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Carlos Costa isolado num Banco de Portugal em mudança

Carlos Costa, governador do BdP, não tem tido vida fácil

José Carlos Carvalho

Os vice-governadores, Duarte Neves e José Ramalho, devem ser substituídos por dois diretores do banco

As águas andam agitadas no Banco de Portugal (BdP). Carlos Costa, o governador que iniciou o segundo mandato em julho de 2015, três meses antes das eleições legislativas, está cada vez mais isolado. Tem havido muitas mudanças na estrutura e algumas escapam ao seu controlo.

Vai haver, em breve, mais mudanças na administração do BdP. Carlos Costa está prestes a perder os seus dois vice-governadores. Pedro Duarte Neves, agora com o departamento da estabilidade financeira e estatística, não pode renovar o mandato. José Ramalho, o responsável pelo Fundo de Resolução, poderá renovar, mas tudo indica que não ficará. Para os substituir estão na calha, sabe o Expresso, José Cadete Matos e Rui Carvalho. São dois diretores do BdP, homens da casa. O primeiro é diretor do departamento de estatística e o segundo do departamento de mercado de gestão de reservas. Têm um perfil técnico. Questionado, o BdP remeteu-se ao silêncio.

Os tempos não têm sido fáceis para Carlos Costa, que se tem apoiado nos últimos tempos em José Brito Antunes, o diretor dos serviços jurídicos, e seu antigo braço direito no Banco Europeu de Investimentos. Logo a seguir à renovação do mandato, o governador enfrentou o falhanço da primeira tentativa de venda do Novo Banco e, em dezembro, a resolução do Banif. Mais recentemente, o BdP voltou a estar debaixo dos holofotes, com o regresso de Luís Costa Ferreira à direção do departamento de supervisão prudencial, vindo da PricewaterhouseCoopers, e a saída de Carlos Alburquerque deste departamento para a comissão executiva da CGD. O regresso de Costa Ferreira, vindo de um auditor que trabalhou para o BdP, tem gerado críticas por eventuais conflitos de interesse. A ida de Albuquerque para a Caixa também.

Se Carlos Costa está enfraquecido, outros administradores têm ganho peso. Uma parte do poder, sabe o Expresso, está nas mãos de Hélder Rosalino, o administrador do BdP que detém alguns dos pelouros considerados chave para o controlo da máquina do banco central: recursos humanos, tesouraria, sistemas e tecnologias de informação e serviços administrativos. Rosalino, ex-secretário de Estado da Administração Pública do Governo de Passos Coelho, tem feito alguns cortes de custos e de regalias dos trabalhadores, o que está a criar alguns anticorpos. Regressou ao banco central em setembro de 2014, um mês depois da intervenção no BES, um dos momentos mais difíceis do primeiro mandato de Carlos Costa.

Ganhar poder

Outro dos novos polos de poder está na ex-ministra socialista Elisa Ferreira, que construiu pontes com o Banco Central Europeu (BCE), enquanto eurodeputada. Foi relatora da proposta que deu origem às novas regras da União Bancária, aproximando-se nessa altura de Danièle Nouy, administradora do mecanismo único de supervisão do BCE e uma das figuras relevantes nas intervenções na banca. Elisa Ferreira tem nas mãos a reestruturação do departamento de supervisão prudencial, e foi ela quem sugeriu o regresso de Luís Costa Ferreira, assessor do Ministério do Planeamento, quando esta foi ministra. Luís Máximo dos Santos, também ligado ao PS, entrou com Elisa Ferreira, vindo do ‘BES mau’ onde era presidente da comissão liquidatária. Ficou com a supervisão comportamental, serviços jurídicos e investigação e ação sancionatória.

Carlos Costa tem mais uma mudança para gerir. O diretor do departamento de estabilidade financeira, Maximiano Pinheiro, antigo e respeitado quadro do BdP, está demissionário do cargo desde o final de outubro, pouco tempo depois de ter assumido funções. Terá sido a impossibilidade de criar uma cadeira na área de investigação, inicialmente aprovada pelo governador, que levou Pinheiro a bater com a porta. Quatro meses depois ainda está por substituir, ao que o Expresso apurou depois de várias recusas.

O departamento de estabilidade financeira, criado em junho de 2013, está enguiçado. Adelaide Cavaleiro, a primeira diretora, saiu depois de algumas tensões com Carlos Albuquerque, antigo quadro do BCP. Em causa na quezília entre os dois departamentos (Estabilidade Financeira e Supervisão) esteve a antecipação da aplicação da reserva de conservação de fundos próprios para 2,5% do montante total das posições em risco, a aplicar à banca. O objetivo era que entrasse em vigor em junho de 2016, mas não entrou. Albuquerque venceu. E a antecipação do montante da reserva foi revogada em fevereiro de 2017. Adelaide Cavaleiro saiu da direção do departamento de estabilidade e está agora no departamento de relações internacionais.