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Dia F para Portugal

A Fitch avalia Portugal esta sexta-feira. No mercado, esperam-se palavras de aviso e um tom mais negativo. Mas aposta-se que a Fitch vai manter Portugal com um rating de BB+ (nível de lixo) e a perspetiva estável.

A Fitch deverá pronunciar-se esta sexta-feira sobre o rating de Portugal, devendo manter a classificação do país em território de ‘lixo’ e com uma perspetiva estável.

Mas no mercado espera-se que a agência de ratings faça avisos ao Governo e sinalize que os riscos atuais estão a pender mais para o lado negativo do que para o positivo. Ou seja, na próxima reavaliação, a perspetiva poderá descer para negativa, se os riscos se materializarem.

Os analistas da Fitch para Portugal, Frederico Barriga Salazar e Douglas Winslow, já deverão incluir nesta sua avaliação os adiamentos na CGD e no Novo Banco.

Os comentários da Fitch poderão pesar nos juros da dívida portuguesa que têm vindo a subir em linha com o registado na zona euro. Os juros das obrigações soberanas portuguesas rondam os 4,2%, um nível que é visto como incomportável por analistas e responsáveis de investimento.

“No geral, esperamos que a perspetiva estável seja confirmada, mas que seja sinalizado que os riscos estão provavelmente a tender para o lado negativo”, refere o Commerzbank. “Vemos espaço para a agência de ratings de aumentar a sua retórica negativa”, diz numa análise.

A 19 de agosto, a Fitch reafirmou o rating de Portugal e afirmou que a classificação está condicionada pelo elevado nível de dívida do país, fraco crescimento económico e problemas no sector financeiro.

Frisa que o facto dos juros das obrigações soberanas a 10 anos terem ultrapassado de novo a marca dos 4% recentemente também suporta “a visão de riscos potencialmente negativos para a perspectiva”. “Em todo o caso, reiteramos a nossa posição cautelosa em relação às obrigações soberanas portuguesas”, afirma o Commerzbank.

“Dado o contexto internacional de subida da inflação e das taxas de juro e o recuo registado em várias reformas internas implementadas nos últimos anos, estou à espera que a Fitch assuma uma postura cautelosa relativamente a Portugal”, afirma Steven Santos, gestor do BiG.

“Quer queiramos, quer não, as agências de rating baseiam-se nas taxas praticadas no mercado secundário de obrigações para avaliar Portugal, o que é natural na medida em que juros mais altos implicam um aumento dos custos de financiamento e um incremento das taxas exigidas pelos investidores nas emissões em mercado primário”, aponta.

Lembra que, em setembro, “a Fitch já tinha alertado para a fraca qualidade dos ativos dos bancos portugueses e previa um crescimento modesto do Produto Interno Bruto (PIB)”.

Também o diretor de investimentos do Banco Carregosa pensa que a Fitch “não deve alterar a sua notação de rating”.

“Se poderia haver algumas dúvidas, depois dos números divulgados pelo Banco de Portugal esta semana relacionados com o aumento da dívida pública líquida portuguesa a um ritmo superior à subida do produto nacional, creio que ficaram esclarecidas”, afirma João Pereira Leite.

Do lado positivo, analistas destacam o momento positivo em termos de crescimento no quarto trimestre face ao terceiro trimestre, que ajudou o país a atingir a meta de um défice de 2,3%.

A reavaliação da Fitch acontece no mesmo dia em que analistas esperam que a Agência de Gestão da Tesouraria e Dívida Pública (IGCP) anuncie o primeiro leilão de obrigações de 2017 para 8 de fevereiro, depois da emissão colocada junto de um conjunto de bancos em janeiro.

Pelas contas do Commerzbank, Portugal ficará com 25% do seu financiamento previsto para 2017 via obrigações concluído, o que é visto como positivo.

Em setembro, a Fitch fez comentários sobre Portugal e afirmou que os ratings do país estavam suportados em indicadores estruturais relativamente fortes e o compromisso das autoridades numa consolidação orçamental. Contudo, salientou que os níveis de dívida pública e externa permanecem elevados e não vão descer rapidamente, enquanto o crescimento estava a perder velocidade.

Na reavaliação em 19 de agosto, a Fitch mencionava como fatores que podiam levar a uma descida do rating do país uma renovação do stresse no sector financeiro que exigisse esforço adicional por parte do Estado. Também seria negativo se não se conseguisse baixar o rácio dívida pública face ao Produto Interno Bruto ou reduzir os desequilíbrios externos. E também não veria com bons olhos perspetivas decrescimento económico mais fracas com impacto negativo no sector bancário ou nas contas públicas.

Sector financeiro em destaque

“Será interessante ver a visão da Fitch sobre o facto de não ter sido concretizada a recapitalização d Caixa Geral de Depósitos (CGD) antes do final do ano de 2016, já que o deadline foi alargado até ao final do primeiro trimestre de 2017”, refere o Commerzbank.

Analistas destacam que, apesar de ter havido progresso em algumas questões relacionadas com a recapitalização, os aspetos mais complicados continuam sem solução.

“Com os desenvolvimentos recentes em torno da CGD e do Novo Banco, é expectável que o parecer da Fitch se tenha deteriorado ligeiramente. Porém, é importante ressalvar que o outlook da Fitch para Portugal é estável, tal como o das restantes grandes agências, não se esperando uma redução em baixa da avaliação atribuída a Portugal”, refere Steven Santos.

“O IGCP já angariou os fundos para a injeção de capital do Estado e a transferência da posição, bem como foi concluída a conversão dos CoCos”, destaca o Commerzbank. “Não houve nenhum progresso na parte mais complicada: a colocação de duas tranches de 0,5 mil milhões de euros de dívida subordinada a ser colocada junto de investidores privados, instrumentos que vão melhorar os rácios de capital da CGD”, frisa o Commerzbank.

O grande teste para Portugal está marcado para o final de abril quando a única agência que tem um rating para o país de investimento de qualidade (investment grade) faz a sua reavaliação.