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Você está sobreendividado e não sabe?

DINHEIRO. Famílias portuguesas endividaram-se mais em 2016. Este ano ainda vai ser pior.

O número de pedidos de ajuda de famílias sobreendividadas aumentou em 2016 ao contrário do esperado. E não se espera que a situação melhore em 2017. E você? Está sobreendividado? Confira neste artigo

O aumento da precariedade laboral está por trás do inesperado aumento do número de pedidos de ajuda de famílias sobreendividadas que chegou à Deco em 2016. Piores condições de trabalho – nomeadamente ordenados muito baixos, ao nível do salário mínimo, explicam esta tendência preocupante.

O Gabinete de Apoio ao Sobreendividado (GAS) da Deco (Associação para a Defesa do Consumidor) recebeu 29.530 pedidos de ajuda em 2016. Foram mais 474 pedidos de ajuda do que os recebidos em 2015.

E você? Está sobreenvididado? São vários os sinais de alerta que apontam para um risco de sobreendividamento, como explica Natália Nunes, responsável pelo GAS.

“O primeiro indicador é a taxa de esforço, que corresponde ao peso dos créditos no rendimento médio mensal. O ideal é que não ultrapasse os 35%”, diz Natália Nunes. Assim, há que somar todos os encargos com créditos e verificar qual o peso que têm no rendimento familiar médio em cada mês. “Tudo o que for acima de 35% de taxa de esforço é um risco que começa a crescer”, avisa a mesma responsável.

E alerta que, neste momento, “é problemático” o facto de muitas famílias terem crédito à habitação indexado às taxas Euribor. Porque assim que voltarem a subir, os encargos com aqueles créditos também vão aumentar e podem chegar a duplicar.

Outro indicador de risco é se já não se conseguir pagar despesas a tempo e horas, como as conta de serviços (eletricidade e água por exemplo). “Este é um sinal de que se pode estar em dificuldades”, diz Natália Nunes.

E se a família não consegue colocar de lado parte do seu rendimento para poupança no final de cada mês, também é um indicador que deve fazer disparar alarmes. “Se não se consegue poupar, está-se no limite”.

O que fazer quando se está sobreendividado

Não é caso para desesperar. Se estiver sobreendividado há soluções a adotar para equilibrar as finanças pessoais.

Em primeiro lugar, há que fazer um orçamento familiar, com a participação de todo o agregado familiar. Assim, consegue-se ter uma ideia geral e concreta dos gastos e identificar onde se pode melhorar o orçamento.

Depois, há que olhar de forma crítica para os créditos (crédito à habitação, pessoal, automóvel, cartões de crédito) e calcular a taxa de esforço.

Pode haver necessidade se se renegociar ou reestruturar os créditos. Cada um é um caso diferente. Por exemplo, se houver mais do que um cartão de crédito pode compensar anular vários cartões e fazer antes com um crédito pessoal com prazo determinado, com melhores condições, aconselha Natália Nunes.

“O ideal é que se contacte com as instituições de crédito com as quais se tem os contratos e negociar soluções”.

Procurar melhores preços para os diversos serviços e encargos, como telecomunicações e seguros, pode trazer poupanças e é recomendável a todas as famílias.

Manter uma vida financeira saudável

A receita para uma vida financeira descansada e equilibrada tem poucas regras e começa por haver um orçamento, com os rendimentos e os gastos.

"O essencial é fazer e gerir o orçamento familiar em conjunto, em família”, recomenda Natália Nunes. E não é preciso ser-se um contabilista ou um gestor. O orçamento familiar pode ser feito à mão num simples papel. Ou recorrer ao Excel ou a aplicações que hoje estão disponíveis para serem descarregadas gratuitamente na Internet.

“Em segundo, há que respeitar o limite recomendável para a taxa de esforço. Em terceiro, há que ter de lado, em poupança, o equivalente a cinco ou seis vezes o rendimento mensal”, diz a especialista.

Finalmente, pode-se sempre pedir orientação para a elaboração e gestão do orçamento familiar. O GAS da Deco presta apoio gratuito em todo o país e não é necessário ser associado nem estar sobreendividado.

Também existem diversos sites nacionais com informação dirigida a particulares para melhor gerirem a sua vida financeira. É o caso do site do Banco de Portugal e do ‘Todos Contam’, uma iniciativa dos supervisores financeiros. A prevenção é a melhor opção.

2017 sombrio

Em 2016, a Deco recebeu mais pedidos de ajuda de famílias sobreendividadas. “Havia a expectativa que diminuísse o número de pedidos porque a taxa de desemprego desceu e até houve algum crescimento económico, mas o número de pedidos de ajuda aumentou”, afirma Natália Nunes.

“O principal motivo para este aumento é a deterioração das condições de trabalho, a precariedade. Porque quem volta ao mercado de trabalho regressa com piores condições.

Estamos a falar de salários ao nível do salário mínimo nacional”, diz a especialista. O desemprego é outra causa por trás de muitos pedidos de ajuda, tal como as penhoras.

Natália Nunes não está otimista para 2017. “Não espero grandes alterações nesta tendência verificada no número de pedidos de ajuda porque a precariedade continua e deixa-nos receosos”, afirma.

Em 2016, 43% dos pedidos de ajuda que chegaram ao GAS vieram da região de Lisboa e Vale do Tejo, sendo que 39% dos que pediram ajuda trabalham no sector privado e 26% estão desempregados.

Em média, as famílias que solicitaram ajuda tinham cinco créditos no total, um valor igual ao de 2015. O rendimento médio mensal das famílias era de 1070 euros mensais e a taxa de esforço média situava-se em 67%.

Os alertas para o risco de sobreendividamento surgem em boa hora. Regista-se uma ligeira subida da procura por crédito por parte de particulares e uma menor restrição na concessão de crédito. A banca refere que as pressões exercidas pela concorrência terão contribuído para uma ligeira redução da restritividade na concessão de crédito. No inquérito aos bancos, divulgado pelo Banco de Portugal (BdP), “uma instituição indicou ainda que a redução na perceção de riscos associados às perspetivas para o mercado de habitação e à situação económica em geral terão contribuído para critérios ligeiramente menos restritivos nos empréstimos a particulares”.

No quarto trimestre de 2016, os bancos a atuar em Portugal reportaram “um ligeiro acréscimo da procura” de crédito por parte de particulares, segundo o Banco de Portugal. “Três instituições indicaram um ligeiro acréscimo da procura de empréstimos para aquisição de habitação e duas instituições indicaram um ligeiro acréscimo da procura para consumo e outros fins”, refere o BdP no ‘Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito’ de janeiro de 2017. “Entre os fatores que contribuíram para esta evolução da procura por parte dos particulares, os bancos destacaram a confiança dos consumidores, as perspetivas para o mercado de habitação, o nível geral das taxas de juro e as despesas de consumo relativas a bens duradouros. Para os próximos três meses, a maioria dos bancos não antecipa alterações significativas na procura de empréstimos”.

Em novembro, o crédito total concedido a particulares caiu 1,5% em termos de variação homóloga mas o crédito ao consumo disparou 13,2%.

No total, a dívida de particulares caiu em novembro de 2016 para 143,5 mil milhões de euros, do qual 103,1 mil milhões de euros corresponde a crédito à habitação, segundo dados do BdP. O valor regista uma quebra tanto em termos mensais como em comparação com novembro de 2015. No total, os particulares têm dívidas correspondentes a 78,5% do Produto Interno Bruto do país, segundo o BdP.

Sinais de alarme

Taxa de esforço superior a 35%

Fazer pagamentos fora do prazo

Incapacidade em constituir poupança

O que fazer se estiver em risco

Faça orçamento familiar

Corte nos gastos

Renegoceie e reestruture créditos

Pedir orientação para otimizar o orçamento familiar