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Portugal pode estar em sarilhos em 2017

Na próxima sexta-feira há nova avaliação de Portugal por parte da agência de ratings Fitch

reuters

Para Portugal, é insustentável emitir dívida aos custos atuais. E quanto mais se acentuam os problemas em outros países, como França e Itália, pior. Portugal leva por tabela. E na sexta-feira há nova avaliação da Fitch

Emitir dívida aos custos atuais é proibitivo, dizem analistas e responsáveis de investimento, que veem os juros da dívida portuguesa a poder subir ainda mais este ano.

Atualmente, os juros das obrigações soberanas portuguesas a 10 anos situam-se na casa dos 4,2%. A Agência de Gestão da tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) poderá anunciar o primeiro leilão de dívida do ano (a anterior emissão foi colocada junto de bancos) para quarta-feira, dia 8 de fevereiro.

Na próxima sexta-feira, 3 de fevereiro, há nova avaliação de Portugal por parte da agência de ratings Fitch. E em abril, a única agência de ratings que segura Portugal com uma classificação de investimento de qualidade, a DBRS, revê a sua avaliação. Não está fácil.

Por motivos internos e externos, os juros da dívida soberana portuguesa têm vindo a subir desde o verão. O mercado de obrigações da zona euro tem sido alvo de uma onda de vendas e Portugal acaba por ser um dos países mais afetados.

“A subida das taxas implícitas na dívida foi generalizada pela Europa. A título de exemplo, a França alargou 40 pontos base tal como Portugal. Ou seja, não houve nenhum evento específico, nem nenhum dado em particular que pudesse suscitar maior receio dos investidores face a Portugal”, explica João Pereira Leite, diretor de investimentos do Banco Carregosa.

“O problema é que com mais 40 pontos base a França emite dívida a 10 anos com taxa de 1.08% e com os mesmos 40 pontos base Portugal emite dívida a 10 anos a 4.15%”, afirma. “Se considerarmos que o nosso rácio de dívida pública/ PIB está em 133%, então teríamos de ter crescimentos nominais do Produto Interno Bruto na ordem dos 4% para evitar uma deterioração do rácio. Por outras palavras, emitir dívida a estas taxas (ou acima) é proibitivo”, alerta João Pereira Leite.

Portugal pode estar em sarilhos este ano? “Sim, se o Banco Central Europeu (BCE) abrandar com o programa de compras e se houver perceção por parte dos investidores de que o ciclo de subida de taxas está mais próximo, então a taxa da nossa dívida deverá subir em conformidade”, diz Pereira Leite. E avisa: “para Portugal, é insustentável emitir dívida acima das taxas atuais”.

Segundo o diretor de investimentos do Carregosa, o BCE até pode interromper a compra de dívida portuguesa mais cedo, pois sabemos que o limite é próximo dos 30% da dívida emitida e no que diz respeito a Portugal já não está longe desse valor.

Frexit e não só

Neste momento, há muitos acontecimentos mais importantes para os investidores do que Portugal.

Para começar, a Grécia, que não verá mais financiamento sem a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI), que por sua vez não está aberto a esticar mais as suas regras. Depois, a França, com o escândalo Fillon e os receios de um possível Frexit se um partido eurocéptico chegar a governo. E há o caso de Itália, com eleições antecipadas. E a Holanda, com eleições em meados de março. “Nos dias que correm, estes são países da União Económica e Monetária mais ‘espectaculares’ de acompanhar do que o que se passa em Portugal”, diz David Schnautz, analista e estratega do Commerzbank. Já para não falar do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e das suas medidas polémicas, bem como do Brexit e das respetivas implicações e incerteza.

“A recente subida dos juros da dívida portuguesa reflecte provavelmente um misto de forças domésticas e globais”, afirma ao Expresso Jack Allen, economista da Capital Economics.

“Do lado doméstico, podem estar a aumentar os receios sobre o rating da dívida da república e consequentemente da sua elegibilidade para o programa de compras do BCE”, aponta.

“No lado global, perspetivas de estímulos orçamentais nos Estados Unidos levaram para cima as taxas de juro das Treasury, arrastando consigo para cima também os juros na zona euro”. E Allen destaca que a “crescente incerteza política, sobretudo o potencial de partidos eurocépticos participarem em governos em França e Itália, podem ter levado os investidores a concentrar as atenções nas economias mais fracas da moeda única”, como é o caso da portuguesa.

Perspetivas

Apesar da conjuntura, Schnautz considera que “as obrigações soberanas portuguesas são as mais interessantes, dado os níveis elevados de juros”, com os juros da nova emissão a 10 anos a rondar os 4,45%. E os juros das obrigações soberanas a 30 anos (com maturidade em fevereiro de 2045) estão acima dos 5%.

A situação da dívida portuguesa no mercado secundário tem vindo a deteriorar-se lentamente desde o verão passado. “Olhando para a frente, será crucial concluir a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos, o que pode muito bem provocar mais do que simples comentários pessimistas da Fitch na sexta-feira”, diz David Schnautz. Como já foi dito, a agência de ratings tem agendada para 3 de fevereiro uma nova avaliação de Portugal.

“Por outro lado, o financiamento através de obrigações teve um arranque bom este ano mas não espectacular, pelo que esperamos que o IGCP realize o seu primeiro leilão de obrigações na quarta-feira da próxima semana - o que provavelmente vai colocar pressão na subida nos juros das obrigações soberanas portuguesas”, avisa Schnautz.

Frisa que “o financiamento via obrigações e o limite de compras do BCE por emitente estão interligados, mas ainda assim, a oferta é vista mais como um fardo do que uma benesse para as obrigações soberanas portuguesas”.

“Apesar dos níveis elevados dos juros da dívida portuguesa e dos altos spreads face às obrigações alemãs e outros periféricos, sentimo-nos confortáveis com a nossa posição cautelosa em relação às obrigações soberanas portuguesas”, diz o analista do Commerzbank.

Outro analista tem uma visão mais pessimista. “Vemos as taxas de juro da dívida soberana portuguesa muito acima dos 4% este ano”, afirma Alberto Gallo, sócio e responsável de estratégias macro da Algebris.

“Em geral, estamos negativos em relação aos spreads da periferia este ano”, diz. “À medida que a inflação sobe na Europa central e nos países da periferia que fizeram reformas como Espanha e Irlanda, o BCE vai ter de recuar do programa de compra de ativos e sinalizar o ‘tapering’”, refere. E lembra que “a inflação já está próxima ou acima dos 2% em muitos países”.

O que o governo pode fazer

“No lado doméstico, o governo pode continuar a implementar medidas para melhorar a sua situação orçamental, bem como fortalecer o sector bancário português”, diz Allen. “Mas tem um equilíbiro difícil de atingir, porque uma política orçamental mais apertada afetaria o crescimento económico”. “Do lado global, há pouco que o governo possa fazer”.

“Enquanto parece muito provável que partidos eurocépticos não vão participar no governo em França, Holanda e Itália este ano, há um risco claro de que os desenvolvimentos políticos no estrangeiro conduzam os juros da dívida portuguesa para cima ainda mais”.

Menos dívida abaixo de zero

A percentagem de dívida da zona euro com taxas negativas desceu para cerca de 46% em dezembro para 40% em janeiro, afirma a Reuters citando dados da Tradeweb.

O mercado de obrigações já estava a ser fustigado por uma onda de vendas no final de 2016 e este ano a tendência prossegue perante sinais de um crescimento económico mais forte e uma retoma da inflação. E a vitória de Donald Trump nas presidenciais norte-americanas gerou expectativas de uma inflação mais alta nos EUA.

Do total de 7,09 biliões de euros de obrigações no sistema, cerca de 2,8 biliões de euros, ou 40,21%, tem uma taxa inferior a zero. É o valor mais baixo desde junho de 2016, diz a Reuters.

Cerca de 22% da dívida soberana da zona euro tem uma taxa inferior à taxa de depósito do BCE, de -0,4%, quando em dezembro a percentagem chegava quase aos 30%.

Quanto à dívida de empresas, cerca de 21% das obrigações de maior qualidade (investment grade) disponíveis na plataforma da Tradeweb tinham taxas abaixo de zero em janeiro. Em dezembro essa percentagem era de 25%.