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Edifício rende milhões a Vasconcellos e Novo Banco

Nuno Vasconcellos lidera a Ongoing

Nuno Botelho

Sede da Ongoing na Rua Vítor Cordon em Lisboa foi vendida e a receita dividida entre Nuno Vasconcellos e o banco

O edifício sede da Ongoing, na Rua Vítor Cordon, em Lisboa, estava à venda desde 2013, numa altura em que já começava a ficar claro que o grupo liderado por Nuno Vasconcellos iria ruir. Foi vendido nas últimas semanas, soube o Expresso. O preço de venda terá rondado os €8 milhões. Deste montante, parte, quase €2 milhões, irão parar às mãos de Nuno Vasconcellos. Os restantes €6 milhões serão encaminhados para o Novo Banco, por penhora e dívidas da proprietária do edifício.

Situado a dois passos do coração do Chiado, com vista para o Tejo, o edifício, onde outrora se situava o quartel-general do grupo liderado por Nuno Vasconcellos e Rafael Mora, então acionista da PT e dona do “Diário Económico”, era agora propriedade da Ongoing VC 19, uma sociedade imobiliária em processo de dissolução que terá migrado do universo da Ongoing Strategy Investments SGPS. A VC 19 é detida em 99,9% pela imobiliária Rocksun, SA, de que Nuno Vasconcellos é presidente e principal acionista — a Ongoing detém 30%. A Rocksun tem um capital próprio negativo de €5,7 mil milhões e declara um ativo total de €8,1 milhões. Desconhece-se quem foi o comprador da sede.

Vai Nuno Vasconcellos embolsar mesmo os quase €2 milhões conseguidos com a venda da sede da Ongoing, ficando com a diferença entre o preço de venda (€8 milhões) e a hipoteca sobre o imóvel do Novo Banco (€6 milhões)? Um credor da Ongoing desconfia que este é um cenário que está em cima da mesa e entregou ao juiz do Tribunal do Comércio, responsável pelo processo, um requerimento para travar a operação e pedir ao gestor judicial que investigue a sua veracidade. Se se confirmar que Vasconcellos “pôs ao fresco” a joia da coroa, desviando a “carne dos ossos”, que ficaram na massa falida, é “desesperante e frustrante”, afirma o advogado Luís Carreira Graça, representante de um credor da Ongoing, em processo de insolvência.

A denúncia do advogado sublinha que a transação “privilegia um credor da Ongoing” , o Novo Banco, e permite “à figura proeminente” e principal responsável pelo colapso, Nuno Vasconcellos, “receber avultada quantia monetária”. O crime parece que compensa, defende.

Diz o requerimento que a VC 19 já celebrou um contrato promessa para vender por €8 milhões a sede, depois de o Novo Banco libertar a hipoteca (€3,8 milhões) e receber a dívida da Rocksun (€2,4 milhões). A diferença fica no universo pessoal de Vasconcellos. O advogado recorre ao latim, fumus boni juris, para alertar que, nestas coisas, não há fumo sem fogo.

É de admitir que, “através de diligências de licitude duvidosa”, a sede da Ongoing tenha sida desviada do perímetro da insolvente, reduzindo as garantias patrimoniais, “com manifesto prejuízo dos credores e trabalhadores da Ongoing”, lê-se no requerimento. Deverá o administrador de insolvência “levar a cabo as diligências que permitam apurar se a Ongoing VC 19 pertenceu à Ongoing SGPS, quando deixou de pertencer, bem assim como todos os procedimentos” que tenham eventualmente permitido que deixasse de ser. Se assim for, deverá haver uma “reversão” da posse e a reposição da situação que proteja a comunidade de lesados da Ongoing.

O liquidatário judicial, Fernando Silva e Sousa, respondeu ao Expresso que “não fala sobre os processos” em que está envolvido. O Novo Banco também não esteve disponível para esclarecer a operação. Da VC 19 ninguém atendeu o telefone.