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Protecionismo ameaça crescimento mundial

Xi Jinping fez em Davos o discurso que muitos gostariam de ouvir de Donald Trump

GIAN EHRENZELLER/ EPA

China vermelha quer liderar a globalização no século XXI

O início de 2017 trouxe dois momentos inesperados, um em Washington, no quartel-geral de Christine Lagarde, e outro em Davos, no encontro anual da elite mundial da finança.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) atualizou, esta semana, as suas projeções económicas para 2017 e 2018, mas deu a entender que são mais do que nunca provisórias. Teremos de esperar por abril, pela publicação do “World Economic Outlook”, para que os prognósticos possam ser “mais específicos”.

Na localidade dos Alpes suíços, na terça-feira, na abertura do World Economic Forum, o Presidente da China surpreendeu ao dar a entender que a atual segunda economia do mundo quer ser a campeã da globalização. Xi Jinping apelou mesmo aos líderes mundiais para que se mantenham fiéis à globalização.

A economia mundial parece estar do avesso. O FMI diz que a “paisagem económica global está em mudança”, mas espera para ver. O principal organismo de previsões mundiais diz que “há uma dispersão ampla de resultados nas projeções”, pois há uma enorme “incerteza” sobre a política da nova Administração Trump.

Salva de palmas para Xi Jinping

O líder da maior potência comunista do mundo torna-se o principal político a defender a globalização, que sempre foi a bandeira do capitalismo financeiro global. Xi usou metáforas que surtiram efeito na audiência de Davos e nos media internacionais: “Defender o protecionismo é como fechar-se num quarto escuro. O vento e a chuva certamente ficarão lá fora, mas também a luz e o ar.” Arrancou uma ruidosa salva de palmas em Davos quando afirmou o óbvio: “Ninguém sairá vencedor de uma guerra comercial.” “Trata-se de um posicionamento estratégico, dentro de uma perspetiva de longo prazo de Pequim”, diz-nos Dan Steinbock, investigador no Instituto de Estudos Internacionais de Xangai.

Mesmo com toda a incerteza reinante, os técnicos do FMI resolveram rever em alta as projeções de crescimento dos Estados Unidos para este ano e sobretudo para o próximo. Melhoraram as projeções para Alemanha e Espanha nos dois anos e para a China, o Japão e Reino Unido, em 2017.

Mas não arriscaram subir as taxas de crescimento mundial anual, que se mantêm idênticas às avançadas em outubro passado, aquando da assembleia anual do Fundo. Na realidade, cortaram, agora, as projeções para um rol de grandes economias. Itália, a mais vulnerável da zona euro, e a Arábia Saudita sofreram uma revisão em baixa nos dois anos da projeção. Em 2017, vão crescer menos do que o previsto a Índia, os cinco países da Associação das Nações do Sudeste Asiático, o Brasil e o México (um dos alvos preferidos da retórica do novo Presidente norte-americano).

Se há duas grandes economias que vão acelerar — os EUA e a Índia — e duas outras — Brasil e Rússia — que vão sair da recessão, há sete que vão baixar o ritmo em 2017 e 2018: Alemanha, China, Espanha, Itália, Japão, México e Reino Unido. No caso do nosso vizinho peninsular, a desaceleração é forte: de mais de 3% de crescimento nos últimos dois anos (com défices orçamentais excessivos, acima de 3%) para o patamar dos 2% este ano e no próximo.

A impedir que a economia mundial salte para um crescimento de 4% ou mais estão “riscos negativos notáveis” que ensombram o mundo, aponta o FMI: protecionismo, crises em partes da zona euro e em alguns mercados emergentes, tensões geopolíticas e o risco de um abrandamento mais abrupto na China. Ian Bremmer, um especialista em riscos geopolíticos, fundador da consultora Eurasia, avisou em Davos que 2017 é o início de um período de “recessão geopolítica”, com o fim da era de Pax Americana.