Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Banco de Portugal muda-se para as Laranjeiras

Jose Carlos Carvalho

Terreno está a ser negociado por €40 milhões para acolher edifício para 1500 pessoas

Marisa Antunes

Jornalista

Cerca de 40 milhões de euros é o valor do terreno onde o Banco de Portugal (BdP) quer construir um edifício que permita concentrar cerca de 1500 trabalhadores que estão dispersos por três prédios no centro de Lisboa, soube o Expresso junto de fontes do mercado. O terreno está localizado na Quinta Bensaúde, junto à Estrada da Luz, nas Laranjeiras, uma das (muitas) pérolas da conhecida família açoriana Bensaúde, que teve no seu espólio o Hotel Terra Nostra, nas Furnas, ou a companhia aérea SATA. Adquirido pelo Carlos Saraiva em 2009, através da empresa Irgossai, acabou por ir parar ao Millennium BCP, após a falência do empresário.

Contactado, o BdP responde através de fonte oficial que a instituição “ainda não fechou qualquer negócio relativo à aquisição do terreno aludido, mantendo-se a decorrer o processo de avaliação de possibilidades para uma eventual evolução no sentido de concentrar vários edifícios num só, sem prejuízo de manter a sua sede na Baixa”. Mais, explica que “não se trata de construir uma nova sede — que se manterá na Baixa, na Praça do Comércio, no mesmo edifício onde está atualmente — mas apenas um edifício de escritórios para agregar as várias localizações que o banco está presentemente a usar (Avenida Almirante Reis, Rua Castilho, Avenida da República)”.

Apesar de não estar ainda fechada a aquisição, o BdP já sinalizou o terreno, o que torna firme a sua intenção de adquirir o espaço verde que tem estado devoluto há anos, soube ainda o Expresso junto de fontes do mercado.

Uma boa parte dos trabalhadores dos serviços administrativos do BdP estão dispersos pelo Edifício Portugal, na Avenida Almirante Reis, um ativo que pertence ao banco há mais de três décadas e onde trabalham cerca de 800 pessoas, a Rua Castilho, onde estão mais 500 pessoas em espaço arrendado, e a Avenida da República, onde se encontram as restantes 200. São estas cerca de 1500 pessoas que ficarão centralizadas num só local, que deverá ter espaço suficiente para acolher um edifício de grande volumetria.

Paredes-meias com o terreno em causa (do Millennium BCP) está o Parque Bensaúde, localizado numa zona de lazer com cerca de 3,5 hectares pertencente à Câmara Municipal de Lisboa (CML).

Para que o negócio avance, adiantava o “Observador” num artigo publicado em dezembro, deve o Millennium BCP garantir junto da CML “que o terreno possa ser utilizado para o fim em questão (edificabilidade e acessos, entre outros aspetos)” — a única forma de o “BdP não correr riscos de comprar o terreno e acabar por não poder construir a sede (o que seria proibido pelos estatutos do Banco de Portugal, que apenas pode deter ativos imobiliários para corresponder às necessidades da instituição)”. O Expresso contactou o Millennium BCP e a CML, mas não obteve qualquer esclarecimento.

Atentos, alguns moradores não se têm coibido de marcar presença nas discussões públicas camarárias, tendo inclusive sido apresentadas propostas para a criação de um espaço verde mais alargado que se torne um autêntico pulmão verde naquela zona da cidade.

Uma das propostas a que o Expresso teve acesso alertava para o eventual agravamento do trânsito caso um projeto desta dimensão avançasse para o terreno, numa zona já muito congestionada pela multiplicidade de edifícios de serviços e equipamentos, como Torres de Lisboa, Loja do Cidadão, Escritórios das Laranjeiras, Hospitais da Luz e Lusíadas, Centro Comercial Colombo, Estádio da Luz, entre outros. Um congestionamento no trânsito com consequências na qualidade do ar, ruído, escoamento das águas pluviais e luminosidade sobre a zona das Laranjeiras/Alto dos Moinhos.

Terreno pertenceu a Carlos Saraiva

Adquirido em 2009 por uma das empresas de Carlos Saraiva, a Quinta Bensaúde inclui-se no lote de projetos que o empresário teve em carteira mas que nunca chegaram a avançar (como é o caso dos terrenos onde nasceu entretanto o Hotel Palácio do Governador, gerido pela sociedade de risco ECS).

O empresário, que em poucos anos criou um pequeno império com dez hotéis, três campos de golfe e outros empreendimentos turísticos, acumulou dívidas que atingiram os €860 milhões.

Como escreveu o Expresso recentemente, aquela que é considerada a maior operação de resgate financeiro no turismo em Portugal não só ficou resolvida num processo especial de revitalização (PER) como deu vida nova aos empreendimentos que estiveram à beira da falência. O destaque vai para a Herdade dos Salgados, em Albufeira, no Algarve, um complexo turístico com 220 hectares (que integra dois hotéis, dois empreendimentos turístico-imobiliários, um campo de golfe e um centro de congressos), que esteve anos ao abandono e hoje está com uma operação turística a funcionar sustentadamente, numa gestão assegurada pela ECS Capital, empresa de fundos de reestruturação que liderou o plano de recuperação do grupo CS.