Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

14 produtores de caracóis do Norte unidos

Há seis anos, Miguel Oliveira trocou a direção de um laboratório farmacêutico, em Lisboa, por um projeto próprio de criação de caracóis em Avintes, onde começou por investir €13 mil e já criou uma maternidade

LUCíLIA MONTEIRO

Junção de esforços visa vencer no mercado externo. Para este ano estão previstas 120 toneladas

Margarida Cardoso

Margarida Cardoso

(texto)

Jornalista

Lucília Monteiro

Lucília Monteiro

(fotos)

Fotojornalista

Para muitos dos que vivem a norte do Douro, comer caracóis pode ser coisa de franceses, lisboetas, alentejanos e algarvios, mas a verdade é que produzir estes pequenos animais parece ser um negócio cada vez mais apetecível, como prova o grupo de 14 produtores fundador da Widehelix, a primeira cooperativa de helicicultores da região.

Concentrados no eixo Porto-Braga, com um desvio até Mangualde, comercializaram 12 toneladas nos primeiros três meses de atividade e preveem fechar 2017 com 120 toneladas de caracóis frescos, cozidos e ultracongelados, a que juntam subprodutos como o paté de caracol.

Com explorações entre os 2500 metros quadrados e os 7500, querem “valorizar o sector, garantir mais qualidade ao produto, impulsionar a produção e o volume de vendas, valorizar a oferta”, explica Miguel Oliveira, fundador e administrador desta cooperativa que tem a sua sede e estrutura logística em Famalicão.

O objetivo é ganhar escala para atacar o mercado internacional e, depois das primeiras toneladas vendidas em Itália, França e Espanha, a Widehelix olha já para o Canadá, Estados Unidos e Reino Unido, animada pelo facto de ter ultrapassado a sua previsão para o preço médio de venda. “Apontámos para os €3,20 por kg, mas passámos os €4,10, o que significa que podemos ficar acima do volume de negócios de €380 mil projetado para 2017”, sublinha Miguel Oliveira, sem se esquecer de comparar estes números “com o preço médio inferior a €3/kg praticado no mercado nacional”.

Todos trabalham em equipa, “com organização e espírito de entreajuda”, de forma a assegurarem o funcionamento das suas explorações e da cooperativa sem criarem postos de trabalho adicionais. Cada um dos 14 investiu uma média de €4300 e assumiu o compromisso de vender os seus caracóis em exclusivo à Widehelix, onde controlam todo o processo do negócio, desde a produção à comercialização. A transformação é feita em outsourcing, numa empresa certificada.

A justificar o otimismo do grupo, a par dos números do negócio, Miguel Oliveira refere “os pedidos diários de adesão de novos membros” e explica que o alargamento da base da cooperativa neste momento não é possível. “A ideia é ter toda a máquina bem oleada antes de pensarmos na expansão”, mas esse será o caminho inevitável porque “a ideia é crescer e responder às encomendas, sempre de forma a garantir o escoamento de toda a produção, mas sem aumentarmos a dimensão das 14 explorações porque isso implicaria ter custos acrescidos, desde logo com pessoal”, explica.

LUCÍLIA MONTEIRO

Do laboratório à quinta

O que fazem individualmente e em grupo é criar caracóis bebés (alevins) que vão para estufas, ou parques ao ar livre para engorda. Depois, apanham os animais, vendem 95% para o exterior e usam ou vendem os restantes como reprodutores.

No caso de Miguel Oliveira, um gestor de 46 anos que trocou a direção de um laboratório farmacêutico em Lisboa por um negócio próprio no sector primário, os caracóis impuseram-se como uma escolha natural, depois de ter começado por analisar outras hipóteses como os frutos vermelhos ou o vinho. Procurou formação e informação e avançou há seis anos, quando arrendou a Quinta da Figueira, em Avintes, Vila Nova de Gaia, de forma cautelosa, com um investimento de €13 mil, para garantir as infraestruturas mínimas e ir conhecendo a fileira.

Hoje tem 5500 metros quadrados, metade dos quais numa estufa, montou uma maternidade para garantir o ciclo completo, da reprodução ao produto final, dentro de portas, tem vendas de €40 mil, submeteu um projeto a financiamentos do Proder — Programa de Desenvolvimento Rural, e já investiu uns €80 mil nos seus caracóis, concentrando a oferta nas caracoletas Maxima e Petit Gris.

E faz quase tudo sozinho. “Aqui tenho apenas o meu posto de trabalho, o que significa estar quase a tempo inteiro na maternidade e dar duas a três horas por dia à fase da engorda”, diz o produtor. Nos períodos em que a atividade exige mais, como na fase da apanha dos caracóis, a solução sempre foi a entreajuda e o trabalho conjunto com outros helicicultores. E explica: “Calendarizamos tarefas. Eles vêm ajudar-me e eu também os ajudo, o que significa conviver, trocar experiências, aprender.”