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Como as universidades criaram laboratórios de empregabilidade

Há cada vez mais empresas a recrutar diretamente nas universidades

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O recrutamento mudou e muitas empresas preferem identificar talento durante a sua formação. As feiras de emprego são hoje obrigatórias na ‘guerra’ pelos melhores

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

De norte a sul do país, é rara a instituição de ensino superior que não realize uma ou mais feiras de emprego, a cada ano letivo. O conceito é simples: juntar num mesmo espaço empresas com necessidades de contratação ou de identificação de talento para vagas futuras e candidatos — regra geral recém-graduados ou em vias de graduação, à procura de uma porta de entrada para o mercado de trabalho. Mas ao longo dos últimos anos, estas feiras de emprego ou career forums (fóruns de carreira), como são designadas em instituições de ensino com maior orientação internacional, mudaram, e muito.

De modelos simples, onde as escolas até se debatiam com dificuldades para atrair empresas e assim aproximar os seus alunos do mercado de trabalho, estes eventos tornaram-se “operações de logística” bem estruturadas, que combinam a vertente do recrutamento com a da formação (em formatos de workshops com especialistas empresariais) e que são hoje estratégicos nos planos de recrutamento de qualquer empresa. Com muita facilidade, um evento desta natureza, reunirá centenas de oportunidades de emprego em escassos metros quadrados. E no radar das empresas estão os melhores talentos de cada universidade.

Na semana que se inicia há pelo menos dois eventos do género a decorrer. O Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) organiza em Lisboa o já bem conhecido Career Forum, de 21 a 22 de fevereiro, e o ISCTE-IUL volta a repetir uma receita sucesso: o FISTA’17, um evento de recrutamento direcionado a graduados das áreas de tecnologias de informação e Arquitetura, que decorre também em Lisboa, a 22 e 23 deste mês. Ambas as instituições de ensino admitem que quantificar os recrutamentos que daqui decorrem não é fácil, “até porque muitas empresas recolhem informação sobre os candidatos e só mais tarde avançam para contratações efetivas”, explica Helena Faria, diretora do Centro de Carreiras do ISEG. Mas reconhecem o impacto que as iniciativas têm na preparação dos alunos para abordar o mercado de trabalho e na sua empregabilidade.

A primeira vez que o ISEG realizou o seu Career Forum foi em 2002. Na altura, relembra Helena Faria, estiveram presentes 26 empresas. Um número muito distante das 60 que já asseguraram presença na edição que arranca na próxima terça-feira. “Para as empresas trata-se de identificar talento quando ele ainda está em formação e garantir a captação dos melhores para a sua estrutura”, explica acrescentado que a presença nestes eventos se tornou estratégica para as principais organizações nacionais. Até 2011, o evento de recrutamento do ISEG reunia apenas stands de empresas e apresentações institucionais das mesmas.

O tipo de atividades cresceu a par com o número de empresas envolvidas e com as exigências dos alunos e dos tendências de recrutamento. “Nos últimos anos, para além dos stands e das apresentações das empresas, começaram-se a desenvolver pitch’s (apresentações de alunos) de alunos para painéis de empregadores, pequenos-almoços de negócios, entrevistas rápidas e workshops”, explica reconhecendo que estas iniciativas servem os propósitos de recrutamento das empresas e, não menos importante que isso, “ajudam, desde cedo, a treinar os alunos para abordar o mercado de trabalho e garantir a sua empregabilidade ao longo de toda a carreira”. Na edição deste ano, Helena Faria conta com uma adesão de cerca de 2500 alunos (não é obrigatório que pertençam ao ISEG) e 60 empresas, entre as quais a EY, KPMG, CTT, Nestlé, Jerónimo Martins, L’Oréal, Lidl, Vodafone, entre outras. Tendo em conta que muitas destas empresas recrutam em larga escala para os seus programas de trainees, centenas de oportunidades podem estar em aberto nos dois dias do evento.

Das Tecnologias à Arquitetura

Unir, no propósito da empregabilidade, dois sectores tão distintos como as Tecnologias de Informação e a Arquitetura “não é tarefa fácil”, reconhece Marina Ventura, coordenadora de Career Services e Alumni (serviços de carreira e antigos alunos) do ISCTE-IUL. Mas foi exatamente este o propósito que norteou a criação da FISTA, a feira de emprego que a instituição realiza a partir de quarta-feira, 22 de fevereiro, nas suas instalações. Ao contrário do evento do ISEG, o FISTA resulta de uma iniciativa dos próprios alunos, que em 2012 se uniram levar algumas empresas à universidade, mais numa ótica de partilha de conhecimento com os estudantes do que propriamente de recrutamento. Desde então o cenário também mudou. “Costumo brincar e dizer que a seguir ao Web Summit este é o maior evento de recrutamento nas TI”, sorri.

70 empresas, 50 oradores, 22 workshops sobre arquitetura e tecnologias de informação e 20 TI Speak Talks, num evento que em dois dias ainda encontra espaço para um concurso de ideias — “ISCTE-IUL Green Point” que irá explorar as sinergias entre as áreas de Tecnologias e de Arquitetura —, promovido em parceria com a Deloitte e um curso de programação em parceria com a KPMG. Segundo a responsável, o FISTA vai muito além das intenções das empresas de contratar e dos candidatos de encontrar emprego. É sobretudo um evento de identificação e desenvolvimento de talentos. Isto porque as empresas, ao associarem-se à iniciativa, não só garantem a vantagem competitiva de conhecer candidatos com perfis diferenciadores, como apoiam a instituição a treinar os seus alunos para abordar o mercado de trabalho, através da preparação deste primeiro contacto com os empregadores ainda em contexto académico.