nova Zelândia.

Mais recentemente, e em Gaia, a Sogrape já começou a investir no turismo através da reconversão (ainda em curso) das antigas caves da Sandeman, um hostel e um restaurante (com a gestão do coletivo The Independente). Localizado no Cais de Gaia, na primeira linha do Douro, o projeto vai chamar-se House of Sandeman Hostel & Suites e só podia ter como tema o vinho do Porto.

Em Gaia, a empresa anunciou recentemente uma parceria.

Bordéus como inspiração

Inaugurada em junho do ano passado, a Cité du Vin, em Bordéus, cidade francesa mundialmente conhecida pelo vinho, foi projetada para permitir ao visitante uma experiência multissensorial sobre a cultura vinícola. O ex-líbris é o impactante edifício projetado pelo ateliê XTU, que nos seus 3000m2 oferece uma exposição permanente onde é possível aprofundar todas as dinâmicas do cultivo e produção do chamado néctar dos deuses, de diferentes castas e de vários pontos do globo. O parque tornou-se um palco privilegiado para conferências e provas de vinho de diferentes marcas.