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Jovens, voltem e criem cá empresas

rUI DUARTE SILVA

Programa incentiva o regresso de jovens emigrantes qualificados

Bruno Serdoura, 33 anos, um gestor financeiro que há dois anos se transferiu de Londres para Zurique, e Ricardo Pinto, 29, engenheiro baseado em Londres ao serviço de um conglomerado francês, depois de uma primeira experiência em Angola, são dois alvos potenciais de um programa da Fundação AEP para promover o regresso da comunidade (entre 30 e 40 mil) de jovens qualificados e talentosos que abandonaram o país.

O programa acolhe dois movimentos, um dos quais (Elevar o seu Negócio 4.0), procura seduzir os jovens pelo lado do empreendedorismo, com projetos de raiz de alta intensidade tecnológica ou replicando negócios já existentes, conferindo-lhes escala e visibilidade. A fundação já fora um agente ativo na discussão pública da Lei de Bases das Migrações e quis manter a dianteira na mobilização da sociedade e na adoção de medidas concretas para promover o regresso e valorizar o contributo dos jovens qualificados através do programa Empreender 2020 — Regresso de uma Geração Preparada que decorrerá até ao fim de 2017.

“É um desperdício não aproveitar a capacidade desta geração cheia de mundo e talento”, diz Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP). O empresário diz que o Empreender 2020 visa “dar voz e poder” à diáspora sub-40. A principal mensagem é dizer a esses jovens que “o país os acarinha e que o seu contributo é essencial para valorizar a nossa economia”. O programa permite, pela primeira vez, “traçar o diagnóstico e perfil dos jovens emigrados”, através dos dados de um inquérito que serão tratados depois por uma equipa da Universidade de Coimbra. O inquérito permitirá separar quem prefere regressar com o fato de assalariado ou vestir a pele de empreendedor.

Rede colaborativa

Bruno e Ricardo desconheciam a iniciativa e souberam pelo Expresso do inquérito. Bruno comenta: “Em teoria, eu poderia regressar, se tivesse uma oferta profissional adequada. Mas, como atuo na gestão de investimento, as hipóteses são quase nulas. As oportunidades estão nas grandes praças mundiais”. Ricardo alinha pela mesma lógica. Um regresso só depende de “um emprego estável em condições atrativas”. “Gostaria de regressar, mas dificilmente contaria com as mesmas condições e desafios que tenho fora de Portugal”, acrescenta.

Nunes de Almeida reconhece ser utópico admitir um regresso em massa ou a explosão de novos negócios. Nem é fácil compor um pacote salarial atrativo. Mas os indisponíveis para o regresso podem ser úteis na criação de uma rede colaborativa, funcionando como antenas de empresas portuguesas no exterior. O programa tem a virtude “de reforçar a ligação dos jovens ao país“ e incorporar “modelos de acolhimento adequados”, seja como assalariados ou através de negócios próprios. Nos dois casos, os jovens beneficiam do conforto do núcleo de curadores da fundação que inclui os principais conglomerados portugueses. Quem se aventurar como empreendedor contará com o “firme apoio” na agilização de processos, ligações a incubadoras, à banca, sociedades de capital de risco e da experiência acumulada da AEP, através do programa Apreender.

A atribuição de prémios em três categorias confere uma dose suplementar de visibilidade à iniciativa Elevar o seu Negócio. Um deles (Empresárias & Tecnologia) está reservado ao público feminino, para negócios com elevada incorporação de tecnologia e conhecimento. Os outros dois destinam-se a projetos industriais (Indústria &Intensidade Tecnológica) e serviços (Serviços & Conhecimento). As candidaturas decorrem até 15 de março.

No mercado dos prémios, a única iniciativa para o universo da diáspora, com carácter genérico e de carreira, pertence à Cotec, que desde 2008 entrega o Prémio Empreendedorismo Inovador — os últimos distinguidos foram Augusto Pinho, luso-canadiano que opera na transformação alimentar, e José Neves, o fundador da Farfetch, uma empresa com uma dupla face luso-britânica. Se outro efeito não resultar desta iniciativa para a comunidade emigrante, fica-lhe o consolo de servir de pretexto para gerar negócio a quem ficou no país — o orçamento do Empreender 2020, financiado por fundos comunitários, é de €500 mil.