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53% rejeitam ofertas de emprego

O interesse dos candidatos em mudar de emprego está a diminuir

Alberto Frias

As questões salariais motivaram 49% das recusas de propostas de emprego durante o último ano

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Há cada vez menos portugueses qualificados, e no ativo, com vontade de mudar de emprego e a culpa é dos salários que as empresas estão dispostas a oferecer. No último ano, segundo as contas do Guia do Mercado Laboral 2017, o estudo anual da consultora de recrutamento Hays que pormenoriza as tendências do mercado de trabalho qualificado em Portugal, 53% dos profissionais portugueses rejeitaram novas propostas de trabalho, mais 6% do que em 2015. Em 49% dos casos, a recusa teve como base um pacote salarial pouco atrativo. Turismo e Tecnologias de Informação são, segundo Paula Baptista, diretora-geral da Hays Portugal, as áreas mais críticas em termos de recusas de ofertas de emprego com 76% e 64% de recusas registadas no último ano, respetivamente.

O Guia do Mercado Laboral 2017, esta semana divulgado, traça um cenário desafiador para as empresas portuguesas em matéria de contratação durante este ano. Os 2641 profissionais expressam sinais de descontentamento em relação a vários aspetos da sua situação profissional — como a progressão na carreira, elencada por 73% como motivo de insatisfação, ou o pacote salarial, referido por 60% —, mas isso não se traduz necessariamente numa disponibilidade para a mudança. Na verdade, 2017 antecipa-se como um ano crítico nessa matéria: “Nunca o interesse dos candidatos em mudar de emprego apresentou níveis tão baixos como este ano”, confirma Paula Baptista.

Pela primeira vez desde que a Hays realiza este inquérito anual, a percentagem de empregadores a querer recrutar (73%) ultrapassa a de profissionais interessados em aceitar novos desafios profissionais (71%). As consequências desta tendência, admite Paula Baptista, “serão imprevisíveis e caberá às empresas prepararem-se estrategicamente para um possível cenário de escassez de profissionais qualificados”.

Ventos de mudança 
na contratação

O desequilíbrio identificado pelo estudo da Hays entre as intenções de contratação das empresas e a disponibilidade para a mudança dos profissionais qualificados impõe todo um novo cenário ao mercado de recrutamento e acentua a competição das empresas pelos melhores talentos. Uma mudança que já se vinha adivinhando há alguns anos. “Desde 2013 que as intenções de contratação das empresas vinham aumentando de forma acentuada, tendo estabilizado acima da casa dos 70% nos últimos dois anos”, relembra a diretora-geral da Hays, clarificando que se trata de uma evolução extraordinária, tendo em conta que num dos períodos mais críticos de instabilidade económica esta percentagem chegou a fixar-se nos 33%.

Do lado dos profissionais, o percurso foi exatamente o inverso e a disponibilidade para abraçar novos desafios profissionais tem vindo a diminuir. Porquê? São vários os fatores identificados pelos estudo. Apesar dos elevados níveis de insatisfação denunciados pelos profissionais inquiridos no seu emprego atual, em domínios como as perspetivas de progressão na carreira (73%), os prémios de desempenho (67%), a comunicação interna (62%), o pacote salarial (60%), o acesso a formação (59%), a cultura empresarial (54%) e os benefícios oferecidos (52%), a maioria (53%) permanece avessa à mudança e prefere não arriscar um novo desafio. O número tem vindo a aumentar e invertê-lo depende, antes de mais, da capacidade das empresas para compreenderem os sinais de insatisfação e perceberem o que é determinante para sustentar a decisão de mudança de um profissional.

Turismo e tecnologias 
lideram recusas

A maioria dos profissionais qualificados que em 2016 recusaram novas propostas laborais (49%) fê-lo por considerar que o salário oferecido não era o pretendido. Mas há outras razões que afastam os profissionais da mudança. O interesse do projeto surge como o segundo critério de ponderação da oferta e foi apontado por 37% dos inquiridos como determinante na recusa, logo seguido por condições contratuais desadequadas (31%).

Nos 12 sectores analisados pelo Guia do Mercado Laboral, apenas um regista uma redução no número de rejeições de novas propostas de emprego face a 2015, o Retalho, que registou uma redução de cinco pontos percentuais fixando-se em 2016 nos 50% de propostas recusadas. O Turismo e Lazer é o sector mais problemático. No último ano, 76% dos profissionais recusaram novas propostas de emprego. Em 2015 a percentagem não ia além dos 50%. Tecnologias de Informação (64% de recusas), Marketing e Vendas (57%) e Engenharias (55%) completam os lugares cimeiros da lista de sectores onde aliciar um profissional a mudar de emprego é mais difícil em Portugal.

Paula Baptista fala de uma mudança de cenário no recrutamento nacional que será altamente desafiador para as empresas em 2017. Ainda que o grau de dificuldade de contratação dependa, naturalmente, da função e das condições oferecidas, a especialista reconhece que “recrutar a pessoa certa será mais difícil”. Para a diretora-geral da Hays, os profissionais estão mais ambiciosos. E embora o facto de três em cada quatro trabalhadores admitirem insatisfação com a sua progressão na carreira não signifique uma decisão direta de mudança, a insatisfação gera impacto nos negócios.

Num ano que se perspetiva de crescimento, alerta Paula Baptista, “os profissionais vão querer crescer com as empresas” e a oferta salarial tende a tornar-se decisiva, para situações de retenção de quadros e novas contratações, e só 23% das perto de 900 empresas inquiridas no estudo referem o pacote salarial como um dos pontos fortes para a atração e retenção de talento.