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1952-2017. Alberto da Ponte, um homem de ação e de sonho

Alberto Frias

O antigo presidente da Central de Cervejas e da RTP teve um currículo preenchido. Mesmo doente, não deixou de sonhar e fez-se empresário

Um homem dinâmico, virado para o trabalho em equipa e para os resultados. Assim se apresentava Alberto da Ponte, um homem que nunca parou, mesmo quando lhe diagnosticaram doença cancerígena, em meados do ano passado. Gestor multinacional, com passagens pela Malásia, Itália ou Reino Unido no seu currículo, e gestor de topo de empresas como a Unilever e Mars, ficou sobretudo conhecido pela sua liderança à frente da Central de Cervejas e Bebidas, entre 2004 e 2012 - numa altura em que a "sua" Sagres destronou a rival Super Bock como a cerveja preferida dos portugueses.

A sua carreira foi sempre feita no sector privado, até à nomeação, em 2012, para a presidência da estação pública de televisão, a convite do então ministro com a tutela da RTP, Miguel Relvas. "Como homem de ação, nunca viro a cara a um desafio", afirmou sobre a experiência recentemente, aquando de uma reportagem para o Expresso (em setembro passado) sobre a sua mais recente aventura empresarial, como empresário.

O objectivo era levar para a empresa pública, contou, "as boas práticas da gestão privada", mas ainda assim a sua presidência na RTP esteve longe de ser pacífica, passando por uma sucessão de polémicas, que incluíram o despedimento do então diretor de informação Nuno Santos, no âmbito do inquérito interno ao visionamento, pela PSP, das imagens em bruto da manifestação que decorreu a 14 de novembro de 2012, nas instalações da RTP.

A reestruturação da empresa e os despedimentos que fez (chegou a afirmar em entrevista que "há gente que não trabalha um puto" na RTP" e sobretudo o processo de compra dos direitos de transmissão da Liga dos Campeões levaram a que o Conselho Geral Independente da estação pública propusesse a sua saída, depois de ter chumbado o plano estratégico da administração.

Saiu no início de 2015, por decisão do então ministro da tutela, Miguel Poiares Maduro, que não deixou de elogiar a sua "boa gestão".

À Lusa, o antigo diretor de informação da RTP, José Manuel Portugal, com quem Alberto da Ponte trabalhou, lembra "o homem muito competitivo" "defensor acérrimo dos melhores resultados. Penso que a história lhe fará justiça por ter sido o homem que evitou a privatização ou a concessão do serviço público da radiotelevisão", disse José Manuel Portugal, em declarações à Lusa, sublinhando "a grande honra" que tem em ter trabalhado com Alberto da Ponte.

Também o antigo diretor geral de conteúdos Luís Marinho lembra Alberto da Ponte na sua vida profissional: "Tinha um grande profissionalismo e competência como gestor, uma grande exigência face aos resultados e uma grande dedicação à empresa. Viveu sempre a empresa e sabia bem estabelecer metas. Uma das suas maiores características era a facilidade com que motivava as equipas", afirmou à Lusa.

O antigo diretor geral de conteúdos lembrou ainda que Alberto da Ponte "tentou que a RTP fosse uma empresa moderna e aberta, com menos direções e uma gestão horizontal" e que "conseguiu resultados quer na televisão quer na radio".

"Era um amigo e sinto muita pena e saudade", disse.

Empresário nos últimos anos

Licenciado em Ciências Económicas e Financeiras pelo ISEG e com um curso superior na mesma área na Harvard Business School em Boston, nos Estados Unidos, Alberto da Ponte presidia atualmente a mesa da assembleia-geral da Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, onde desempenhava funções de consultoria.

Prestava também consultoria à Jerónimo Martins, para a área de marca própria. Mas os últimos meses foram passados num projeto próprio, sobre o qual o Expresso escreveu no verão passado. Em sociedade com o empresário António Quaresma, na empresa Valor do Tempo, Alberto da Ponte dedicou-se a criar novas marcas, como A Fábrica das Enguias, a Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau e o mais recente O Mundo Fantástico Da Sardinha Portuguesa, uma rede de lojas dedicada só a este tipo de conservas. Explicou o seu papel: “fornecer inteligência de gestão, bom senso, fazer a diferença”.

Queria criar negócios “com uma base ideológica”, “humanizar a economia, criar emprego e redistribuir riqueza”. Esta nova aventura, numa altura em que já estava doente, explicava, dava-lhe uma nova liberdade de "poder ter ideias e criar a partir do nada".

Sportinguista ferrenho, era fã confesso de Leonard Cohen, músico falecido recentemente, que lhe musicou o seu lema de vida: "First we take Manhattan, then we take Berlin".

Alberto da Ponte, o homem de acção, de objetivos e de sonho, morreu este sábado, aos 64 anos.